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segunda-feira, março 16

Literatura: Por trás da madeira oca do cachimbo

Muitos haveriam de dizer, se ao mérito da grande mestria de David Mourão-Ferreira fosse mais equivalente o nascimento de um reconhecimento mais profundo sobre a sua obra, que a genialidade, ou parte dela, provirá da conservação de um vício, tomado como a paz menos saudável de um espírito que se quer agradado. O fumo do cachimbo era aquele ar de um odor forte que este grande poeta do século XX apreciava que saísse de dentro de si, por sopros lentos e aguardados, esperando ver, após cada baforada apetecida, que, do mundo aparte dos Deuses, descesse ao seu pensamento uma nova criação, novos versos de magia e talento. O cachimbo, que eu sempre uni à imaginação de grandes artistas, como o hábito de beber absinto ou de procurar a solidão, era o amigo inseparável deste meu grande mestre no qual muitas vezes penso, e o qual vejo como exemplo de sobriedade inigualável a seguir com um certo orgulho. Deixava-se retratar propositadamente com o seu cachimbo, e não pensem de mim qualquer materialismo de extremos por afirmar o que seguirei a afirmar acerca dos objectos, mas que em verdade eles são, tantas e tantas vezes, melhores conselheiros que os humanos, por nos aconselharem num ambiente silencioso e de paz.

Assim como José Régio, que abordei há duas semanas, David Mourão-Ferreira, nascido em 1927, cursou Filologia Românica, embora em Lisboa. Acabaria por leccionar nessa mesma faculdade de Letras, até retirar-se e procurar viver da sua própria escrita, tanto no campo criativo, como através da publicação em periódicos. No campo jornalístico trabalhou para jornais tão diversos como A Seara Nova, Diário Popular, O Dia e A Capital. Revelou sempre, junto dos seus colegas de trabalho e mesmo de estudo, uma invulgar capacidade criativa e maturidade literária que prometia sempre surpreender o próximo. Notabilizava-se e impressionava através da crítica literária, além de que soube sempre como fazer chegar ao grande público as suas mensagens.

Este aspecto vem direccionado do último artigo que escrevi para este blogue, na semana que passou: uma infinidade de poetas do século XX buscou no Fado e na sua popularidade a oportunidade valorosa de alcançar o reconhecimento da população. Este foi um deles. Mas David Mourão-Ferreira, não que se tratasse de um manipulador ou daquilo a que vulgarmente chamamos de interesseiro, mas soube tirar partido da canção para mais facilmente intervir no pensamento comum. Isto é, todos conhecemos a capacidade única das artes em geral, e da literatura em particular, para imortalizar uma mensagem ou um pensamento, e na conjuntura cultural do Portugal de meados do século passado, quando a censura operava com tanta regularidade e limitando tanto os movimentos e ideias dos criativos, este poeta entendeu que usar o Fado, e muito especialmente Amália Rodrigues (sempre adorada pelos dirigentes políticos da ditadura), seria uma forma inteligente de, possivelmente, conseguir ir mais além na crítica, se esperto e perspicaz fosse ao fazê-lo.

E assim conseguiu: para Amália Rodrigues escreveu o poema Abandono, também conhecido hoje como Fado Peniche, em que esboça, com grande clareza, uma crítica à política salazarista de prisões e perseguições com base na opinião pessoal acerca dos caminhos que o País devia seguir.

“Por teu livre pensamento
Foram-te longe encerrar:
Tão longe que o meu lamento
Não te consegue alcançar.
E apenas ouves o vento
E apenas ouves o mar!”

Assim se inicia o fabuloso poema. A grande crítica tem lugar nos dois primeiros versos, onde aparentemente o Poeta, na voz da Cantora, recorda quem, por seu pensamento, terminou atrás das grades, apenas ouvindo os sons solitários do vento e do mar. Esta descrição pouco precisa, mas suficiente, do espaço (do longe em que encerraram o preso) faz ainda hoje pensar que este se trata do Forte de Peniche, uma das grandes prisões do Estado Novo. Nesta primeira das três estrofes que constituem o bonito poema, a Fadista chora a tristeza de saber o seu amor desgraçado, numa agonia provavelmente maior do que a sua, que o viu partir. É a dor de uma amante que, apesar do afogo caído pelo suor de cada lágrima, não pode fazer chegar mais o seu lamento aos lábios de quem ama. E pelo resto do poema, através de uma comparação, nem sempre perceptível, entre a dor de quem partiu e de quem ficou, há-de concluir-se que quem ficou conhece umas tormentas mais graves, por um único pormenor que é lançado na primeira estrofe mas que só se entende com a última. E o poema continua assim:

“Levaram-te a meio da noite
A treva tudo cobria.
Foi de noite, numa noite
De todas a mais sombria.
Foi de noite, foi de noite
E nunca mais se fez dia!”

O significado da palavra noite está relacionado com a bruma em que esta acontece sempre que um dia acaba, e que deve ser relacionada com o tempo da solidão, da tristeza, enquanto a luz, o Sol, o dia, nos remetem para a euforia, alegria e energia. E daí que se escreva e se cante que não mais tornou a ser dia após a partida do seu amado para a prisão que não mereceu. Onde estavam antes os beijos mais ternos e quentes, está agora o vazio e o silêncio, como nos será apresentado na derradeira estrofe do poema:

“Ai dessa noite o veneno
Persiste em me envenenar!
Ouço apenas o silêncio
Que ficou em teu lugar…
Ao menos ouves o vento,
Ao menos ouves o mar!”

Temos aqui a grande conclusão do poema, como aparecendo ele uma breve e concisa reflexão sobre a solidão forçada dos dois amantes e que promete conduzir ambos a uma loucura certa: quem ficou sofre mais por vê-lo partir, pois ouve o silêncio onde antes via amor; quem parte, tem ao seu lado o vento e o mar… Ouve, por assim dizer, as ondas e as rajadas que podem trazer sempre algo de novo, ou que simplesmente se tratam de algo novo a cada instante! Mas quem ficou, no tremendo abandono que dá o título ao poema, deixou de ouvir e de manter-se na saúde que poderia criar novas esperanças. E tudo isto cresce de beleza a cada novo verso que se apresenta, não havendo nenhum verso que não tenha sido estudado com precisão antes de ser escrito: todo o verso adiciona uma informação e é suficiente para depreender muitos outros dados através de acção simbólica ou de pura dedução que nós somos capazes de cumprir.

