Mostrar mensagens com a etiqueta literatura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta literatura. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, maio 25

Literatura: Mérito consagrado

Parte integrante do processo evolutivo da vida de cada um, os momentos de grande concretização figuram entre todos os que já vivemos, adquirindo sempre, de imediato ou a um médio prazo, uma qualidade de motivação para tudo que venhamos a desenvolver com o nosso próprio esforço. O processo de consumação de todos os sucessos é, em primeiro, o acto de semear, depois o esforço contínuo que se realiza e desenvolve, depois o suor que resulta e, como última etapa, encontramos o efeito abonatório do mérito. Em muito do que é produzido falta a finalização da derradeira etapa que acabei de referir, o que, por ordem humana e de haver já testemunhado em mim semelhante injustiça, lastimo que perdure numa sociedade que é tida, pelos mais favoráveis à vida que ela propõe, como uma sociedade de esforço e mérito que, unidos, elevarão a honra de um sujeito. Todo este ideal ainda nos fascina, e é bem verdade que tudo aquilo que de nós exige o fascínio, o exige particularmente por ser algo ainda pouco visto: uma novidade a que, por vezes, aderimos com algumas reservas de início. Assistir à consagração efectiva e meritória de um longo trabalho em qualquer que seja a área, seja cultura, seja economia ou justiça, e mais áreas existirão, é algo com que dificilmente nos deparamos no quotidiano que vivenciamos e vamos vivenciando. Desta forma, o trabalho de muitos indivíduos resultará apenas no cansaço e no consequente desânimo de tarefa que não recompensou o esforço empreendido para o efeito. E, apenas para demonstrar com perfeita exactidão um dos horrores do mundo que nos integra, os poucos triunfos que um trabalhador alcança são, no grosso das vezes, alvo das piores críticas que não provirão senão de um sentimento repulsivo: a inveja.

Não esqueçamos que me refiro a José Saramago, o qual é digno de todas as condecorações que já possui e que foi coleccionando no decurso dos anos em que produziu tantos e tantos objectos de cultura. Neste caso específico, não em casos isolados que estejam a este alheios, o factor temeroso (a inveja), e conservador, teve um papel preponderante na opinião de muitas personalidades que expressaram o seu juízo relativamente à mais alta consagração que José Saramago obteve, que corresponde igualmente à condecoração de mais alto valor já atribuída a um escritor português: o Prémio Nobel da Literatura, no ano de 1998. No conjunto dos vultos portugueses socialmente reconhecidos que se expressaram acerca da atribuição do Nobel, encontramos três graus de aceitação da decisão da Academia Sueca. Em primeiro lugar damos com o conjunto de indivíduos que aplaudem, se necessário de pé, a dita decisão que premeia o escritor José Saramago. Em segundo lugar, encontramos os cépticos que, apesar de se mostrarem satisfeitos com o prémio, expressam sérias reservas em relação à decisão. Por último, há ainda aqueles que discordam com a escolha.

No primeiro conjunto de individualidades de grande simpatia descobrimos o Presidente da República de então, Jorge Sampaio, assim como o Primeiro-Ministro António Guterres (hoje entregue a preocupações muito distintas com pessoas que, em oposição a José Saramago, não saberão, muitas delas, ler ou escrever), ministros e outros políticos, como Manuel Maria Carrilho, Mário Soares ou Carlos Carvalhas, o bispo timorense D. Ximenes Belo, o rei de Espanha, e ainda, por exemplo, membros da Associação Portuguesa de Escritores. Todos estes, sem reservas algumas, mostraram o seu contentamento perante a atribuição do primeiro Nobel da Literatura da língua portuguesa, e até agora único. Este entusiasmo foi a todos inesperado: o secretismo da Academia Sueca impede qualquer pessoa de considerar que tal nome de tal autor estará dentro da discussão para vencedor ou se nem sequer se apresenta como candidato. Até à data em questão, e mesmo até aos dias de hoje, os Prémios Nobel da Literatura são de uma justiça muito questionável, tendo em consideração as próprias pessoas com poderes de decisão na escolha dos vencedores. Como exemplo, os vencedores de anos anteriores poderão influenciar directamente as decisões do presente: isso permite que um país, quantos mais prémios possuir, mais possuirá pelos interesses patrióticos dos seus autores já consagrados. Não causa admiração que países como a França, os Estados Unidos ou o Reino Unido estejam entre os países mais condecorados com este prémio internacional. A qualidade de muitos destes escritores franceses ou de língua inglesa apresenta-se extremamente aquém da de José Saramago e de vários escritores recentes da língua portuguesa, que entretanto vieram a falecer sem receber tal distinção, como Vergílio Ferreira, Miguel Torga ou Sophia de Mello Breyner. Por outro lado, é igualmente notável que tão poucos prémios Nobel tenham sido dirigidos a mulheres: o conservadorismo, talvez causado pelo frio que se faz sentir em Estocolmo, ainda está patente nas decisões de um assunto tão sério como a cultura.

No segundo conjunto de personalidades temos os reservados, ou talvez os satisfeitos mas acobardados devido à inveja latente ou à ignorância perante questões de estilo e linguagem: entre outros, saliento os nomes de D. Manuel Martins, um religioso, Eugénio de Andrade, poeta, e Maria Teresa Horta, uma escritora portuguesa. D. Manuel Martins frisou que, enquanto português, o contentamento é inerente, apesar de condenar o ateísmo de José Saramago que, na sua opinião, deveria servir-se da sua excepcional capacidade de escrita para desenvolver temáticas religiosas ou, no mínimo, menos heréticas. O poeta Eugénio de Andrade, o qual admiro formidavelmente, considerou que o prémio, ainda que atribuído com justiça à literatura portuguesa, deveria ter sagrado um poeta e não um prosador, por ser da opinião de que o génio literário português está mais visível na poesia. Aceito, sem qualquer tipo de reservas, que a poesia portuguesa, muito em particular, merecia já uma condecoração deste género; porém, quem para a receber no ano de 1998? Miguel Torga estava morto... Fernando Pessoa estava morto há muitíssimo tempo... António Gedeão não estava mais vivo que os outros... Recebê-lo-ia Sophia de Mello Breyner (para felicidade do seu horroroso filho), ou recebê-lo-ia ele próprio, Eugénio de Andrade? É possível entender esta opinião com alguma inveja da parte do poeta. Por fim, Maria Teresa Horta considera que muitas autoras portuguesas possuem uma obra tão ou mais relevante do que José Saramago. Não é novidade que defendo o sexo feminino nestas questões onde o masculino ainda parece ter um lugar de destaque e de primazia... No entanto, que mulher terá obra equivalente à de José Saramago, nomeadamente no género narrativo? Apenas uma: Agustina Bessa-Luís, que, não sendo, na minha opinião, merecedora de comparação equitativa com José Saramago, possui, na opinião deste último, o maior génio literário português. Por tal, aguardo com grande expectativa o próximo Prémio Nobel português da Literatura, que será atribuído, se Deus for favorável, à grande Agustina.

Por último, encontramos as duas personalidades que discordaram com a decisão da Academia Sueca: D. Duarte de Bragança (o futuro rei que nunca o será) e Sousa Lara. O primeiro mostrou-se ousado a ponto de questionar a competência dos membros do júri, que, no seu entendimento, não leram, com toda a certeza, as obras de José Saramago, o qual escreve de uma forma "difícil e pesada" e "pouco cristã". Sousa Lara, por outro lado, vale todas as reprimendas morais que me cabem pensar. Este antigo deputado foi o responsável, no início da década de 1990, pela deslocação de José Saramago para o país vizinho, após este deputado haver censurado o seu livro Evangelho Segundo Jesus Cristo, impedindo-o de se candidatar ao Prémio Literário Europeu.

No entanto, mesmo a nível internacional, muitas personalidades, algumas delas inseridas nos círculos de decisão dos Prémios Nobel, atribuem alguma injustiça à sua atribuição no ano de 1998: segundo muitos, a condecoração do nosso Saramago resultou de uma campanha profissional de publicidade que terá resultado no conhecido prémio. Alguns vão mais longe, denunciando igualmente a Alemanha de, no mesmo ano, haver praticado uma campanha de contornos semelhantes. Exploremos o conteúdo destes juízos: um ano antes da atribuição, José Saramago foi, na Suécia, objecto de muitas atenções da elite literária. O escritor português foi convidado a realizar uma visita a Estocolmo, capital oficial da Suécia, onde discursou na Universidade Estatal e num Seminário e deu variadas entrevistas aos mais diversos órgãos de comunicação social. Na mesma data, a televisão estatal sueca produziu um documentário relativo a José Saramago. Um mês mais tarde, a enorme Feira do Livro de Frankfurt, a maior do continente europeu, elegeu Portugal como o país em destaque na edição desse ano. Onze meses mais tarde (que, segundo os analistas que discordam com a atribuição, deverá ser muitíssimo pouco tempo), José Saramago é sagrado vencedor do Prémio Nobel da Literatura. Para muitos, o mérito faltou nesse ano; para outros, como eu, foi um ano de invulgar capacidade de projecção do nosso país: o mundo encontrava-se de olhos postos em Portugal, graças à organização da Exposição Internacional dos Oceanos, e muitos outros países, em oportunidades como as já referidas, escolheram explorar o melhor que em Portugal era feito em várias e diversas áreas. Naturalmente que José Saramago, decorrente tal facto da sua grande qualidade e reconhecimento internacional que sempre teve enquanto escritor, beneficiou dessa projecção, atingindo o momento de maior glória de um escritor português.

Terminarei o presente artigo com uma informação que talvez silencie a malvadez de tantos quantos não entendem o talento imenso de Saramago: o crítico literário americano Harold Bloom, conhecido como o mais brilhante de todos os críticos deste planeta (o mesmo que, como referi há alguns meses, reconhece Fernando Pessoa como o poeta mais influente do século XX, a par com Pablo Neruda), vê em José Saramago o maior génio literário vivo: as suas exactas palavras foram, na língua de Shakespeare, "the most gifted novelist alive in the world today". Mais palavras julgo não serem necessárias. Não deveria "o mais talentoso romancista vivo do mundo actual" receber o Prémio Nobel da Literatura, se tantos outros o recebem? Sim... e mais: deveria receber dois!

segunda-feira, maio 18

Literatura: Versos de ouro ou platina

O que tenho hoje em mãos é tarefa bem complicada, uma exigência para a qual muitos esforços não bastam que nos guiem na direcção do prometido. Olhar José Saramago como um poeta, que é o que me propus hoje exemplificar, foi, noutros tempos, bem mais simples do que o é pelos dias de agora: em alguns anos, todas as suas palavras que nas livrarias iam surgindo com o sabor fresco da novidade limitavam-se a versos, poemas alinhados num contexto preciso ou pouco rigoroso. Após essa fase, como qualquer autor, este alterou o seu método, redigindo com maior frequência romances no seu registo prosaico bem reconhecido por todos. Esse mesmo registo foi o que lhe valeu a atribuição do mais alto prémio mundial que distingue intelectuais envolvidos nesta arte, ficando a poesia cada vez mais afastada do rosto que nos acostumámos a imaginar por trás dos trabalhos que lemos da sua autoria. Ao todo, Saramago publicou três livros de poesia, com um intervalo entre publicações variável entre quatro a cinco anos. Eles, ainda hoje vendidos como marcos do início de uma carreira sólida de artista moderno, receberam, da parte do escritor, os seguintes nomes: Os Poemas Possíveis, Provavelmente Alegria e O Ano de 1993, todos publicados oficialmente algures entre o final da década de sessenta e o início da década de setenta e lidos por muitos portugueses desde então ate hoje. Não estão, efectivamente, integradas no conjunto de algumas obras de José Saramago que consideremos, com base em determinadas vantagens qualitativas, as mais formidáveis, e os seus poemas apenas, sob uma análise quase inconsciente dos mesmos, com dificuldade farão algum leitor apreciar a escrita de Saramago, se não a apreciasse antes de contactar com esta poesia. Rectificando, pois assemelho-me a delinear pelo discurso que a poesia de Saramago não merece a sua alta consideração, que, por uma análise algo mais elaborada, devemos valorizar em grande medida esses poemas: eles foram o fruto de um génio literário que, com eles, amadureceu, e que necessitava amadurecer o bastante para alcançar a mestria que viria a obter como romancista. A poesia foi, com efeito, a alternativa que Saramago não temeu, quando o seu segundo romance foi redigido e rejeitado, e que permitiu a sua constância de publicações, nunca o afastando desta sua arte. A sua maturação como escritor passou muito pela racionalização da poesia.

Um influente poeta português da modernidade, Eugénio de Andrade, como possivelmente venha a contar-vos melhor no próximo artigo, declarou certo dia, após Saramago ser galardoado com o conhecido prémio Nobel, que esse reconhecimento seria mais justo de laurear um poeta e não um prosador. É bem certo que foram os seus romances, tão lidos e tão fascinantes, que sugeriram fortemente o seu nome para a sua sagração: esquecem, porém, os próprios colegas do mundo literário, que José Saramago, no início da sua carreira, compôs muita poesia, ainda que bem longe da qualidade que outros registaram nesse campo, como o próprio Andrade ou Miguel Torga, ou mesmo Sophia de Mello Breyner. Se, pelas palavras do poeta, a poesia parece ser a expressão máxima de todo o ser português, José Saramago evidencia-se como um aparatoso caso de distinção, que se desvia daquilo que é regra. Com a prosa, o nosso mestre, assim lhe chamemos, obteve o reconhecimento que nenhum romancista do século XX esteve próximo de conhecer.

Quem melhor me souber descrever segundo aquilo que habitualmente escrevo, mais em literatura do que propriamente nestes artigos com um certo carácter de jornalismo ou de crónica, talvez me reconheça uma inflexível tendência para o subjectivo dos assuntos, emitindo opiniões pessoais onde o discurso de reflexão não seria proposto pelo grosso dos autores. Compreenderia o teor dessa mensagem se ma viessem dirigir; contudo que a sensibilidade que deixo persistir no meu narrador se altera em cada nova situação com que se depara, e essa mesma sensibilidade difere bastante daquela com que vivo os dias enquanto ser humano, como existindo, num clima por vezes pouco harmonioso e tranquilo, duas personalidades distintas dentro deste mesmo corpo, uma delas apenas se manifestando nas circunstâncias de escritor e omitindo quase na totalidade este outro que é mais visível ao olhar de todos. Não sou, porém, insensato de julgar-me mestre em confrontação com a opinião que todos parecem ter e que aceito como elogios: no seguimento deste artigo, quero certificar-vos que a opinião pessoal que eu possa ter, não vo-la manifestarei. Seria absurdo tratar a poesia de José Saramago sem os devidos exemplos que pedem um breve comentário, e se esse comentário com dificuldade poderá sair isento de um toque pessoal, isenta poderá ser a escolha dos poemas de que falarei e que para aqui copiarei para vossa leitura. O primeiro que trago é o de abertura do livro Os Poemas Possíveis.

"Dirão outros, em verso, outras razões,
Quem sabe se mais úteis, mais urgentes.
Deste cá, não mudou a natureza,
Suspensa entre duas negações.
Agora, inventar arte e maneira
De juntar o acaso e a certeza,
Leve nisso, ou não leve, a vida inteira.

Assim como quem rói as unhas rentes."

Este poema de duas estrofes e com esquema rimático consiste no conceito de literatura mantido pela consideração do autor: descreve o processo de criação literária como um processo onde a delicadeza dos excessos domina como um rei no meio de tantas outras condições fundamentais à concretização de um texto. O acto de escrever, somente este, simples ou exigente que seja, baseia-se no próprio vício de escrever e não sucede, neste autor e em muitos outros como eu próprio, de outras causas acima desta: um vício cruel ou soberbo, que outrem nos oferece em troca dos nossos mesmo resultados de participar neste jogo de criação, em que pouco se ganha. A comparação com que termina é a de quem rói as unhas, confrontação essa que eu entendo infelizmente bem, dado eu possuir ambos os vícios, e ainda que eu julgue uma dádiva de Deus saber escrever bem e com correcção, talvez, segundo diferentes perspectivas, esse acto seja tão miserável quanto o de roer as unhas; chega a surgir o problema para o qual parecemos ter sempre a resposta certa: poderá um vício ser bom? Não, dizemos sempre. Será?

"Caminhámos sobre as águas como deuses,
E fomos deuses.
Todo o arco do céu as nossas mãos traçaram,
E os traços lá ficaram.
Olhamos hoje a obra, cansados arquitectos:
Não são os nossos tectos."

Este outro poema de singular simplicidade e sinceridade é parte do livro Provavelmente Alegria, e descreve o passar do tempo sobre as sensações, os gestos e as emoções que duas pessoas podem experimentar. O facto sentimental que o poeta nos reporta não diz apenas respeito a dois amantes, mas igualmente a dois amigos ou a dois elementos da mesma família. A sensação é a de sermos absolutamente contentes num instante, não significando por isso que essa felicidade se prolongue através dos anos, ou mesmo que a felicidade do conhecimento e da experiência venha a demonstrar-se contentamento depois de passar o tempo. Os indivíduos, dos quais somos todos exemplo ilustrativo, alteram-se ao sabor das vivências e subjugam-se às diversas realidades que fazem os dias nem sempre se perceberem como uma sucessão perfeita de horas sobre horas, num ciclo invariável. Somos hoje, estamos hoje como estamos, porque nos rodeiam as condições para o sermos. Seremos amanhã diferentes de hoje porque também o dia é outro, com o fim do dia anterior sumiu-se a forma de se estar naquele dia e de se fazer o que se fez. Esta realidade mais se notará se considerarmos a possibilidade de a analisarmos com a diferença de meses ou anos de entremeio.

Aqui vos trouxe parte da poesia do nosso querido escritor. Recomendo vivamente a todos os interessados que leiam alguns poemas e alguns versos de Saramago: é interessante verificar que a construção frásica que tanto ligamos à sua escrita não se limita a surgir em romances ou em prosa, mas também noutros géneros literários. Por fim, em gesto de conclusão, deixo-vos com um derradeiro poema. Fala do amor e da força de uma ou duas pessoas. Lanço-vos o desafio, do qual deverão depreender uma conclusão através de uma mensagem subliminar: leiam esse poema como dirigido a vós em todas as circunstâncias da vida, não só no amor, mas também nos projectos de realização pessoal, na família e no modo de encarar a sucessão dos dias de que tenho vindo a falar como repetição constante. Perdoem-me.

"Sublimemos, amor. Assim as flores
No jardim não morreram se o perfume
No cristal da essência se defende.
Passemos nós as provas, os ardores:
Não caldeiam instintos sem o lume
Nem o secreto aroma que rescende."

segunda-feira, maio 11

Literatura: Certos sinais de incerteza

O nome que atribuo a este artigo de hoje pouco diz respeito ao seu fundamento teórico, antes se insinua em relação a uma gama de sinais do Além que tenho recebido na minha intimidade e que escolho expressar ao geral de público, como se tivessem muito poder de destruição se ficassem como segredos meus, mas fossem inofensivos sinais se o seu risco se dissipar por muitas almas. Diz, assim, mais respeito a um desabafo que muitos considerarão de bom humor, e que por noção de estética e muitas outras que o tempo me fez adquirir no conjunto das demais, pretendo que construa o início imediato deste artigo que me apraz divulgar-vos. Passam já certos anos, mais longos que os dias se estes se isolam na conjuntura que se forma em nós pensantes, desde que me dei perante um teste de personalidade que, de uma forma genérica, não resultou em novidade alguma para o meu conhecimento de mim mesmo: somente teceu sobre mim uma consideração que logo compreendi ser verídica. Nela se dizia que as minhas horas de maior actividade são as que se dão enquanto os outros dormem, e eu insisto em não fechar os olhos. Durante todo o tempo que tem passado, essa situação, que sempre reconheci como acertada tendo em conta o que nitidamente entendo de mim próprio, apenas se tem afirmado consistentemente em ocasiões muito singulares, como por exemplo a frequência de dias em que durmo a sesta ou passeio e vagueio durante a tarde, para trabalhar e esforçar-me até altas horas do serão e da madrugada, quando já todos repousam de um dia cheio, o qual passou por mim de uma forma dissonante. Contudo, descobri há coisa de semanas, ou mesmo meses, que o teste podia estar a avisar-me de que um grande prazer, então escondido ante a máscara da improbabilidade, esperava a minha atenção: encontrei muita satisfação quando um dia, todos já deitados e alguns roncando durante o seu sono, cheguei com a ideia de não me deitar também eu, mas antes disso ver um filme, apreciá-lo na paz enorme que o silêncio e o escuro conseguem conceder aos seus apaixonados. Em mim, a noite tem a forma de singela tentação; mesmo que a minha actividade venha a significar que me sirvo menos do sono para o repouso pessoal, o prolongar dos trabalhos ou do lazer pela noite fora têm-me mostrado uma nova maneira de viver os dias, e como eles podem ser bem maiores do que julgamos. O dia tem, efectivamente, vinte e quatro horas, às quais se seguem outras vinte e quatro horas; para as comuns das pessoas, o dia tem dezasseis horas, porque o sono de oito horas diárias é nelas uma certeza inabalável e inviolável. Ora, no meu entendimento da questão, o sono insere-se na altura em que preciso dele, seja de tarde, seja de noite.