Resta debater o que sucedeu de tão impróprio, segundo o normal rigor que regia a censura portuguesa, para que este poema tenha sido cantado, em Portugal e no mundo, durante os tempos da ditadura. A comissão de censura, evidentemente, chamou Amália para prestar declarações e justificar-se prontamente. A Cantora defendeu-se com a beleza sublime do poema e da equivalente melodia de Alain Oulman, dizendo que se tratava de um vulgar poema de amor, sem mensagem subliminar, sobre dois amantes que viram os seus Destinos interceptados por uma força mais forte que as suas sensibilidades. A emoção da arte convenceu a censura, e fará algum sentido que assim tenha ocorrido: é este, sem dúvida nenhuma, um dos poemas mais formidáveis que Amália cantou, com uma música tão ou mais brilhante do que as próprias palavras que a seguem.

E este poema e o jogo duplo de Amália Rodrigues em relação a esta canção são hoje a demonstração de que ela, contrariamente ao que muito se argumenta, não era afecta ao fascismo e que simplesmente o mostrava ser por ela se tratar de um mecanismo que o Regime utilizava para impressionar além-fronteiras; e essa projecção importava a Amália Rodrigues, e é compreensível a todos nós. Aliás, para quem viu o filme Amália ou tenciona vê-lo ou revê-lo em breve, note no seguinte pormenor: no momento em que acusam Amália em pleno palco do Coliseu dos Recreios de apoiar o Estado Novo, ela inicia a cantar Abandono, como dizendo que todas essas acusações carecem de fundo verdadeiro, e que ela, como qualquer bom português, ansiava por uma mudança estrutural na política e sociedade portuguesas. Tal como David Mourão-Ferreira, que esteve não só por trás da madeira oca do cachimbo, mas também por trás desta mensagem de esperança e intervenção num Portugal fechado, só em aparência, a diferentes modos de pensar.

segunda-feira, março 9

Literatura: Palavras cantadas e soltas no ar

É com este artigo e com esta frase que darei início a um novo tema abrangente do meu plano de artigos: a literatura do fado. Para o típico e frequente ouvinte da música de Lisboa, o nosso fado, ou mesmo para os mais afastados desta forma de ouvir os nossos lamentos e harpejos, o elemento central desta música parece ser a emocionada e fascinante voz que entoa as notas mais belas da existência do ser humano. Sem dúvida que este aspecto é comum a qualquer estilo musical e a própria música alimenta-se dessa sua característica um pouco redutora... Na verdade, por trás de quem interpreta uma canção, existem os seus verdadeiros criadores, mentes fecundas que não surgem nos espectáculos mas que o originaram por via da sua imaginação: há os compositores que criam a musicalidade e os escritores, poetas geralmente, que juntam as palavras que melhor calharem em cada momento da melodia que foi sugerida à voz do fadista. E é este desmembramento do nosso fado que eu considero essencial num espaço de debate de ideias e de cultura como este: importa conhecer as vozes, mas também todos os artistas que produzem, dando o seu contributo com alguma arte, a obra-prima que termina cantada junto de um público muito merecido e acolhedor. E aproveito com muita alegria o espantoso artigo do meu colega da música, que atentou à importância da guitarra portuguesa e dos compositores para a música nacional, para iniciar o nosso estudo sobre os poetas que escreveram para as maiores vozes de Portugal, incluindo os formidáveis fadistas, que em mais nenhum ponto do mundo há, e se os houver encontraremos neles uma raíz, ou uma costela, deste nosso canto à beira mar plantado.

O Fado, enquanto conjunto de canções marcantes que se vêem acompanhadas de uma infinidade de sensações ímpares, é cantado, e ao contrário do que disse uma grande e boa amiga nossa que se pronunciou por altura da nossa tertúlia na escola sobre o fado, o fado não é apenas música ("O fado é... música", disse ela): o que o fado é vai desde as guitarras, à música, à voz, mas é muito aquilo que a voz nos canta - o Fado é, igualmente e com muita importância, as palavras que o poeta do fado escreveu para esse mesmo efeito.

Este estilo de música, durante o século XX, e mais nesse século do que no que o antecedeu e do que neste em que vivemos, consistiu num aspecto central da cultura no nosso país: a arte portuguesa alimentava-se do sentimento do fado e das suas lágrimas... E a isto devemos aliar aquilo que mais me deixa entristecido, como decerto o reconhecem: apesar de todo o mérito da literatura portuguesa e da sua qualidade inegável e aceite mesmo no estrangeiro, e digo mesmo que não há dificuldade em vender Fernando Pessoa no lado oposto do mundo, o público português nunca assistiu aos seus escritores conforme estes o mereceram. Embora a literatura seja, e tenha sempre sido, a arte maior em Portugal, o comum dos portugueses não a vive a não a aprecia consoante seria pretendido com a maior justeza. Esta característica peculiar lembrou aos poetas portugueses do século XX que deveriam fazer mais do que simplesmente escrever os seus lindos poemas em folhas que mais tarde se veriam, ou não, impressas. Os poetas começaram a olhar o Fado, através do canto, como a forma perfeita de fazer os seus poemas alcançaram um público muito mais alargado, que, com a ajuda do sentimentalismo brilhante do Fado, se mostraria bem mais vulnerável e receptivo à poesia. E foi pelo Fado que muitos dos mais influentes poetas portugueses do século passado ganharam popularidade e alguns a mantêm nos dias correntes.

Regra geral, os escritores, principalmente os de cidade, ganham hábitos muito fortes de convívio, nomeadamente nocturno, e em grupo ou sós costumam sair e beber, viver a atmosfera da noite que difere gravemente da do dia em que todas as pessoas vivem, e a noite passa a ser um outro dia, mais restrito e selectivo. Em Lisboa, a grande cidade portuguesa, os escritores e poetas frequentavam muito regularmente as casas de Fado dos bairros mais tradicionais, como Alfama, Mouraria ou Bairro Alto, e nestes estabelecimentos contactavam directamente com outros artistas, como compositores e fadistas. Tornou-se, pelo passar do tempo, cada vez mais usual criar um ciclo entre todos estes artistas, de inspirações recíprocas que culminariam numa grande revolução cultural em Portugal, com as devidas limitações impostas pelo Regime do Estado Novo: os criadores inspiravam-se com as vozes dos fadistas e compunham e escreviam cada vez melhor para essas mesmas vozes; os fadistas, por sua vez, com melhores melodias e melhores poemas, podiam chegar ainda mais longe e cantar ainda melhor, uma vez que os criadores começavam a conhecer os pontos fortes do canto da pessoa em questão. E, desta forma, os artistas que o Fado envolve faziam melhorar-se uns aos outros, persistentemente, sempre mais e mais. Sem surpresa afirmo que todo este processo atingiu o auge com a melhor Voz que o mundo algum dia pôde fazer nascer: Amália Rodrigues.

Os melhores compositores e poetas do nosso país, e mesmo de outras nações, dedicaram trabalhos a esta diva maior que tudo o resto que existiu entre nós. E é os poetas que Amália cantou que pretendo tratar nos próximos artigos e no que ainda sobrar deste. Porque os poetas que encontramos na obra da grande Fadista e Cantora podem dividir-se em três grupos: os poetas tradicionais, os grandes poetas e os poetas do Fado.

O primeiro grupo diz respeito aos primeiros poetas que trabalharam com Amália, e os que geralmente trabalham junto dos fadistas; são geralmente poetas nascidos nos bairros antigos de Lisboa e muito junto, de alguma forma, com a atmosfera que é vivida nestes bairros de cariz histórico. Estes poetas não apresentam traços de genialidade muito evidentes, mas mantêm-se quase sempre incrivelmente fiéis ao sistema rimático defendido no Fado, ajudando, como nenhum outro grupo de poetas, à descoberta da verdadeira linguagem do Fado. Neste grupo encontramos nomes como Amadeu do Vale, José Galhardo, Linhares Barbosa e Alberto Janes.

O segundo grupo, o dos grandes poetas, é especialmente importante para a obra mais brilhante de Amália Rodrigues. A Cantora portuguesa ultrapassou-se a si mesma quando surpreendeu o mundo inteiro a cantar Luís de Camões e os seus mais perfeitos, e alguns até mesmo pouco conhecidos do público alargado, sonetos do maior poeta da língua portuguesa. Nos dias de hoje, por exemplo, é bastante comum a um fadista, como Camané o fez já, aproveitar poemas de Fernando Pessoa e cantá-los com a emoção toda do Fado. Na carreira de Amália, encontramos outros poetas já falecidos que a Fadista procurou fazer relembrar junto do grande público que reuniu, como o rei D. Dinis, famoso trovador e importantíssima figura na cultura portuguesa do seu tempo.

O terceiro grupo, na minha opinião o mais importante dos três na perspectiva da carreira e do sucesso de Amália Rodrigues, é sobre o qual me debruçarei nos próximos três artigos. Estes foram os grandes poetas do século XX que, conhecendo Amália, escreveram propositadamente para a sua voz. Neste grupo invulgarmente genial encontramos os influentes nomes de José Régio, já mencionado em relação ao Modernismo, no qual foi uma personagem incontornável, Alexandre O'Neill, David Mourão-Ferreira, José Carlos Ary dos Santos, Pedro Homem de Melo e Manuel Alegre (que ainda hoje é influente e não só pelo que escreve). Deixo de seguida, e para terminar, o excelente poema Gaivota, de Alexandre O'Neill, que é, na minha sincera e ponderada opinião crítica, o melhor de todos os poemas do Fado. Leiam e escutem, e aprendem a ser felizes pelo ouvido...

"Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração."

segunda-feira, março 2

Literatura: As mãos de Deus na sociedade do Diabo

Lembro, para início desta semana que se avizinha e promete trazer no regaço novidades e algumas alegrias, que iniciei, com o artigo anterior, o estudo da segunda geração de modernistas portugueses. Esta geração, que deu à corrente modernista um novo fôlego e impulso após a morte de alguns vultos que fundamentavam a ideologia, como Mário de Sá-Carneiro, Santa-Rita Pintor e Amadeo de Souza Cardoso. Falo da revista Presença, tal qual sendo uma segunda revista Orfeu na História literária deste nosso bom país. Assim, é justo afirmar dois pontos: primeiro, os fundadores desta revista tornaram-se os efectivos membros e responsáveis por este segundo surto modernista (Adolfo Casais Monteiro, João Gaspar Simões, Branquinho da Fonseca e José Régio); segundo, refiro que a segunda etapa do Modernismo lusitano compreendeu essencialmente uma preocupação literária pelo aprofundar de algumas místicas iniciadas pela primeira geração, sendo que os artistas plásticos modernistas não se evidenciaram com vantagem nesta segunda geração. E se falamos em diferentes gerações, implica que vários anos tenham passado, como um interregno que tivesse trazido diferentes inspirações e projectos inovadores. A primeira geração de modernistas correspondeu ao verdadeiro início do século, nos seus quinze anos iniciais, principalmente. A segunda geração corresponde aos artistas que se uniram, num projecto uno e concreto, a partir dos anos 20 até ao avançar do movimento neo-realista, iniciado na década de 30.

Entre as personalidades que demonstram a genialidade desta nova geração, apenas José Régio me faria erguer do meu assento numa interminável ovação, e com efeito tornou-se o grande impulsionador de todos os poetas do seu tempo, e o grande ideólogo da manutenção dos cânones modernistas na literatura. As influências que eram trazidas do estrangeiro pelos intelectuais, e mesmo aquelas que eram sugeridas pela conjuntura interna de Portugal, ditaram as opções que divergiram o ideal da primeira geração do Modernismo e esta que estudo hoje. A Guerra Mundial, antes dos anos 20, revelou a brutalidade das acções humanas e as suas dramáticas consequências, como um conflito num dado sítio possa fazer sofrer os lugares mais remotos. José Régio, na sua poesia milagrosa, de tão excepcional, assimila esta desconfiança na espécie humana, os dramas do indivíduo que questiona o bom funcionamento e o conceito de sociedade que o alberga. As suas convicções socialistas, a par das de muitos e tantos outros escritores portugueses, permitem percepcionar com certa facilidade este espírito carente de mudança e de ajuda, que procura as soluções para a sua pessoa e para a humanidade que parece condenada à destruição de si mesma.

"Poeta sou! cumpro o meu Fado, estranho

Como o dum santo ou um louco

Só posso dar de mais ou muito pouco,

Que é tudo quanto tenho."

Estes quatro versos, escritos pela mão mágica de José Régio, demonstram, melhor do que as minhas especulações podem fazer-vos entender, as dúvidas que baseiam a sua personalidade: um sujeito que se isola, olhando os outros em sociedade como um objecto onde apenas pode depositar os extremos da sua alma - o tudo ou o nada. Não existia meio termo na dedicação deste homem, parecia ele amar demais e querer demais, sempre demais para os outros o poderem satisfazer; ou então queria pouco, tão pouco, e tão pouco oferecia em troca, que o mundo o deixava de ver, de observar, e o esquecia, deixando-o abandonado nos seus sonhos perdidos.

O parto do poeta, cujo verdadeiro nome era José Maria dos Reis Pereira, deu-se no primeiro ano do século XX, tornando-o o primeiro grande poeta verdadeiramente contemporâneo. Vila do Conde foi a terra que o viu nascer, além a norte mesmo do Douro, em território tão frio e tão chuvoso se compararmos com a cidade linda que o viu sofrer e passar a maioria da sua vida: Portalegre. Em Vila do Conde cresceu até completar o quinto ano do liceu, e até essa data tinha já escrito alguns poemas que se viram publicados em jornais locais. Na universidade cursou Filologia Românica, e lá conheceu os seus futuros colegas da Presença. Esta revista viria a ser publicada em edições sem frequência fixa e sem modelo comum: tratava-se de uma reunião de pensamentos, dissertações e obra literária dos seus escritores, sendo impressa cada vez que se encontrava pronta para o efeito. A tese da sua licenciatura anunciava já a sua extrema vocação para a literatura: o século havia-se iniciado havia poucos anos, e a tal tese centrava-se nas tendências e correntes literárias que se manifestaram desde o fim do século XIX, abordando já nomes pouco conhecidos na altura, como Mário de Sá-Carneiro ou Fernando Pessoa. Em Portalegre, onde viveu a sua vida numa estalagem da qual fez casa após a adquirir em completo, leccionou durante mais de trinta anos.