Todo este horror de linhas escritas para vos contar que há dois dias vi um filme, que adquiri nas férias da Páscoa passadas, sozinho, no calor do meu leito. O que me fez preferir esse filme e preterir as outras hipóteses foi a magnífica actuação do meu actor de eleição, Al Pacino, que nos leva para além do imaginável trabalho do melhor actor em que pensemos. O tema do filme, contudo, pouco ou nada interferiu na escolha a que procedi: aborda, através da personagem que Pacino interpreta com mestria, a cegueira. Esquecia-me eu, nesse tempo, que no dia seguinte, ontem, veria, na companhia de dois íntimos amigos, o filme Ensaio sobre a cegueira, a partir do romance de José Saramago. Ao início jogando com a situação, disse serem sinais de uma cegueira futura que se abaterá sobre os meus olhos. Brincadeira ou não, hoje apercebi-me que falava em cegueira, numa daquelas expressões populares em que referimos a cegueira, como fazer algo às cegas. Não foi esta a expressão, todavia. E oxalá à minha saúde que as minhas ousadias não clamem por castigo ou que nada do que antevejo venha a concretizar-se.

Para alguém, como eu, que conhece bem a obra mencionada, tais sinais até carecem de alguma solidez, assumindo que a cegueira que José Saramago refere não se trata de uma cegueira da própria visão, mas da consciência humana. Esta interpretação vem de um estudo e mesmo de alguma pesquisa que desenvolvi por precaução contra informações que eu pudesse prestar sem o mais completo rigor. A obra, em traços gerais se os mais não me são absolutamente permitidos, conta-nos do alastrar de uma epidemia macabra que faz toda a população de um sítio incógnito apanhar cegueira, deixando de ver senão um cenário plenamente branco defronte dos olhos. O primeiro indivíduo a cegar perde a visão durante a condução. Esse acaba por alastrar o mal a quem lhe roubará o carro, à esposa e, por exemplo, ao condutor do táxi que o levará a uma consulta de oftalmologia. O médico que o assiste, desconhecendo a origem daquela patologia nunca estudada por médico nenhum da sua praça, decide estudar toda aquela invulgaridade. Pouco tempo se dedica ao projecto: nas próximas horas há-de cegar, sendo enviado para um antigo hospital de psiquiatria, até então abandonado, que os responsáveis nacionais pela saúde elegem como lugar para onde enviar os portadores da nova doença contagiosa. Quando estão para levar o homem para a quarentena, sua mulher diz aos enfermeiros estar igualmente cega, sendo transportada de forma igual. O intento de mulher do médico é não se afastar do marido, mas a sua condição, a princípio ignorada pelos restantes infectados, fará com que esta mulher veja os comportamentos da raça humana pela sobrevivência, na miséria e indecência extremas. Esta mulher, cercada de cegos, acabará por nunca perder a visão, ajudando tantos quanto vai sendo da sua capacidade. Vão chegando mais e mais cegos; diariamente os guardas depositam à entrada do hospital os alimentos necessários ao sustento e manutenção daquelas vidas, que com dificuldade tentam adaptar-se às suas novas limitações. Certo dia, todos são vitimados por um plano maldito levado a cabo por um grupo de homens cegos: portador de uma arma de fogo, o chefe destes homens toma conta de todos os alimentos, sujeitando todos os outros cegos a determinado pagamento em troca de géneros alimentícios. Quando os objectos de valor, utilizados para o dito pagamento, se esgotam, os alimentos passam a ser entregues mediante outro preço: que as mulheres de todas as camaratas se dirijam, noite após noite, perto desses homens para que eles se sirvam delas desde o serão até de madrugada, chegando a matar algumas durante os actos obscenos. O horror que terminei de relatar tem termo quando um incêndio destrói tanto o hospital como grande parte dos infectados. Já havia deixado de haver guardas a vigiar o hospital: toda a população humana estava infectada, matando-se pela própria existência. A sociedade e a civilização, pela descontinuidade de apenas uma das suas bases, haviam cedido. Um grupo de cegos, auxiliado pela mulher do médico, possui as únicas possibilidades de se sagrar sobrevivente diante de tamanha desorganização de uma cidade fantasma, onde cegos persistem em tentar encontrar comida num supermercado há vários dias vazio. Cães alimentam-se de humanos mortos; a chuva limpa a rua de cadáveres; o Sol faz tudo feder. Com muito tempo passado, a humanidade deve limitar-se a pouco do que era antes, quantitativamente falando. O primeiro cego, sobrevivendo sempre junto da mulher do médico, recupera a visão. Pela devida ordem, todos verão de novo. Apenas a mulher do médico, agora não necessitando de olhar por si e pelos outros, se arrisca a tornar-se cega por fim.

A obra, tanto em livro como em filme, apela à consciência humana, à ajuda mútua, à cooperação, à sabedoria. A cegueira de toda a humanidade é a sua carência de valores de integridade, de bondade, como os humanos os conheceram há muitos séculos. O consumismo, o comodismo e o egoísmo são somente factores da cegueira de que sofre quase toda a espécie humana. Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara é a expressão que sintetiza, segundo Saramago, a sua obra: afinal, quase sempre olhamos para os outros... mas quantas vezes reparamos neles efectivamente?

Uma diferença lógica entre livro e filme, e que adquire um interesse muito amplo, é o facto de o filme ser uma sucessão de imagens, enquanto um livro consiste num relato cujos leitores ou ouvintes devem imaginar o sucedido e que lhes é contado. No livro de José Saramago, esse conceito é utilizado e aproveitado até ao limite: um leitor não vê, apenas imagina a imagem que o narrador pretende desenhar: como numa cegueira verdadeira. Somos, assim, tornados também nós cegos, lendo uma obra sobre a nossa própria cegueira, seja ela de não ver imagens, seja ela de não ver a realidade factual. Num filme, tudo se altera, como sabemos. As imagens seguem-se uma à anteriormente exposta: e o público vai tomando contacto com os factos, assistindo a eles, observando-os. Não direi que o filme remove o conceito que Saramago criou, se mesmo este grande escritor não hesitou, profundamente comovido, em situar este filme do realizador brasileiro Fernando Meirelles na perfeição a que é possível um filme chegar. O realizador, e toda a parte técnica por detrás da gravação, deu atenção a todos os detalhes - a imagem do filme baseia-se no tom claro, ou mesmo no branco: as personagens têm, regra geral, pele muito clara, as paredes são brancas ou são de vidro, o carro do primeiro cego é branco, as armações das camas das camaratas são brancas, etc. Tal e qual a cegueira branca que nos conta José Saramago. Esta história é a essência de um dos livros mais vendidos e aclamados deste escritor maior. O filme, muito recente, ajudou claramente à persistência do sucesso que o livro sempre teve. A par com Memorial do Convento e O Evangelho segundo Jesus Cristo, Ensaio sobre a cegueira é tido como a grande obra literária de José Saramago. Sempre soube, desde que me lembro, que surgiu, há imenso tempo, uma proposta de cedência de direitos de autor para a realização de um filme baseado na obra Memorial do Convento. Desconheço o que está por detrás tanto da proposta como da rejeição de Saramago; todavia, creio que este sabe bem de que forma se terá comprometido e penso que teve as suas razões para não deferir o pedido. Noutras ocasiões permitiu o uso dos seus conteúdos em obras de outras artes: como exemplo, este filme Ensaio sobre a cegueira ou a ópera italiana Blimunda, a partir de Memorial do Convento e que foi um enorme êxito no teatro Scala de Milão. Em certas pessoas podemos confiar os destinos da cultura e da literatura portuguesas, que eles saberão bem, ou muito bem, o que fazem.

segunda-feira, maio 4

Literatura: Falemos de árvores e de frutos

Por hoje, assumindo já a minha posição diante de uma janela descoberta por onde vem entrando a luz clara da nossa estrela, o Sol nasceu com um brilho que nos tem aquecido a todos, propiciando uma excelente dose de boa disposição muito recorrente deste estado do tempo. Forças honrosas e virtuosas, mas implacáveis no rigor que exigem, forçam à minha posição nesta cadeira, confrontando a luz atrás de um vidro e percorrendo este teclado com estes mesmos dedos de sempre, ao invés de, como mais me agradaria, descer os poucos degraus que me unem ao exterior e balançar os passos por vários quarteirões a queimar-me sob o calor - com a devida moderação. E advém de um espírito que tento conservar apesar de quaisquer adversidades que espreitem - o espírito da satisfação corrente - que me acontece não poder, por razões de ordem moral, banhar-me de Sol e, ainda assim, admirar o que me envolve e deixar-me envolver sinceramente na fascinação do estado ideal de uma mente contente. Quantas vezes o juízo de me encontrar no completo usufruto da luz não faz justamente as vezes do efectivo passeio ao Sol? Ou quantas vezes julgar-me direito, lado a lado com o tronco de uma árvore esguia e farta de ramagens, não implica uma satisfação semelhante à que recolheria se, na verdade, lá estivesse?

Essa árvore poderia bem ser um castanheiro, uma videira, uma laranjeira... E todas as demais espécies que constam dos livros de botânica, que as classificam perante nós como tratando-se de um catálogo. O nome por que evocamos as diversas árvores pode, de acordo com uma reflexão que completei há alguns minutos, dar azo a algumas confusões e erros que escapam ao vulgo: afinal, uma videira é uma verdadeira videira porque dos seus ramos nascem as uvas. Falso. Nada mais falso. E, por consequência de não me identificar com as massas de gente que apontam males sem sugerir resoluções, passo à correcção de tão possível erro de todos nós. Com efeito, o fruto que daqueles ramos vemos nascer, ou sabemos que nasce se nos falta o conhecimento visual, é a uva pelo facto de se tratar aquela árvore de uma videira. A videira é a causa da qual resulta a uva. A uva é o efeito de ali estar uma videira. Nunca a consequência poderia ser a causa da própria causa, ou estaríamos a meditar acerca de casos muito singulares que não importam sobremaneira à questão fundamental que aqui apresento. Certo é, para todos que me lêem, que hoje deveria falar-vos de José Saramago e da sua obra romanesca, em sequência da sua biografia que escrevi já vai para uma semana. Mas que restem ilusões para outras ocasiões onde elas sejam mais válidas. Como homem de palavra, aqui trago a obra de Saramago, mas apenas construindo a ponte da qual apoiei já os fundamentos: da igual forma que a uva não faz a videira mas o oposto já se admite, também não é uma boa obra que faz que ali esteja um bom escritor, mas sim é verdadeiro que é um bom escritor aquele que escreve uma boa obra. A obra literária de José Saramago é, conscientemente o afirmo, fruto de uma mente de génio.