Mas é comum dizer que o isolamento deste poeta terminava nas horas em que ensinava os seus alunos. Findo esse período do dia, encontrava-se só, vivendo sozinho, percorrendo por vezes os campos em redor de Portalegre no seu burro. Era um homem da solidão, e nela sabia como encontrar um certo encanto e uma beleza acima da que achava existir na vida social. Uma das suas outras paixões era a colecção imensa de obras de arte sacra que reuniu na sua casa branca de Portalegre, e que hoje corresponde a uma casa-museu de extremo interesse - que eu mesmo tive já o grande prazer de visitar num dia soalheiro e memorável.

Grande parte da sua obra centra-se no binómio Deus/Diabo, analogia para Indivíduo/ Sociedade, como o demonstra o seu mais significativo poema, denominado Cântico Negro, do qual se segue um aclamado e brilhante excerto:

"«Vem por aqui» - dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: «vem por aqui»!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali... (...)

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: «vem por aqui»!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
- Sei que não vou por aí!"

E aqui termino a abordagem longa que fiz do Modernismo, e ainda nos próximos meses verão neste espaço de literatura o tratamento da literatura do fado. E não por acaso que tenha escolhido este poema de José Régio para dar termo ao estudo do Modernismo. Afinal, positivamente, quais versos algum dia escritos hão-de conseguir demonstrar tão mais fielmente o propósito e a mudança que os modernistas introduziram, o seu espírito de buscar a novidade e a diferença, a sua longa procura pela negação das tradições gastas no passado, do que estes?

"Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
- Sei que não vou por aí!"

quarta-feira, fevereiro 18

Literatura: O rosto da crítica inteligente

Escrevo hoje ao meu estimado e considerado público, por pequeno que seja - ao menos de qualidade se preza de ser, quando me encontro longe deles em matéria física; piso terra que a desconhece a minha pátria do oceano em diante e da minha felicidade prometida. Pois vos digo desde o momento presente que me encontro em lugar conhecido por muitos artistas e génios, especialmente do passado: aqui, nesta cidade bonita de nome Siracusa, nasceram personalidades representativas da cultura ocidental, entre eles Arquimedes, criador da célebre expressão "Eureca!", utilizada tipicamente após rasgos de genialidade que ocorrem aos inventores e cientistas. Na verdade, que diferença de maior tom se colocará entre a ciência, com os seus inventores, e a literatura, com os seus estilistas da língua? Refiro que o método é substancial e primorosamente idêntico, e ambos os talentos, se de seu desejo é viver convenientemente folgados com os lucros dessa sua única actividade, sobrevivem dos eventuais rasgos de genialidade - esses acessos de bem pensar que podem tornar-se tão raros, mas então tão importantes. O inventor e o escritor criam; o inventor produz obra material que se adapte à vida mundana, enquanto o escritor produz as suas obras espirituais, artigos de consciência e ideal, que devem ajudar o Homem a fazer a sua própria adaptação.

E bem chegados que nos fez esta divagação de extremo interesse e na qual penso há já algum tempo. Com efeito, vem ela a propósito da particularidade que assinalo no escritor que hoje trato neste artigo: João Gaspar Simões (na imagem). Um escritor, de boa verdade falemos, não o é pela criação literária de obras originais, mas também o pode ser por somente usar da boa linguagem com distintas funções. Por exemplo, um bom escritor pode não dedicar a sua vida à elaboração criativa, mas antes ao jornalismo, ao aconselhamento de alguém superior escrevendo os seus discursos, ou à crítica literária de outros autores. Outros artistas desta arte existem, igualmente, que partem de uma destas actividades paralelas, consideravelmente mais recompensadas a nível monetário hoje e sempre, e vão introduzindo o seu nome na mestria, no auge: a criação de literatura. Sugiro, para fazer exemplo, o nosso estimado José Saramago, influente e brilhante prosador português, assim como poeta e dramaturgo de reconhecido valor, cuja carreira se iniciou nas secretárias do jornalismo, tendo muito mais tarde entregado o seu tempo e vida plena à literatura por a criar com inesgotáveis toques de individualismo.

João Gaspar Simões cumpriu um leque variado de funções nas letras, deixando testemunhos valiosos na produção literária; contudo que se notabilizou em especial com os seus livros de crítica e antologia literária de grandes nomes da literatura portuguesa do início do século XX e da segunda metade do século XIX, ainda muito recente na altura que estamos a analisar. Este senhor redigiu biografias de vida e obra de autores como Júlio Dinis, Eça de Queiroz, António Nobre, Camilo Pessanha e, acima de tudo, Fernando Pessoa. João Gaspar Simões, de facto, conheceu bem Pessoa na sua vida, e mantinham relações firmes de amizade em comum. A proximidade ao génio pessoano permitiu que, com qualidade e conhecimento, viesse a tornar-se o primeiro biógrafo de Fernando Pessoa, vindo a revelar-se protagonista na divulgação da obra que este escritor não publicou ao longo da sua existência.

O Modernismo português, que se exprimiu em particular nas artes pioneiras da literatura e pintura, pode ser dividido em dois momentos: a primeira geração de modernistas, unidos nas duas edições da revista Orpheu, e a segunda geração, fundadora da revista Presença. Da primeira geração fizeram parte os escritores já tratados Almada Negreiros, Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa. Entre os fundadores da revista Presença, anos mais tarde, está um conjunto de intelectuais que travaram conhecimento durante os seus estudos superiores em Coimbra - escritores como Branquinho da Fonseca, Adolfo Casais Monteiro (a qual Pessoa escreveu a célebre carta acerca da génese dos heterónimos), José Régio, que referirei na semana seguinte, e João Gaspar Simões. Com efeito, os dois últimos nomes que indiquei tornaram-se os principais escritores desta geração: José Régio era o mais inspirado de todos, autor de poemas tão importantes que ainda hoje seduzem massas; João Gaspar Simões dedicou-se à divulgação de obras de outrem, desviando-se cada vez mais da criação pessoal de literatura. Era, na verdade, um crítico capaz, como nenhum outro, de chamar as atenções: causava polémica pelos seus escritos, assinando opiniões muito avançadas para a altura, que homem nenhum ousava concluir a partir da literatura. O crítico literário, posso dizê-lo, pode ser responsável pela afirmação de um estilo linguístico, como foi Gaspar Simões em relação ao modernismo, junto da população.

E em gesto de final anunciado, peço que todos me desejem profunda satisfação nestas minhas férias, onde me retiro no Mediterrâneo, com uma certa nostalgia de distância e vontade de regressar ao meu lugar, deixar-me passear nos sítios de Lisboa que são meus. Saudades é isso, é querer mudar se estou distante e é não ter estima louvável naquilo que é novidade, desconfiando sempre, preferindo o gosto e os contentamentos de uma rotina, de uma habituação passada. É amor também, amor português pelo seu mesmo país, e se essa dedicação faltará a muitos rostos desta nação nossa, eu tê-la-ei decerto pela conta de todos esses traidores. Tenho dito. Ponto final.

segunda-feira, fevereiro 16

Literatura: O bucólico e o futurista

Entre o que hoje ocorre realizar para um comum mortal como sou, escrevo-vos como é sempre o meu hábito do início das semanas. E este artigo, se algum dos artigos é, de consciência nossa, um artigo banal, difere bem dos outros. Termino hoje as quatro semanas sucessivas que me dei a tratar Fernando Pessoa nestas crónicas, e por essa efeméride trago uma determinada felicidade, conferida à minha calma por via do sossego que se anuncia: hão-de saber de pleno conhecimento que adoro Fernando Pessoa e os seus brilhantes heterónimos; todavia, um génio torna-se mais complexo de analisar, e muito em particular este poeta, tão místico que ainda hoje se demonstra a quem o pretende entender e se esforça nesse sentido.

Vejamos o que percorremos, para melhor concebermos o lugar em que nos encontramos e todo o caminho que hoje importa avançar. Para a iniciação a Fernando Pessoa, abordei a sua vida e esbocei uma panorâmica opinião acerca de quem deixou ser para os tempos que viriam. Na segunda crónica dirigi-me ao "poeta da própria pele", consoante me aproveitou chamar-lhe, analisando a poesia do ortónimo e referenciando a sua obra "Mensagem". Há tempos de sete dias feitos agora, iniciei-me ao estudo dos seus heterónimos, tendo identificado os três principais e ainda o semi-heterónimo Bernardo Soares, mostrei a carta redigida por Pessoa a Adolfo Casais Monteiro sobre a génese dos heterónimos e ainda tratei o heterónimo Ricardo Reis - o clássico. Hoje falta, pois, abordar o bucólico - Alberto Caeiro - e o futurista - Álvaro de Campos.

O heterónimo Alberto Caeiro, se o podemos afirmar em linhas gerais como o faço, é o mais demarcado do próprio Fernando Pessoa, revelando todos os traços de personalidade que dificilmente remeteríamos ao ortónimo. Encontramos, então, uma total libertação do poeta, neste heterónimo preterindo qualquer privilégio ao pensamento e à razão. Segundo Caeiro, o ser apenas é, apenas existe, e qualquer desvio que preconize relativamente à sua natureza pacífica e sensacionista é visto com desconfiança e desagrado. O "guardador de rebanhos", como ficou conhecido Alberto Caeiro, ou o "mestre", terá vivido a maior parte da sua vida como camponês das terras altas, faltando-lhe, contrariamente ao ortónimo e, ainda mais, a Ricardo Reis, a escolaridade quase na sua plenitude. Ficou cedo órfão, tendo sido criado pela sua tia-avó, excelente pessoa de parcos rendimentos. A sua obra poética (que em termos de génese foi escrita por Fernando Pessoa, quase na totalidade, num único dia), reflecte estas vivências, influenciado, no entanto, pelo poeta português Cesário Verde - a quem dedica, inclusive, o poema "Guardador de Rebanhos". A natureza é o elemento fulcral da sua obra, moldando a sua personalidade e as suas emoções consoante as alterações de clima e a transição entre dia e noite. O seu registo linguístico, resultante da sua fraca formação, é simples e objectivo, demonstrando, porém, uma extrema complexidade reflexiva. O poema que sigo a expor exemplifica a escrita bela, simplista e tranquila do poeta que rejeitava a filosofia e procurava as diferentes emoções que nos oferecem a vida e a natureza:

"Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado."

Álvaro de Campos, com o qual terminarei esta longa abordagem sobre a principal figura da literatura portuguesa do século XX, é o mais complexo entre os diferentes heterónimos criados na imaginação de Fernando Pessoa. A genialidade deste heterónimo diz muito com a evolução dele mesmo que, como um escritor consolidado e material, manifestou três diferentes fases na sua obra. Álvaro de Campos, segundo Pessoa, era um engenheiro português de educação inglesa, que em parte nenhuma do mundo se acreditava, por o sentir, em casa.

A primeira fase da sua obra, se por fases vou referenciá-la, obteve o nome de "Decadentista". Nos poemas redigidos nestes anos, Álvaro de Campos revela um cansaço e tédio acerca da civilização moderna, desconhecendo o verdadeiro sentido da vida. O Poeta procura, como forma de se manter vivo e sabê-lo, novas experiências sensacionistas, como o consumo de drogas e tantos outros vícios. O pensamento era uma constante em Álvaro de Campos, tal como em Fernando Pessoa, e o seu desencanto completo derivava largamente desta sua obsessão pelo raciocínio que afasta as hipóteses de levar uma vida tranquila e estável.

"É antes do ópio que a minh'alma é doente.
Sentir a vida convalesce e estiola
E eu vou buscar ao ópio que consola
Um Oriente ao oriente do Oriente."

A segunda fase da obra de Campos recebeu o nome de "Futurista", demonstrando, como nenhuma outra das três, uma incrível energia perante a existência humana. Álvaro de Campos parece ter encontrado na civilização e na modernidade a justificação e o meio de tornar o seu ser eternamente jovem e motivado a fazer e experimentar sempre coisas novas. A exageração do sensacionismo que se exalta nos seus extensos poemas é acompanhada por um extremo erotismo e sadomasoquismo que parte das formas inovadoras das máquinas modernas.

"Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera.
Amo-vos carnivoramente,
Pervertidamente e enroscando a minha vista
Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis, (...)"

Esta força de vida, de tal forma contagiante como uma doença maldita, cessou com o tempo, originando a terceira fase - intimista ou pessimista. Na verdade, arrisco afirmar que a verdadeira forma de viver de Álvaro de Campos era esta de enfrentar mal a vida ou confrontá-la com o olhar em baixo, notando em cada instante o seu próprio abatimento e desejo de desistir das condições que nos são infligidas. Simplesmente a civilização e um sem-número de avanços tecnológicos interromperam, por um curto tempo mas efectivo, esta filosofia de vida baseada no desgaste e na vida como início já da própria morte.

"Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum."