Hoje tratarei somente a sua obra em prosa, pela qual ele é o grande escritor reconhecido em tantas partes deste mundo. Sobre a sua obra poética, em particular, escreverei de hoje a duas semanas, enquanto a sua obra dramática foi já digna da minha consideração no artigo que do teatro português fez assunto. Em primeiro lugar, antes de muita mais informação que aqui será depositada para vosso próprio enriquecimento, penso ser útil separar as duas fases em que é possível dividir a obra romanesca do nosso escritor. Se pensarmos na fase, já mencionada na passada semana, em que José Saramago muito se dedicou à composição dramática e poética, damo-nos conta de que tal obra, no seu geral, é passível de sofrer uma divisão em três fases diversas. No entanto, visto que me refiro à produção de romances, encontramos apenas duas fases que merecem diferenciação. A primeira, entre 1980 e cerca de 1991, e a segunda dizendo respeito ao tempo decorrido entre o final da primeira fase e os tempos que correm. Curiosamente, os limites que aqui acabo de anunciar coincidem com a transferência de Saramago para a ilha de Lanzarote, nas Canárias, onde permanece residindo a quase tempo inteiro. Esta situação pode auxiliar-nos no entendimento de que um episódio de grande mudança numa vida pode induzir a profundas transformações no modo como a pessoa encara mesmo a sua função, a sua ocupação. Claro que num artista essas transformação são mais frequentes e menos calamitosas, uma vez que essas mudanças vão conduzir a alterações na sua obra, que só dele depende, e mesmo a vai tornar mais rica. O primeiro período temporal que determinei foi no qual Saramago definiu o seu estilo próprio, hoje tão conhecido e influente, e em que se dedicou em especial à redacção de romances históricos, enquadrando, sobre um pano de fundo histórico, uma junção saudável entre o realismo e a opinião pessoal sobre os acontecimentos e rumos da História. José Saramago deixa-se, tantas vezes, adicionar alguns ingredientes à própria História, contando-nos os factos de uma outra forma que nos conduza à leitura do passado com os olhos que ele nos está pedindo, do alto do seu raciocínio. Esta característica levou os ingleses a apelidar o estilo literário de Saramago como realismo mágico, textualmente traduzido da anglofonia. O que, no fundo, os aliados ingleses e americanos pretendem dizer acerca do nosso escritor é que este descreve-nos a realidade de um tempo já passado de uma forma pouco convencional e não tanto fielmente ilustrativa, mas em vez disso serve-se da sua vasta imaginação para, com ideias irreais que nos fogem à lembrança, nos fazer perceber melhor a História do que simplesmente enumerando os factos e os sucessos.

O romance Levantado do chão, de 1980, marca o início desta sua fase, em que cresceu e amadureceu como autor. Este romance é sempre apontado como o princípio do grande Saramago que hoje se nos apresenta atrás dos seus óculos ou atrás das capas, hoje amarelas vivas, dos seus livros. Foi ao iniciar este livro que José Saramago consolidou o seu estilo de escrita, que tem vindo a ser polémico mas que tantas vozes, grupo no qual insiro a minha, têm insistido em legitimar. É facto que José Saramago viola as regras de pontuação com que todos nós fomos educados, e mesmo eu, na minha algo ofensiva luta pelo rigor que algumas vezes sustento, manifestava-me contra a sua escrita antes de a conhecer. Hoje, com conhecimento de causa, idolatro o seu génio. O que Saramago faz, em cada um dos seus romances, é uma reinvenção da escrita e da pontuação, à base de vírgulas e pontos finais, ambos mais raros do que o suposto, como forma de retirar ao discurso as pausas que, muitas vezes, são causas para paragens nas leituras e que quebram o ritmo de toda a narração. Este seu método discursivo aproxima o autor de um contador de histórias da tradição oral, em que o que mais importa é o conteúdo e não tanto a forma com que ele se apresenta.

Romances bem demonstrativos desta sua primeira fase de ficção são Memorial do Convento, em que Saramago utiliza a maior obra de construção de Portugal para escrever a maior obra literária da nossa literatura das últimas décadas, em simultâneo que nos ilustra o país que tínhamos no século XVIII; O ano da morte de Ricardo Reis, em que o autor nos mostra a Lisboa de meados do século XX onde terá vivido e morrido o heterónimo pessoano no seu último ano de vida; A Jangada de Pedra, em que Saramago retrata o isolamento de Portugal e Espanha em relação à Europa através do afastamento físico da Península Ibérica, transformando-se esta numa ilha que navega livremente no Oceano Atlântico; e ainda O Evangelho segundo Jesus Cristo, a sua obra polémica por excelência, em que nos conta a vida de Jesus Cristo sob uma perspectiva humanizada - como uma pessoa normal, vítima dos desejos e erros de toda a gente comum. A censura aplicada a esta obra pelo deputado Sousa Lara aquando da candidatura de Saramago a um prémio literário a nível europeu terminou na saída do escritor de Portugal, indo a viver no país vizinho até aos dias de hoje.

O início da década de 90, dessa forma, criou um novo e diferente prosador. Os seus temas afastaram-se da História e centram-se sobre problemas e questões referentes ao ser humano no seu íntimo: as suas fragilidades e as suas forças. Os romances mais importantes desta fase são certamente Ensaio sobre a cegueira, Todos os nomes, Ensaio sobre a lucidez e As intermitências da morte.
O inquérito que, por largos meses, conservei na coluna do lado deste blogue (Qual destes temas considera mais possível de sugerir uma obra-prima da literatura?), permitiu-me ter acesso à receptividade do público em geral em relação aos temas das obras de José Saramago. O largo número de votos facilitou-me a essa percepção, que veio definitivamente de encontro às minhas ambições iniciais, repartindo-se as escolhas da forma que eu pretendia: mais votos na categoria O poder e o dramatismo dos sonhos, número de votos semelhantes nas categorias O desvio abrupto e não anunciado das leis naturais que nos regem, A fragilidade total de algo tão complexo e forte como a civilização e a sociedade e ainda A capacidade de amar, de qualquer forma, o nada, e por fim, reduzido número de votos na categoria A verdadeira palavra de Jesus Cristo. Estes assuntos, em certa medida bem inteligentes para quem os leia, são as bases de muitos dos melhores romances do nosso grande prosador. Alguns deles são até o produto daquela reflexão que não somos acostumados a praticar antes da finalização da leitura. Como que desmistificando, declaro-me no dever de vos mencionar em que livros pensei na hora de definir as diferentes categorias do inquérito. O livro acerca da força dos sonhos e de toda a realidade onírica é Memorial do Convento, onde vemos todos os feitos alcançados por meio de uma vontade que se estabelece e manifesta de variadas formas. A obra que retrata o desvio das leis naturais com que vivemos são A Jangada de Pedra e As Intermitências da Morte, assim como também, se formos abertos à evidência que se achega pela semelhança dos temas, Ensaio sobre a cegueira. Este romance, inicialmente, eu via inserido no tema seguinte, sobre a fragilidade daquilo em que confiamos tudo: a sociedade. A capacidade de amar o nada, de praticar um amor sem um objecto, está patente no romance Todos os nomes. Por fim, com menor número de votos, e com um tema menos popular, O Evangelho segundo Jesus Cristo.

Em todas as artes de criação, não tanto nas de interpretação, o artista não pode ser considerado de menor qualidade e mestria por não possuir um aspecto denominado versatilidade. No entanto, a qualidade invulgar de Saramago torna-o eficazmente criador de literatura não só em prosa, mas igualmente em poesia. No próximo artigo dedicar-me-ei à exploração de uma obra de referência de José Saramago, Ensaio sobre a cegueira, realizando uma analogia entre o livro e o filme estreado nas salas de cinema no ano passado, do realizador Fernando Meirelles. Porém, de hoje a duas semanas, a minha atenção recairá sobre a poesia de José Saramago.

Muito boa semana a todos!

segunda-feira, abril 27

Literatura: O maior dos escritores

"Dificílimo acto é o de escrever, responsabilidade das maiores (...) Basta pensar no extenuante trabalho que será dispor por ordem temporal os acontecimentos, primeiro este, depois aquele, ou, se tal mais convém às necessidades do efeito, o sucesso de hoje posto antes do episódio de ontem, e outras não menos arriscadas acrobacias (...)"

Uma série de crimes me desejam os dedos escrever que existem e que não aliciam a qualquer punição senão a da consciência sobre nós próprios. São esses crimes aqueles que cometemos por praticar o gesto ou a acção que, sem ferir susceptibilidades ou vontades, bem sabemos estarem errados na óptica moral. Iniciar um artigo por palavras que não se produziram e não se ordenaram segundo o meu modo de o fazer - foi a via preferível, entre outras de que dispunha, para me fazer fugir com habilidade ao risco tormentoso de me descair num desses crimes morais: não considerando para já o meu mais sagrado pasmo por José Saramago, seria errado, simplesmente errado e com uma dose forte de absurdo, iniciar um artigo que lhe é dedicado com palavras escolhidas por alguém que não seja por este escritor maior que todos os outros. Seria correcto, a título de exemplo, divagar acerca de génios como Garrett ou mesmo, elevando a fasquia a um nível superior, como o enorme Camões, iniciando determinado artigo a eles dedicado com palavras de José Saramago. Isto que agora escrevi poderá ser alvo das mais variadas críticas; poderão dizer que atribuo um valor acima do real a uma personalidade em que tantos descobrem os mais irreais defeitos, poderão considerar de mau tom uma adoração tão perceptível a alguém que, aos olhos de tantos, viola as regras da escrita e da pontuação, em particular. Não me sento nem escrevo no presente momento para agradar a troianos nem a gregos, simplesmente me deixo andar, percorrer o teclado e as palavras com os dedos, à semelhança deste escritor sobre que me debruço. Regressando aonde me deixei - seria correcto iniciar com Saramago um artigo referente a um qualquer vulto da literatura portuguesa porque este português é superior a todos os outros escritores deste país, ou equipara-se ao maior pela sua qualidade e lucidez, além do pesado facto de se encontrar neste mundo e não naquele aonde nos dirigimos na companhia da morte. Este artigo e os quatro seguintes, por todos estes factores meticulosamente ponderados, será a maior homenagem por mim prestada neste ano no âmbito deste projecto a uma figura qualquer da literatura portuguesa. O melhor aos melhores.

As frases que transcrevi para o começo do artigo integram uma obra de ficção de José Saramago, publicada no ano de 1986, de seu nome "A Jangada de Pedra". Mostro particular interesse por esta sua declaração pela consagração que o próprio autor faz ao seu génio nato: como para qualquer escritor, a escrita é-lhe um processo de extrema exigência que extenua pelo trabalho que lhe temos de dedicar No entanto, José Saramago escreve como ninguém - testemunhos disso são todos os prémios literários nacionais e internacionais que já venceu, não restando nenhuma importante condecoração para lhe ser atribuída. Tal sucesso, se se acha difícil o processo de criação, deverá chegar a partir de um génio mais elevado que nunca ninguém conheceu.

Saramago nasceu numa aldeia que, apesar de tão pequenina como a vou desenhando na imaginação, fica na memória de muitos seguidores da obra deste escritor. A aldeia é Azinhaga, fica no Ribatejo e lá vivia a sua família pobre, constituída por pais e avós. As imensas dificuldades e privações da sua família convidaram-na a partir para as oportunidades mil que a capital, Lisboa, aparentemente oferece. E não é negável que a cidade do Tejo concedeu a Saramago condições francamente melhores para viver a sua infância do que na sua aldeia de Azinhaga. Cedo foi forçado, todavia, por dificuldades financeiras, a abandonar os estudos, muito embora todos percebessem o seu empenho fabuloso na área da sua educação. Nunca abandonou a busca pelo conhecimento como a muitos sucede, após deixar a instituição de ensino; tornou-se um autodidacta até aos dias de hoje, conservando um leque vário de empregos que lhe foram surgindo, nos quais José Saramago, ou em quase todos eles, revelou invulgar capacidade de trabalho e até algum espírito de sacrifício e um desproporcionado sentido criativo e crítico. Quando a sua origem popular se manifestou, sendo levado a sair da escola, formou-se numa escola técnica para, muito em breve e com urgência, conseguir um sustento que chegaria por meio de um emprego; esse emprego chegaria depressa. Numa oficina, reparando carros, ganhou o seu primeiro ordenado.

Por muito que se exerça uma profissão exigente, o comportamento mais natural da espécie a que pertencemos é o de chegar ao nosso lar, após um dia longo de trabalhos vários, vítimas de grande desgaste físico e de cabeça, e logo nos recostarmos a repousar. Ou, ao menos, a vontade aponta nesse destino das nossas coxas. Tal desejo profundo rompe na rotina diária de trabalhadores dedicados e de trabalhadores que pouco levam a sério a sorte do emprego que mantêm. Porém Saramago, contando também a sede cultural da vida que levava, procurava muito frequentemente a Biblioteca do Palácio Galveias, em Lisboa, onde se retirava na leitura em muitos dias por semana, após o fim do seu horário laboral. O rumo dos corpos, mesmo dos nossos, define-se desde cedo e cedo se principia a manifestar; mesmo o de uma simples seta, que sem voar na época em que é feita, vê o seu destino escrito na forma que lhe demos e que a fará poder voar, assim como no destino que tiveram todas as outras setas suas semelhantes que mostravam os mesmos atributos que ela e que partilharam esse mesmo destino. O caminho dos interesses e da vida de José Saramago, se já se comportavam no seu psíquico, aqui se tornaram evidentes para o próprio e para os próximos. Não alvitro, nem tenho ainda capacidade e conhecimento de facto suficiente para alvitrar sobre que género de livros, na altura, José Saramago preferia. Possivelmente que um dia possa dizê-lo. Por isso, e não resistindo, romancearei por umas linhas o comportamento de José Saramago na biblioteca de Galveias. O jovem, no qual pouco se revêem os esforços do longo dia de trabalho que o explorou, viaja entre os espaços que são reservados às pessoas no reino dos livros que é cada biblioteca. Encosta a mão a um livro, a pele treme na emoção, na ansiedade de descobrir que sonhos, que experiências, que novo género de coisas diversas a pessoa adquirirá com a prática da leitura daquelas centenas de páginas. Mas o livro que ele toca não é isolado, como uma família vive esse livro na companhia de tantos outros que chamam a mesma atenção a José Saramago. E então, por muitos dias, meses, anos, José virá à biblioteca, reter-se-á na contemplação de letras e no fascínio das palavras, até que esgote os livros ou se inicie na redacção dos seus próprios.

Outros empregos que José Saramago encontrou foram mais de encontro àquele Saramago das letras que hoje todos conhecemos. Aquela figura que todos imaginamos, de José Saramago de calva, ombros encolhidos e caneta sobre uma folha branca, óculos na face apontados a baixo, demonstrando concentração, já então se iniciara. Esses empregos eram em periódicos, como o Diário de Notícias e o Diário de Lisboa, e também como tradutor de literatura. No ano de 1947, aos 25 anos, consegue publicar o primeiro romance que propõe aos editores: Terra do Pecado. Anos depois, redige Clarabóia, que, rejeitado, permanece no desconhecido das estantes até aos dias de hoje. Com isso, dedicar-se-á mais ao teatro e à poesia, antes de regressar em definitivo à prosa - género literário em que se tornou o melhor dos melhores. O crescimento e amadurecimento de José Saramago enquanto escritor afastou, progressivamente, os empregos que conservava. Começa então a viver apenas do seu trabalho literário, a início ainda mantendo a ocupação de tradutor, mas depois sendo simplesmente um criador, o mais promissor e, mais tarde, o mais lido e reconhecido escritor português em Portugal e no Mundo inteiro.

Ainda hoje José Saramago é dos mais ilustres e interventivos membros do Partido Comunista Português. As suas convicções, noutras áreas, incluem a defesa do iberismo e do ateísmo. O segundo, obviamente destacado nas suas obras, significa a absoluta negação de qualquer entidade divina e instituição religiosa. O iberismo, menos divulgado e reunindo um menor número de apoiantes, é o nome dado à doutrina que defende uma única raça ibérica de humanos: a união entre Portugal e Espanha em todos os aspectos, feita excepção talvez à língua. O iberismo de Saramago, para as mentes mais humoristas, expressa-se de igual modo no seu segundo casamento, que para o bem dura até ao presente. José Saramago é casado com Pilar del Río, a quem dedica a grande maioria das suas obras, e vive com ela em Espanha, nas Ilhas Canárias, desde o início da década de 1990, mantendo, ainda assim, a sua casa de Lisboa. O motivo da sua deslocação definitiva para o país vizinho será abordado no próximo artigo de literatura deste espaço, em que tratarei a obra e a escrita de José Saramago, com a ajuda do inquérito que está, já vai para meses, neste blogue e cujo efeito ainda ninguém acertou.

Haja saúde e alegria para todos.

segunda-feira, abril 20

Literatura: As palavras do palco e do espectáculo

O assunto que hoje vos trago recordou-me, por alguma estranheza que vos cause nos primeiros tempos, uma questão pouco consensual que dividiu a população portuguesa e que, consoante os anos vão correndo com mais ou menos celeridade, assim a questão se vai apresentando com alguma urgência ou pouca nos diversos países e no seio das suas sociedades. Não me refiro ao problema eleitoral, que esse já vai mais longe e aproxima-se de novo, este ano com grande variedade de processos e de órgãos a eleger, contando, se o bem puder adiantar ao mal, com a minha participação no sufrágio. Refiro-me, sim, ao problema do aborto, que terminou com a aceitação pela larga maioria dos portugueses, repercutindo-se essa escolha numa nova política de assistência médica e de apoio às grávidas que já compreende a liberdade da futura progenitora de tomar uma posição em assuntos que anteriormente competiam simplesmente à autoridade divina ou ao escândalo e clandestinidade. As discussões relativas à ética de tal procedimento rodeavam a questão "será aquele feto uma criança e, portanto, uma pessoa cuja morte é reprovável?", e na verdade aquilo que ali se cria é já uma criança. Surge a problemática de ser possível, ou não, ser-se antes de verdadeiramente o ser. Um feto é um feto, um bebé é um bebé, uma criança é uma criança: todas estas são fases da mesma evolução que temos de atravessar e vencer para chegarmos à idade que hoje nos pertence. Contanto que um feto dispense as características, ou algumas delas, que nos aparecem fundamentais à consolidação da espécie humana, aquilo que ali se cria e ganha forma somente resultará num humano, e nunca num orangotango.

O teatro português, enquanto afirmação de um género literário sólido e que aproveite dos aspectos dos variados movimentos literários que se vão manifestando na cultura, é justamente como um pequeno feto que muitos críticos, historiadores e intelectuais pretendem recusar, recorrendo a um aborto daquilo que já se formou em vários séculos de História. O teatro português, com efeito, faz a diferença numa arte como a literatura, que conhece em Portugal um dos países em que mais ela tem evoluído e conhecendo uma qualidade invulgar, a nível da poesia e do género narrativo. Outros países, como a Espanha, a França e a Inglaterra, viram no seu passado o grande acesso da população aos teatros e a sua preferência evidente por este género de literatura, ao contrário da evolução histórica de Portugal. Para justificar tal fenómeno não ocorre, à grande parte dos estudiosos, uma razão absoluta que tudo consiga explicar e que ouse apontar uma possível solução que vise a criação do panorama teatral português, que nunca foi concluída. No século XIX, dois grandes génios das nossas letras entenderam e escreveram que Portugal não possui, efectivamente, um teatro próprio, para o qual contribuem artistas e conteúdos crescentes: refiro-me a Almeida Garrett e a Eça de Queiroz. Este último deixou a sua grande marca no romance português, na narrativa, considerado ainda hoje o grande romancista do nosso país. O outro, por seu lado e em oposição, foi o grande dramaturgo português após Gil Vicente, e portanto conta-se entre as personalidades que menos fundamentação parecem ter para defender a inexistência de um teatro nacional. Todavia, trata-se de uma personalidade especial, simplesmente especial, a quem nem sempre podemos atribuir a posse da razão: Garrett é tido como o auge do romantismo português e ele próprio negava ser um romântico. Almeida Garrett é, a par de José Saramago, o escritor português que mais capacidades demonstrou na produção dos três géneros literários: narrativa, poesia e drama. Na verdade, Eça e Garrett falavam com sinceridade e com razão suficiente para se recordarem tais afirmações: o teatro português não existe como existe a poesia portuguesa ou o romance português. O teatro português é somente o resultado do trabalho de personalidades isoladas, ou quanto muito de gerações que deram algum protagonismo ao teatro na cena cultural do nosso país. Assim sendo, o teatro português não revê os diversos movimentos artísticos que a literatura conheceu, mas sim divide-se nas produções e nas características dos seus autores.