E é este leque de variações imensas e opções sem fim que é, com efeito, a obra poética do génio de Fernando Pessoa. Foi o único poeta que, com a sua mente, utilizando-a ainda mais que qualquer artista, concebeu artistas de elevado talento, todos originais entre si, todos eles com filosofias de vida plausíveis e interessantes à análise. Seja com base na reflexão do desgosto, seja pelo exagero das dinâmicas, ou seja mesmo pela tranquilidade de sentir o Sol bater-nos na cara, a verdade é que a poesia vasta que nos deixou Fernando Pessoa no testamento, a todos nós, é bela pelas perspectivas todas que compreende, como um polvo que, pelos tentáculos, chega mais longe em todas as direcções.

segunda-feira, fevereiro 9

Literatura: Ricardo Reis e a herança clássica

Em gesto de recordar o que anteriormente referi a propósito do vasto legado literário que nos deixou Fernando Pessoa – o ortónimo – lembremo-nos de dois campos essenciais: a obra lírica e o seu livro publicado, A Mensagem. Pois embora seja esta última a sua obra de referência num determinado panorama, tratando-se dos seus únicos poemas vistos pelos leitores durante a sua vida, não é hoje o marco fundamental e mais característico da sua extensa obra literária.

Isso deve-se à situação de o génio de Pessoa ter albergado no interior da sua frutífera mente outros homens de personalidades algo diferentes, unidos apenas por uns gostos ou atitudes semelhantes e que poderão mostrar, aos analistas, que todas viviam no mesmo corpo e sofriam, a bem dizer, os mesmos desgostos e as mesmas carências. Não podia eu estar a falar senão dos conhecidos heterónimos de Fernando Pessoa. A sua heteronímia, em traços gerais, compreende três poetas e um semi-heterónimo. Este último, Bernardo Soares, não é contemplado na lista de heterónimos pessoanos porque são-lhe atribuídas suficientes características do próprio ortónimo, não se manifestando na sua escrita uma personalidade alheia ao mundo de Fernando Pessoa, ele mesmo. Os heterónimos mais influentes na literatura portuguesa desde Fernando Pessoa e no presente são, com efeito, e por ordem cronológica acerca da sua génese, Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Álvaro de Campos. Do primeiro tratarei ainda na extensão deste artigo de hoje e a ele devo o título que acima escrevo; os restantes virão na mais próxima data, daqui a exactamente uma semana.

O fenómeno peculiar da criação de heterónimos por um poeta, utilizados especialmente para expressar diferentes visões da vida e do mundo que nos rodeia, surge como a demonstração da evidente genialidade do nosso poeta. Foi ele, precisamente, o grande poeta universal que dividiu a sua obra literária em diversas personagens, concedendo a si próprio uma diversidade original de faces com que encara a vida. Fora de portas, no estrangeiro, a predilecção que se regista num público mais alargado em relação a Fernando Pessoa deve-se, igualmente, à sua criação de heterónimos, que envolve a sua figura numa atmosfera de mistério e constante dúvida relativamente a quem foi, e como foi, então, o verdadeiro Pessoa. Aponto variadas razões para o sucesso que ainda hoje a literatura de Fernando Pessoa alcança noutros países: além de ser factual que a literatura portuguesa sempre ultrapassou fronteiras pela sua elevada qualidade e privilégios que sempre recolheu em Portugal em detrimento de outras artes como as plásticas e a música erudita, é má memória esquecermos que Fernando Pessoa estudou na África do Sul e sempre, desde esse tempo, escreveu também na língua inglesa, fazendo hoje que o público inglês conserve na sua língua mãe alguns textos e poemas deste génio, e assim desperta a curiosidade de um público extensíssimo a ler mais, incluindo traduções do legado literário em português.

Em correspondência a Adolfo Casais Monteiro, seu amigo e interessado nos seus escritos e na sua poesia, Fernando Pessoa descreveu o processo com que surgiram os seus heterónimos: por geração espontânea, e não remetam a expressão para uma religiosidade fervente da minha parte ou da parte do poeta. Tento dizer que a personalidade dos heterónimos invadia a sua própria em certos rasgos de genialidade a que ele assistia. Por certas vezes assume ter tentado forçar a aparição de novos heterónimos, racionalizando novos caracteres, mas sempre sem sucesso: era mais do que podia abarcar. Até uma vez pretendia surpreender o seu amigo Mário de Sá-Carneiro, querendo escrever-lhe uma série de poemas numa personalidade diferente da sua, como a que viria a ser, mais tarde, a de Alberto Caeiro. Todavia, sem êxito: não se conseguia libertar do abraço que o seu drama pessoal, dele mesmo, lhe apertava. Ricardo Reis, com efeito, foi o primeiro heterónimo a surgir, tendo desde já o mérito de ser pioneiro em questão de concepção.

Na mesma carta que redigiu a Casais Monteiro, descreveu Ricardo Reis: "Ricardo Reis nasceu em 1887 (não me lembro do dia e mês, mas tenho-o algures), no Porto, é médico e está presentemente no Brasil. (…) é, como disse, médico; vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontaneamente por ser monárquico. É um latinista por educação alheia, e um semi-helenista por educação própria." Nada melhor do que as palavras do próprio criador para explicitar os principais traços deste primeiro heterónimo. Como aparece, os heterónimos não existiam somente na forma de escritores, mas sim como pessoas vulgares, com percurso de vida, educação, preferências bem deduzidas e passado psicológico. Antes de eu mesmo lhe atribuir mais características e de realçar outras que Fernando Pessoa referiu nesta carta, sugiro que atentemos a uns versos de Ricardo Reis e à minha análise a cada estrofe.
Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos).

O Poeta demonstra a existência de um amor pacífico. Sugere à sua bonita amada (digo bonita por ser ele um poeta clássico, que idealiza a beleza das mulheres) que observem o curso do rio e verifiquem como a vida passa: o rio é a vida, vai passando com um curso definido à partida: é o Fado.

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

O Poeta verifica que não somos Deuses, somos antes mortais e que não podemos contornar esse nosso Destino de morrermos, de ir ter ao mar se a vida for um rio. Então, é necessário aproveitar o bem da vida, preocupando-nos em não sofrer um único instante, mais a mais porque o momento presente é valioso e não se repetirá.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassossegos grandes.

Se não se procura o sofrimento, valerá mais viver e amar como Platão, para que a morte do sentimento, mais tarde, não traga lágrimas ou infelicidade a nenhum dos amantes: amem-se sossegadamente, sem compromisso sério, sabendo gozar aquilo que é mais certo: a vida, se igualmente certa é a morte.