Antes do século XX, apenas Gil Vicente e Almeida Garrett haviam dedicado à criação dramática os seus preciosos dotes. Nesse século, várias outras personalidades pretenderam dar o seu contributo para a evolução do teatro. Entre eles, com obras de grande importância e relevo, encontramos Fernando Pessoa, Almada Negreiros, António Patrício, Júlio Dantas, Raul Brandão, José Régio, Jorge de Sena e, mais tarde, Bernardo Santareno, Luiz Francisco Rebello, José Cardoso Pires e Luis de Sttau Monteiro. A divisão de autores a que procedi não carece de legitimação: fi-lo pela convicção de que o teatro português do século XX pode, e deve, ser estudado com base em duas fases. Primeiro, encontramos os modernistas e Júlio Dantas, que ambicionaram dar um novo fulgor à dramaturgia e lhe concederam um toque muito especial das suas características. Depois, a partir dos anos 50, a produção dramática baseou-se no conceito do neo-realismo e, em alguns casos, no teatro de Brecht - uma concepção criada por Bertolt Brecht, dramaturgo alemão, que defendeu uma revisita ao passado como um apelo à consciência do presente; estudar a História de um país ou de um povo para melhor se entender o ambiente presente e os problemas que se colocam hoje. A obra Felizmente Há Luar!, de Luís de Sttau Monteiro, é o ícone português do chamado teatro de Brecht, e o seu carácter interventivo impediu-a de ser representada antes do 25 de Abril de 1975.

Luís de Sttau Monteiro nasceu no início do mês de Abril do ano de 1926, na capital, onde também viria a morrer no Verão de 1993. Seu pai exercia diplomacia, e Salazar ofereceu-lhe o cargo de embaixador de Portugal em Londres; Sttau Monteiro tinha poucos anos de idade. Graças ao cargo do pai, viria a crescer na "livre Inglaterra", como lhe chamava o Presidente do Conselho, longe da pátria, mas perto tanto dos problemas portugueses que se conheciam no estrangeiro como das mais modernas tendências da arte, num país onde sempre confluíram muitos artistas de todas as áreas. Tomou conhecimento, naturalmente, com o conceito de teatro de Brecht, que mais tarde introduziria na realidade portuguesa. Aquando da demissão do seu pai do dito cargo, por ordem de Salazar, Sttau Monteiro regressou a Portugal, onde, por poucos anos, exerceu advocacia. Acabaria por se notabilizar como escritor, principalmente dramaturgo. Em 1961 publicou a sua reconhecida obra Felizmente Há Luar!, texto que lhe valeu o Grande Prémio de teatro. Porém, o organismo de censura do Estado Novo não autorizou a representação da peça de Sttau Monteiro, quebrando a relação autor-obra-público, que no teatro se assume mais importante ainda que nas demais formas de arte. A sua publicação somente para leitura, no entanto, fez com que a mensagem da obra chegasse a algum público, mais restrito e com acesso mais fácil às produções literárias nacionais e à sua compreensão.

José Saramago, como já referi atrás, é um escritor completo, com obras de qualidade no campo narrativo, lírico e dramático. Entre as suas obras em drama sugiro a esplêndida A Noite: aclamada como a melhor peça de teatro representada em Portugal no ano de 1979. Não obstante estes sucessos e esta qualidade que lhe é plenamente reconhecida interna e internacionalmente, Saramago surge no conjunto dos mais fabulosos artistas portugueses de sempre pelos seus romances. José Saramago, o escritor português mais importante do século XX, a par com Fernando Pessoa, será o tema dos próximos cinco artigos acerca de literatura neste blogue.

segunda-feira, abril 13

Literatura: Um rosto na intervenção

A sucessão de feitos e contrariedades que se assomam à História do nosso país em nada prejudicou a qualidade dos escritos produzidos por mãos dos nossos conterrâneos. Pelo contrário. Isto é, os acontecimentos, o que foi sucedendo aqui e além de bom e de ruim ao nosso país, apenas, em literatura, fez brotar a ansiedade, a insaciedade, a procura de energia colectiva que tarda em se mostrar devidamente útil, conforme se mostrou em variados períodos que o tempo fez o seu serviço de levar longe. É bem verdade que esta situação não se sujeitaria a ocorrer se a literatura consistisse apenas no produto da mente humana, na sua mais elevada criação, vinda do poder criativo da imaginação de cada um. Todavia, como se reconhece, esta arte é bastante mais, e a arte em si, acima de qualquer meio de a representar, é alimentada das emoções e da realidade, tornando-se um campo realista e efectivo: mais do que retratando a realidade puramente ou tentando afastar-se dela através de uma evocação mais assertiva aos sentimentos que nos enchem, a literatura reflecte a nossa espiritualidade real, aquilo que nos cerca e que nos leva à escrita ou ao gosto pela leitura de diversos temas em determinadas circunstâncias: a arte revela sonhos, receios, aquilo que jamais podemos afastar do que somos e que caminha sempre ao nosso lado, por vezes em passadas mais largas que as nossas e que nos fazem acelerar o passo com que atravessamos a nossa vida.

E Portugal, este nosso país que é o meu orgulho pela força que tem e que não revela, quase numa desconfiança despropositada sobre os seus defensores, com a História, afastada ou recente, que tão bem conserva na memória, consegue privilegiar a produção literária. A literatura de intervenção é produto dos males que se abatem sobre uma nação, qualquer uma, e é o rosto aperfeiçoado da insatisfação e dos desejos partilhados entre a maioria dos cidadãos da mesma pátria ou do mesmo mundo. Em nenhum período da nossa História a literatura de intervenção adquiriu a intensidade do período do Estado Novo, durante mais de quarenta anos no século XX. Os autores, trabalhando clandestinamente para precaução pessoal contra o exame-prévio do regime autoritário, escreviam acerca dos desejos de toda uma população de ver estabelecida uma ordem diferente, procurando a concessão de tantas liberdades quantas desejavam possuir, como uma forma de não permanecerem à margem do bem-estar e prosperidade do mundo que se desenvolvia além das nossas fronteiras com a Espanha e com o oceano. A literatura, por se expressar através das palavras, que, em todas as medidas, indubitavelmente, são utilizadas no quotidiano, revela-se uma arte muito poderosa na divulgação de um pensamento ou de uma ideia. Em paralelo com as produções culturais que o Estado Novo incentivava, como o Fado, a literatura de intervenção estendeu-se a todos os ramos da literatura, alcançando públicos variados: através da narrativa, do drama e da poesia. A narrativa de intervenção é pouco conhecida por estes termos. Os romances criados com o intuito de intervir social e politicamente compreendiam-se num movimento cultural já estudado: o neo-realismo, que denunciava as dificuldades e injustiças vividas pelas classes trabalhadoras e apontava o socialismo como possível solução para as calamidades sociais. No teatro, cuja produção nunca foi muito significativa em Portugal e em muitos outros países, esquecemos muitas vezes de notar nas mensagens que as produções pretendem transmitir e incutir junto dos espectadores. Do teatro do século XX falarei no próximo artigo. Pois, verdadeiramente, a literatura de intervenção, dando-lhe este mesmo nome, assume-se na poesia, uma vez que o ritmo dos versos e as rimas permitem a fácil memorização do próprio poema. Além destas duas características, e até mais fundamental, há que a poesia, como nenhuma outra produção literária, tem a capacidade de facilmente ser cantada, se integrada numa composição musical. E a canção, essa sim, que conjuga a literatura e a música, é o meio privilegiado de fazer passar uma mensagem: aqui está por que o principal rosto da intervenção portuguesa, não contando com personagens políticas, é o músico José Afonso.

Manuel Alegre, nascido em 1936, é um rosto reconhecido da poesia de intervenção política nacional, além de as suas convicções e espírito de mudança o terem feito, igualmente, deputado. Cursou Direito na Universidade de Coimbra; e no período do Estado Novo foi um dos rostos da oposição ao regime Salazarista. Aos vinte e dois anos de idade, Alegre manifestou o seu apoio a Humberto Delgado nas eleições presidenciais de 1958. O nome de Manuel Alegre acabou por ressoar nos ouvidos pouco desejados da administração de Salazar, o que levou Manuel Alegre a ser chamado para a guerra de Angola, contra a qual se manifestava abertamente. Claro está, porém, que qualquer português da sua idade, mesmo apoiando firmemente as políticas de Oliveira Salazar, acabaria chamado para a guerra colonial em África. No entanto, o afastamento de Manuel Alegre da sua pátria apetecida só contribuiu para a oposição mais activa e convicta deste poeta jovem, que, segundo o próprio, herdou de sua mãe o espírito de intervenção e não o conformismo. Mais tarde, quando se viu regressado a Coimbra, foi enviado para o exílio na Argélia, onde permaneceu, expatriado, por dez longos e tenebrosos anos. É de verdadeiro patriótico ficar dez anos afastado do seu país e lutar, mesmo à distância, para que este encontre um novo rumo mais favorável, ao invés de esquecer, por mera insistência e insensatez, os seus sonhos. No exílio escreveu o mais reconhecido dos seus poemas, Trova do vento que passa:

"Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país. (...)

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não."

Após a revolução de 25 de Abril, Manuel Alegre pôde, em segurança, regressar ao nosso país, e contribuir eficazmente para a instauração de uma democracia, como sempre defendeu ser justo e meritório a uma nação unida. Entrou no Partido Socialista ao lado de Mário Soares, onde hoje continua, apesar de protestar constantemente contra a tendência à direita desse partido, tradicionalmente de centro-esquerda. Essa situação fê-lo, por várias vezes, alinhar o seu voto com os projectos do Partido Comunista Português e do Bloco de Esquerda. Assim, o seu projecto político para o nosso país é a consolidação de uma democracia, mais à esquerda do que o Partido Socialista dos dias de hoje, consciente das condições de vida das classes mais desprotegidas e propondo a defesa dessas camadas da sociedade, optando visivelmente por um modelo socialista.