A poesia de Ricardo Reis encontra neste poema um momento chave. É este um poema bastante representativo da filosofia de vida que Reis nos apresenta, centrada no carpe diem e assente na certeza de que a vida é breve e a morte virá sempre. A bem ver, não sabemos se virá já ou se só nos acolherá daqui a muitos anos. Defende que o amor idealizado, não físico, é o amor que todos devemos ter, é ele o mais puro e aquele que, por ser livre e só depender de nós e de ninguém mais que possa sentir diferente, nunca nos trairá a paz e a tranquilidade. É aquele amor que nos assegura uma das coisas mais importantes para a firmeza da felicidade: a estabilidade.

Podemos afirmar que, pela linguagem e pela forma, mais do que pelas temáticas, Ricardo Reis representa na poesia pessoana a herança clássica da literatura ocidental: uma forma de enriquecer o movimento modernista de Orfeu com os conceitos e as maravilhas da literatura de influência grega e latina. Da antiguidade retira também o paganismo, renunciando à Igreja e às suas doutrinas. É, entre todos os heterónimos e mesmo lembrando-me do ortónimo, o mais erudito, sendo conhecedor dos mitos, lendas antigas, figuras das antigas epopeias, além do variado e rico vocabulário que usa nos seus poemas. Ao contrário do ortónimo ou de Álvaro de Campos, que demonstram o descontentamento perante a vida ou as pessoas, Ricardo Reis adopta uma postura pacifista e conformada em relação a tudo aquilo com que é necessário viver, apostando em procurar a melhor forma de resistir e de ser feliz no meio de tantas imposições e de uma tal brevidade e efemeridade da vida. Ricardo Reis revela-se um professor cheio de ensinamentos para nos oferecer, além de criador de uma poesia de extremo bom gosto e agradável à leitura. Reclamem, se não concordam com esta minha opinião, sejam livres e não se conformem (apesar disso ser contrário aos proclamados ensinamentos de Ricardo Reis…)

segunda-feira, fevereiro 2

Literatura: O Poeta da própria pele

E por que lhe chamo esta expressão, entre variadas outras que podia escrever para nossa memória de quem foi Fernando Pessoa? O significado que coloquei na expressão liga-se com o fenómeno mais marcante da sua obra: a heteronímia, a criação de almas distintas dentro da sua alma. Afirmo então que dentro da alma de Pessoa viviam quatro ou cinco poetas, mas só um deles - ele próprio - dentro da sua pele. E aqui tenho explicado o rasgo de irreverência que quis trazer à vossa leitura semanal.

Por muito me doerem os braços do pensamento, e muito em recordação dos escritos do nosso poeta, hoje debruço-me somente sobre um tema em particular. Depois de na passada semana, há sete dias, ter apresentado o decorrer da vida do marco principal da literatura portuguesa do século passado, hoje referirei a obra literária, aliás poética considerando a necessidade do rigor, deste grande génio que viveu onde nós vivemos. O legado literário que este homem nos deixou, ele que agora repousa no Mosteiro dos Jerónimos com os maiores êxitos do país, não pode nem deve ser avaliado como espelho de angústias e de desespero, de hesitação e de pouco fascínio: a razão que Fernando Pessoa sempre buscava permitiu-lhe estabelecer um leque muito vasto e inteligente de filosofias que nos elucidam quanto à atitude que se deve ter perante a vida e consegue mostrar-nos as fraquezas desta realidade, que aos menos atentos pode parecer evidente e firme, mas que o não é intensamente.

Entre toda a literatura que possui a assinatura do próprio homem como rodapé, apenas um conjunto especial de poemas terminou publicado em livro antes da sua morte: A Mensagem. Reportando-me a informações trazidas muito em especial das aulas, é certo que apenas um verdadeiro português saberá ler, positivamente ler e entender, o livro lírico e épico de Fernando Pessoa. Isto porque só é verdadeiro o português que houver lido a maior obra literária da Humanidade, Os Lusíadas, do Camões. É como se a grande verdade dos grandes feitos e glórias de Portugal, hoje, no nosso país, vagueassem ainda nos metros que unem as estátuas de Pessoa e de Camões, ambas no Chiado de Lisboa. Porque, procurando dizer o que corresponder à realidade e o que é justo, foram estes dois génios da palavra que definiram e justificaram as honras que ilustram o passado do nosso povo. E, apesar do passado não mais fugir por ser nosso, não é menos certo que o passado, sem acções que o façam renascer, acabará nunca regressado. A preocupação e a sabedoria do poeta do Chiado foi justamente esta: demonstrar como todo o nosso belo caminho para o futuro, para ser consolidado, necessita o contributo, na forma de acções, de cada um dos portuguesas e de nenhum em especial que se sente no comando da nação. De todos nós em simultâneo, que organizemos uma força que, como antes, nos leve à frente de tudo a dirigir os interesses de nós próprios. Grandes e muitos, nós nunca fomos... mas ainda assim conseguimos uma forma de ser grandes, sendo grandes uma palavra diferente de grandes que disse anteriormente (entenda-se o jogo de palavras relativamente à grandeza perdida de Portugal, ou prefiro dizer grandeza adiada, que se cansou das nossas gentes e mais tarde voltará pelo esforço que reconhecemos necessário.)

A Mensagem pretende chamar o leitor para esta realidade que é pouco fantasiosa e que não advém, como grande parte da poesia de Fernando Pessoa, da sua grande imaginação. Este livro, este estilo de epopeia contemporânea, dita o caminho que devemos, enquanto portugueses de hoje, prosseguir: olhar o passado com consideração e respeito, mas entender que nada do que foi alcançado pelos portugueses foi obra somente do Destino: pois seremos sempre capazes de retornar ao passado glorioso! A Terra é nossa se quisermos! O mar é nosso se quisermos!

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Aqui temos o verdadeiro poder do conjunto, porque nada somos individualmente se possuímos todo um povo que nasceu para, renunciando ao bem-querer de si próprio em particular, se unir em busca do triunfo que nenhuma outra nação entende possível. No entanto, deixámos esmorecer, hesitámos após vencer, como se concebêssemos que a vitória era malograda e não feita à nossa medida. Mas necessitamos renascer, morrer agora e fazer como a fénix faz: deixar morrer para, ao renascer, ser mais forte.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a Hora!

A mensagem é esta: está na hora de renascermos e deixar reviver, nas nossas almas, a alegria e orgulho que os nossos antepassados testemunharam quando, do nosso mar, chegavam as notícias que éramos os melhores... Que delícia que é ler este livro e achar, por ser certo e concreto, que todos juntos havemos de conseguir, trabalhando, trabalhando. Pensando, se quem nos fez, fez-nos a pensar.

A primeira edição deste livro foi no ano de 1934, e a segunda no decorrer de 1941: em plena ditadura. Agradeçamos a Salazar, se não muitas vezes o fazemos, o apoio que este deu a Fernando Pessoa. Sabemos bem, no entanto, que se o fez foi por uma obra literária, do cariz patriótico que esta defende, revelar-se útil como propaganda do regime instaurado. O Secretariado de Propaganda Nacional classificou esta obra na segunda categoria de um concurso literário, porém com a compensação do mesmo prémio monetário do primeiro classificado. Fernando Pessoa morreu pouco depois, mas aceita-se que este esperasse a publicação deste livro para, posteriormente, lançar toda a sua obra e dos seus heterónimos.