A intervenção, uma vez iniciada, não me parece que deva cessar no campo das letras e no pensamento dos intelectuais deste país e do nosso mundo. Por muito que se faça em caminho da perfeição e dos ideais vistos e revistos, e mesmo na sua direcção, que ninguém se iluda; a perfeição de sociedade, de vida, é inalcançável com o corpo, apenas passível de ser imaginada e desfrutada de olhos cerrados numa realidade que não existe. Estamos hoje ainda longe de conhecer o que idealizamos, contudo bem mais próximos do que há várias décadas atrás. Sempre haverá trabalho a fazer; nunca haverá plena satisfação em nada, nem com trabalho, nem com inércia. E eu mesmo, que por vezes me retenho na escrita, na esperança sempre viva de ver redigido o poema da minha existência ou o espelho verbal do meu inconsciente, perco-me em incertezas e parto na escrita de desejos e de projectos para a sociedade a que pertenço. E em cada vez que me debruço sobre essas questões, de novo me surgem campos de acção diferentes em que devo, primeiramente, intervir, como que para dar início a uma luta que reunirá mais apoiantes e gente que manifeste descontentamento perante o mesmo facto. Que revolta nascerá das nossas forças se elas não se unirem? Que azul nos libertará do céu encoberto se prevalecer a indolência? Que Deus subirá aos Céus se sempre o envergonharmos? Se o poder das minhas palavras fosse o de contrariar qualquer adversário ao progresso da civilização, o meu primeiro passo seria a revolução cultural, partindo da exterminação e aniquilação mais que efectiva dos publicadores literários do meu bonito país que pouco bonitos são, que gravemente desconhecem o que é literatura e privilegiam o dinheiro no campo que haveria de ser regido pela ideia e pela mestria. Portugueses de todo o mundo, uni-vos. Publicadores de todo o mundo, matai-vos.

segunda-feira, abril 6

Literatura: A fase do Existencialismo

"O mais é o tropear dos dias em que se pulverizam os sonhos que sonhámos, as palavras que dissemos e as que em resposta no-las formularam inúteis, o sobressalto que nos agitou e em que centrámos a vida toda, a beleza que julgámos revelar e não era, o suor de um esforço vão, as perguntas que perguntaram e as respostas que nem sempre responderam, o absoluto em que nos jogámos, mesmo o disséssemos relativo, e o relativo que estava no absoluto ou menos ainda, a procura repetida, o soluço baudeleriano que passa através das eras e morre aos pés da inatingível eternidade, a pequena onda inútil que outra onda negou e foi onda necessária para que o mar se cumprisse, o destino executado na humildade com que o reconhecemos, aceitámos, levámos até ao fim. O mais, em suma, e como sabemos, é silêncio..."

Este excerto que terminei de vos fornecer integra a obra Aparição do romancista português Vergílio Ferreira, de que vos falarei hoje por quase necessidade que ocorre. Este nome apresenta-se ligado à corrente existencialista, sendo o maior vulto deste movimento literário no nosso país e das suas grandes personalidades a nível europeu. Somente para contextualizar e apresentar o pretexto deste artigo, remetendo desde já para todos os seguintes, explico que o existencialismo, como opção da literatura, surgiu em França no segundo pós-guerra, onde os horrores da guerra assolaram esperanças e ceifaram vidas que não mais regressaram nem quietaram o mundo com a sua antiga existência. A presença do Homem como criador da destruição de si próprio e o confronto da sociedade com aquilo que, em pouco tempo, a pode reduzir ao monte de destroços a que condenou a matéria sólida abriram um novo caminho, bastante inovador e original, para os artistas de todas as artes, incluindo a literatura. Numa fase inicial, ou não tanto assim, assistiu-se ao florir da literatura surrealista, debruçada sobre os problemas interiores e dúvidas do íntimo pessoal. Este interesse pelas qualidades humanas e puras do próprio ser humano reage, do mesmo modo, contra o neo-realismo que esgotava, a olhos vistos, as suas capacidades criativas com a repetição dos mesmos assuntos e da procura pelas mesmas soluções. O existencialismo é somente o aprofundar da escrita surrealista e a reflexão filosófica das questões essenciais à fundamentação e legitimação da existência humana no mundo. Após a segunda guerra mundial, na literatura mundial verificou-se aquilo que em Portugal se confirmou após a Revolução do 25 de Abril: a verdadeira liberdade dos autores e criativos. A sua escolha livre e descomprometida de assuntos e métodos de escrita e de trabalho que melhorem a qualidade das suas obras, trabalhando com base no seu potencial como artista ou no público que pretende atingir. Justamente o existencialismo fez a passagem, particularmente na obra de Vergílio Ferreira, entre o neo-realismo e a literatura contemporânea: daí que se entenda a importância notável deste grande romancista que deixou o mundo no ano de 1996.

Existem no abstracto aqueles certos casamentos que sempre nos lembramos de ver consumados, e que nenhuma vaga ou vento com maior força parece conseguir abalar. E um desses casamentos é ter a humanidade sempre visto a literatura de mão dada com a filosofia, percebendo sempre os escritores tendo desejo de se afirmarem como donos da razão e filósofos influentes para a continuidade da espécie humana, enquanto aqueles que são inicialmente filósofos procuram, um dia, demonstrar a veracidade das suas teses através da ficção e da boa escrita. E se, na História da arte e da cultura, houve momentos em que a filosofia e a literatura quiseram afastar-se um pouco para divergir os temas da segunda, também surgiram momentos, como o existencialismo, em que as duas estiveram tão próximas como o mar da foz de um rio. Como um casamento, que vai oscilando, alternando situações de crise e quase ruptura e situações duradouras de estabilidade e paz conjugal.

Muitas vezes é considerado o fundador do movimento existencialista o francês Jean-Paul Sartre, conhecido pelo seu ateísmo e pela reacção a tudo o que é relativo a religião. Este mesmo homem das letras e de ideias fecundas escreveu um dia a sua definição precisa de Existencialismo, seguindo-lhe a justificação "A existência precede e governa a essência". Esta citação permite-me abordar mais a definição desta corrente literária: ela defende que antes de sermos aquilo que hoje somos, nascemos todos com características quase plenamente idênticas, e que são as vivências e os nossos actos que nortearão o nosso futuro, tornando-nos aquilo que viremos a ser. O existencialismo fundamenta-se na negação de qualquer espécie de pré-determinação do indivíduo, sendo este responsável por tudo o que lhe ocorre e pelas implicações desse fenómeno. O Homem torna-se "condenado à sua liberdade", às suas variadas possibilidades de escolha que tornam os seus caminhos diários de um grande risco para a sua integridade e correcção. Só a vivência e as atitudes tomadas poderão, com o tempo devido, dar origem à sabedoria - capacidade que favorece o sucesso nas tarefas que nos são propostas pela vida. A vida, a liberdade de acção, a existência ou não de uma divindade que nos observa do alto, a constante solidão do ser humano ou a moral são alguns dos temas mais comuns nas documentações dos escritores e filósofos existencialistas. O individualismo que surge, à primeira vista, como uma certeza na leitura dos existencialistas, não é verdadeiro, como se pode entender à medida que lemos: na verdade, os protagonistas partem do indivíduo para formular os problemas e discuti-los de si para si; porém que a reflexão se apresenta comum a toda a Humanidade, nascendo num sujeito e vindo a ser elevada aos demais humanos.

Vergílio Ferreira (visível na segunda e terceira imagens deste artigo) protagonizou este casamento entre a filosofia e a literatura no nosso país. Diria mesmo que foi o padre que realizou o dito matrimónio, e é com alguma graciosidade que o escrevo, com o saber que escapa à maioria das pessoas. Contudo, passo a explicar: é que, de facto, Vergílio Ferreira frequentou o Seminário, completando nele seis anos da sua educação. Acabaria por se tornar professor, leccionando português e latim em escolas por todo o país, e também escritor: área na qual se distinguiu. Nasceu em 1916, no concelho de Gouveia, na Serra da Estrela. Em Melo, onde hoje se encontra sepultado, foi deixado aos cuidados de umas tias maternas, juntamente com os seus irmãos, aquando da emigração dos seus pais para o outro lado do Atlântico. A infância e adolescência vividas na Serra condicionaram sempre a produção literária do escritor. Ele mesmo afirmou, certa vez, que "um autor fixa um tema. Mas esse tema, revelando, como revela, um interesse, revela sobretudo que foi só em torno dele que o artista pôde realizar-se como tal." Assim sendo, um escritor sempre reproduz nas suas obras as vivências que testemunhou. Não admira, por isso, aos conhecedores do seu percurso, que muitos dos seus romances retratem temas como o ser professor, a neve, a educação nos seminários ou a solidão, incluindo a mais amarga forma de solidão, a que dá o nome de "silêncio" - o abandono da sociedade por parte da entidade divina; ausência de Deus.

A sua obra literária compreende-se entre dois períodos, efectuando uma transição na obra que o sugere - Mudança: o neo-realismo, em que se inicia com o romance O Caminho Fica Longe, e o existencialismo, cuja obra-prima é a já citada Aparição. Durante as suas extensas e frutíferas divagações, o autor apoia-se na visão como instrumento de consciência e árvore de sabedoria. Em 1992 foi distinguido com o Prémio Camões, o mais importante prémio literário atribuído a escritores de Língua Portuguesa.

segunda-feira, março 30

Literatura: No Ar(y) com os Santos

A personalidade que me ocorre presentemente tratar neste espaço, pela ordem que antes estabeleci, é um grande poeta do século que já passou, nascido em 1937 e que viveu somente 47 anos. Nos séculos anteriores, sabemos todos que muitos grandes artistas, entre muitas outras pessoas, eram levados muito cedo, abalados por pestes ou por causas de morte daquelas que se consideram naturais, como se a morte muitas vezes não o fosse... Não há nada mais natural que a morte, meus caros: é provável que não sejamos felizes na vida, é provável que não vejamos materializados os nossos mais elevados sonhos, as nossas mais queridas ambições, é provável que não vejamos formar-se diante de nós e por nós a família que desenhámos com a vontade de cada um, mas é certo e concreto que todos morreremos um dia (que felizmente ainda não chegou). De tal modo que este poeta nos transporta quase a esses tempos mais remotos, quando o verdadeiro artista de mérito fechava os seus olhos à continuidade muito jovem, deixando apenas uma obra que viverá o tempo que este deixou. José Carlos Ary dos Santos deixou-a escrita, a sua obra de mais de 600 poemas redigidos acerca dos mais variados temas e para os mais distintos efeitos.

Ary dos Santos, como era simplesmente conhecido e tratado no seio do mundo artístico em que era uma referência, nasceu numa família burguesa de muito largas posses. O talento e a genialidade não escolhem berço; não andam vagueando nos leitos das crianças a buscar uma alma carenciada, para à ausência de orçamento familiar serem acrescentadas as angústias do coração. Antes, como se prevê, o mérito surge do trabalho feito por quem quer que o elabore: funciona o talento como um pobre mendigo faminto: este último quer ver a sua fome satisfeita, seja com um pedaço de pão bolorento, seja com o perfeito manjar do Olimpo da deusa Vénus; ao outro, interessa perceber o trabalho efectuado, não que o realize um indivíduo pobre ou um indivíduo rico. Contudo, as ambições de Ary dos Santos, ao que nos parece, diferenciavam do que se lhe propunha. Aos 16 anos, se o fez por vontade própria, deixou a residência da família e buscou uma forma de se sustentar sem a ajuda exterior: trabalhou nas mais diversas áreas, chegando a acumular empregos. Se o fez por força parental, por algum erro que cometeu ou por disputa familiar, então o caso aparece bem mais complicado de analisar. Se o entendermos, com efeito, como uma consequência de um acto ponderado do nosso poeta, podemos, por tal via, deduzir que o dinheiro não lhe causava um interesse tão grande como a sua dedicação às letras e à sua vida sozinho. De resto, é muito possível afirmar que esta sua decisão precoce favoreceu a sua criação literária: fê-lo crescer por necessidade, acrescendo-lhe à vida uma série de responsabilidades e um tipo de regime que, conciliados, induziram positivamente à criação poética que nos faz recordá-lo hoje.

Sabe-se que aos 14 anos, porém, já escrevia, tendo sido publicados os seus primeiros poemas, característicos de uma infância normal, que o próprio autor considerava de fraca qualidade. A Liturgia de Sangue é a sua efectiva estreia no difícil e injusto mundo literário, livro que foi publicado em 1963. Em toda a sua vida, após e antes esta redacção, Ary dos Santos nunca pôs a sua actividade artística de lado. Haveria de se notabilizar como poeta, mas também como um grande orador e declamador de poesia, gravando mesmo alguns discos, como Ary por si próprio e poesia política. A sua convicção política, aproveito para dizer, não fugia ao habitual deste século, apoiando o Partido Comunista (o que mostra mais uma vez as razões que o podem ter afastado do percurso que a história da sua família propunha para o seu futuro).

A sua obra mais significativa dirigia-se para um conceito muito concreto de poesia: escrevia os seus poemas para que estes fossem interpretados pelas mais diferentes vozes, desde o fado às grandes actuações portuguesas do Festival da Canção. Duas das canções que escreveu, Desfolhada Portuguesa e Tourada, saíram vencedoras do festival. O grande reconhecimento de Ary dos Santos viria mesmo como efeito destas suas obras que se popularizaram na voz de Simone de Oliveira e Fernando Tordo. Para Amália Rodrigues também escreveu vários poemas, como É da Torre mais Alta e Meu Amor, Meu Amor, que seguidamente exponho.

"Meu amor, meu amor
Meu corpo em movimento
Minha voz à procura
Do seu próprio lamento
Meu limão de amargura
Meu punhal a crescer:
Nós parámos o tempo
Não sabemos morrer
E nascemos, nascemos
Do nosso entristecer!

Meu amor, meu amor
Meu pássaro cinzento
A chorar a lonjura
Do nosso afastamento.
Meu amor, meu amor
Meu nó de sofrimento
Minha mó de ternura
Minha nau de tormento:
Este mar não tem cura
Este céu não tem ar
Nós parámos o vento
Não sabemos nadar
E morremos, morremos
Devagar, devagar!"

Este poema, decididamente dos melhores na retrospectiva poética de Ary dos Santos, desenvolve a temática romântica da amargura das relações amorosas, chorando, na música do Fado, a incapacidade humana de ser tão fortes quanto é a exigência por parte do coração que transportamos no peito. Virão, em conjunto com o amor mas mais tardias, as lágrimas, as desventuras e a insustentabilidade que falirão a grande empresa de sentimentos que alimenta a paixão. A paixão não acabará porque ela mesma prova dos males do desejo e do amor para crescer no nosso íntimo. Estes versos são invulgarmente perfeitos, tanto mais se os escutarmos no tom celestial do canto de Amália, e têm-me feito, nestes últimos instantes, amar a poesia com maior ardor que nos dias que têm passado. E é esta capacidade de transcender aquilo que é maior que nos próprios que me arrepia.

Declarações aparte, retiro-me com a promessa de que este artigo me fez ir, de imediato, dedicar-me à poesia. Talvez o Sol e as felicidades que me têm vitimado tragam alguma novidade às linhas que se seguem, vindas destas mãos.

segunda-feira, março 23

Literatura: O meu amor ao povo e o de Pedro Homem de Melo

Não sei já pedir que no mundo haja saúde e que o bem exista mesmo no ar que se faz vento sobre nós; não sei já pedir que essa saúde nos cale os dissabores que são feitos da fuga comprometida de um sorriso. Mas peço que esse sorriso, contra qualquer tendência que no seu sentido aponte menos, surja com a frequência de um minuto, de uma hora, e que em todos eles eu possa olhar e observá-lo não apenas na face daqueles que assumidamente adoro e a quem dedico a minha vida, mas de igual maneira sob os olhos dos indivíduos que contra mim possam apregoar, que sei existirem talvez mais do que os anteriores... É a minha dor de certas horas e o meu orgulho de vida inteira: gostar do que há, por haver; sonhar ainda assim, pelo que hei-de amar por existir num dia que esteja para chegar. E se questionarem o propósito de vos pedir tamanha felicidade que vos faça sorrir, no âmbito de um artigo que sou quase forçado a escrever, não me julguem também o génio de desejar o bem simplesmente por estratégia de prosador, pois este desejo é de mim, vem de mim, vem deste coração e não das mãos que o escrevem. O artigo vem a seguir.

Esta semana trago até vós outro grande poeta da canção nacional, e homem é ele, mais do que pelo seu nome que o diz já: Pedro Homem de Melo. Com efeito, há daqueles homens que, pela família e seu nome, nasceram para ser homens de "h" grande. E este nosso bom poeta portuense acabaria vivendo tantos anos quantos a grande diva que lhe deu voz aos poemas: Amália Rodrigues, que faleceu meses antes de completar as oito décadas de existência. Tem interesse e chama o fascínio quando somos levados a reflectir sobre a memória dos grandes artistas. Havia vida antes deles, pessoas nasciam, viviam e esperavam a morte que lhes viesse quebrar os projectos que eram mantidos à mercê da fortuna dos mais afortunados ou do azar de muitos outros. E nessa vida podia haver alguma felicidade, ou pouca, ou toda a que se viria a registar a posteriori. Mas os artistas nascem e, quando a morte lhes leva, e a nós, a sua capacidade de criar arte ou de transmiti-la, não são votados ao esquecimento seguro como o são todas as outras pessoas que não dedicaram os seus anos a uma obra ou a uma causa de mérito próprio. E após eles, algo na vida de todos foi deixado por essa pessoa, entrando em nós por algo acessório ao movimento físico. Os artistas verdadeiros passam pela vida para deixar o que não lhes irá permitir a morte inteira, mas apenas do seu corpo, que se sumirá enquanto veremos a memória perdurar! Talvez haja artistas permanentemente deprimidos, e mesmo eu não consigo descobrir nisso uma acertada escolha ou compromisso... contudo, restará a todos saber que vida é preferível se a outra se assume como alternativa à qual nos podemos remeter todos os dias.

Não sei também, e hoje pareço saber muito pouco ou então entendo-o simplesmente hoje, se Pedro Homem de Melo já saberia da imortalidade de que o seu nome goza nos dias que correm, ou se para a alcançar foi que confiou à maravilhosa voz de Amália a sua arte em verso. E dos poemas que a diva do Fado cantou cujo poema proveio do pensamento e das veias deste poeta, refiro Havemos de ir a Viana, Cuidei que Tinhas Morrido e o sempre recordado Povo Que Lavas no Rio, que para mim é mais do que música e que o sabem os que me conhecem.

"Povo que lavas no rio,
que talhas com o teu machado
as tábuas de meu caixão,
pode haver quem te defenda,
quem compre o teu chão sagrado,
mas a tua vida não.

Fui ter à mesa redonda,
beber em malga que esconda
o beijo de mão em mão;
era o vinho que me deste
água pura, fruto agreste,
mas a tua vida não.

Aromas de urze e de lama,
dormi com eles na cama,
tive a mesma condição;
povo, povo, eu te pertenço,
deste-me alturas de incenso,
mas a tua vida não."

Neste poema, Pedro Homem de Melo canta a um dos seus amores: o povo português, as suas tradições e especificidades. O amor ao país fazia dele um apaixonado pelo património folclórico que nos pertence e que enriquece a cultura das diferentes regiões portuguesas. Dedicou muito da sua obra à concepção de poemas para canções populares. E o povo acarinhava-o, sabia encontrar nele quem o amasse como um igual. De resto, e por trás das suas variadas dedicações que pudesse reservar, era um licenciado em direito pela faculdade de Coimbra, onde chegou a contactar com o movimento da revista Presença, do qual fazia parte, entre outros, o já muito mencionado José Régio. E uma vez que não vos dei ainda o conhecimento da altura do nascimento deste poeta de hoje, estas suas relações são o único testemunho que têm para induzir algum dado. Mas não o precisam fazer, pois sois o povo e sou, também eu, um amante de tudo o que sois. Pedro Homem de Melo nasceu no Norte do país em Setembro de 1904, vindo a deixar-nos em 1984, junto ao início da Primavera.

Sou pouco afecto a boatos ou especulações de qualquer ordem. Porém, ocorre-me dizer que, segundo alguns dados que me foram dados a interpretar, Homem de Melo era, muito provavelmente, apoiante do regime de António de Oliveira Salazar. Há uns poucos de dias murmurei, como um desabafo que se faz na regularidade dos costumes, na presença do meu melhor amigo, que pareciam ser todos os grandes escritores portugueses do século XX ligados à ideologia comunista. Perante esta realidade terei de me resguardar mais no que toca a pensamentos generalistas. Muitos de vós serão do conhecimento das minhas convicções políticas e da amargura que me corrompe ao nome de Salazar e todo este ódio que, pela sua envergadura, chega a ser crime: ainda assim parecendo, e por isso, surpreendi-me a mim mesmo por não odiar, de um momento para o outro, quem foi este poeta. Na verdade, compreendo hoje, mais do que há uns tempos, que uma pessoa não se define somente pela ideologia que acredita ser viável para o desenvolvimento promissor de uma sociedade e de uma economia. Conhecendo a dedicação do regime Salazarista à manutenção de tantas tradições regionais, ganhei a noção de que coexistem sempre duas, ou mais, perspectivas do mesmo assunto. Neste caso em particular, o povo era defendido pelas ideias marxistas por estabelecerem o poder de decisão nas mãos dos trabalhadores, e era também defendido pelo Salazarismo na medida em que este pretendia reunir esforços para o apoio da vida rural e das comunidades menos ligadas à urbanização. Continuo a desgostar bastante de gente que queira trazer de volta os maus tempos que mataram pessoas do meu país e continuo a sonhar com a Revolução de Abril que não matou ninguém, mas não retiro o mérito ao Salazarismo pela sua política de defesa do património folclórico e das tradições que só enriquecem este nosso canto da Europa.

E assim finalizo este artigo, talvez mais de temas subjacentes do que de biografia. E deixo a promessa de vos escrever sobre Ary dos Santos, na próxima semana, e ainda o pedido reformulado: sejam felizes!