E então, como liga ao que acabei de escrever, falarei brevemente da obra poética do ortónimo Fernando Pessoa: o próprio escreveu, numa perspectiva da sua literatura, que é um fingidor, e que tudo cria com o pensamento que imagina e fantasia... Isto levou a que, pelas décadas que têm passado, muitos curiosos não tenham satisfeito a sua curiosidade em relação a aspectos biográficos do poeta - este conserva-se um enigma! Ninguém pode afirmar sem hesitação que Fernando Pessoa era e sentia aquilo que escrevia. A sua obra, todavia, é marcada de um sensacionismo vincado, expresso na linguística do movimento literário que introduziu em Portugal e que sempre defendeu com severidade: o modernismo. É, mais do que os seus heterónimos, utilizador da métrica e rima, lembrando-nos, numa primeira análise, um pouco o rigor de outros tempos, como Camões ou Bocage. No entanto, conclui-se depois que o que Pessoa pretendia era trazer à sua poesia e aos seus desabafos a razão, aperfeiçoando a sua literatura com regras que ajudam o pensamento a chegar mais alto. "A razão aperfeiçoa os sentidos", poderia ele ter escrito, mas deixou para que eu o escrevesse.

Por assim dizer, a heteronímia foi, em grande parte, a forma encontrada pelo Poeta para nos dar uma perspectiva alargada e múltipla da realidade em que vivemos: dá-nos, através de várias assinaturas e várias personalidades, os vários lados da verdade e diferentes filosofias, todas correctas mas todas distintas. E é sobre a obra poética dos heterónimos de Fernando Pessoa que escreverei os dois próximos artigos deste espaço sempre vosso.

segunda-feira, janeiro 26

Literatura: Ilustríssima pessoa

Ocorre-me tratar em vulgares e escassas linhas um vulto da História que, em simples aparência, nada possui ou possuiu que permita a compreensão sobre a razão para agora, antes de nada mais, o abordar. Falo de Albert Einstein, o famoso físico, e a ele dedico estas primeiras palavras por ter sido, entre tantos outros cujo nome me falha por ora, enquanto pequeno, pouco dedicado e mal sucedido nos seus estudos. E toda essa situação, estranha mas em simultâneo propícia no universo dos grandes génios, é contrária à que vivenciou o também grande génio que me compete tratar hoje e em mais três semanas após esta: Fernando Pessoa. E não é assim abstracto o motivo de iniciar a biografia de hoje com o assunto da educação de Pessoa, se, como é sabido e constatado, o nascimento de um sujeito não promove, por si só, a inserção deste, de imediato, no sistema de ensino... Porém, depressa chegarão ao entendimento das minhas razões ao verificar que o sucesso que Fernando Pessoa recolheu nos seus estudos terá contribuído para a formação do grande marco cultural que hoje é para todos nós, enquanto portugueses e enquanto humanos.

Ainda assim, por figurar prudente evitar desconsiderações sobre a minha pessoa (e sublinhe-se o propósito de dizer pessoa neste artigo, e não somente sobre mim), regresso já ao início da nossa narração de hoje. Para que saibam até que limites chegou a minha ignorância passada, hoje por graça superior já morta, a primeira vez que o nome de Fernando Pessoa ecoou nestes ouvidos que são meu pertence, foi quando, passeando alegremente no Chiado, onde, aliás, nunca na vida passeei descontente, avistei, em ferro semelhante ao da cadeira e mesa onde se senta, a estátua graciosa do poeta, defronte do portal majestoso do mais belo e significativo café de Lisboa. Soube à data que se tratava de um importante poeta, e um tremendo número de anos passariam até eu saber que palavras escreveu ele no seu nome e noutros. E como me parece agora, e de novo, necessário justificar o desvio que repeti na nossa narração, escrevo e registo que o realizei para que muitos entendam que, apesar da minha grande ignorância passada, esse mesmo desconhecimento sustentava-se em causas um pouco aceitáveis: Fernando Pessoa é o poeta do Chiado. Entrou isto na minha mente, e hoje, que conheço a sua vida e os seus momentos, não se sumiu essa ideia de dentro de mim, antes a fez consolidar-se e passei a olhá-la com olhos de conhecedor.

Fernando Pessoa, muito antes de sonhar que lhe fariam uma estátua naquele lugar e mesmo antes de sequer pensar em qualquer assunto, nasceu no Chiado, no prédio que se ergue tanto hoje como na altura diante do Teatro de São Carlos, em frente ao qual, aproveito para dizer, foi erigida há um ano uma segunda estátua representativa de Pessoa, interessantíssima, como comemoração dos cento e vinte anos sobre o seu nascimento naquele local, que sempre foi associado a fenómenos culturais. No entanto, este acontecimento essencial na nossa cultura, bem mais influente do que qualquer espectáculo de ópera ali adiante, não se sucedeu à vista de todos. Naturalmente. À ópera só vai quem tem posses; ao nascimento de Fernando Pessoa só vai quem o teve por nove meses no ventre. O poeta conheceu a luz do dia a 13 de Junho de 1888 - um fabuloso ano para a literatura portuguesa, visto que além deste parto foi também publicado o romance Os Maias, de Eça de Queirós. O baptismo de Fernando Pessoa, seria também no Chiado, um mês mais tarde, na Igreja dos Mártires.

A família de Fernando Pessoa, que vivia no mesmo apartamento distinto junto à ópera, não era numerosa como se habituava ver em Lisboa. Viviam na casa os seus pais, irmãos (que só nasceriam depois), a avó e duas criadas idosas. O seu pai conciliava dois empregos: era funcionário público e esboçava críticas musicais para o Diário de Notícias, e deste espírito trabalhador, tal como do reduzido número de membros da família, se pressupõe a vida desafogada que permitia à sua família. Porém, por estupendo infortúnio, seu pai faleceu de tuberculose quando Fernando Pessoa tinha somente cinco anos. Iniciara-se a série de catástrofes, desgostos e transformações que lhe perturbariam o crescimento e amadurecimento psicológico. Sua mãe, por sorte, tornou a encantar-se por um homem ilustre da capital, que servia como cônsul português na África do Sul, para onde se mudariam pouco depois. No entanto, ainda por ocasião da morte do pai de Pessoa, o nosso poeta escreveu o seu primeiro poema e dedicou-o à mãe; tinha, então, como referido atrás, cinco anos.

Por ordem das obrigações que nos colocam a idade, Fernando Pessoa iniciou os seus estudos em terras da África do Sul, na cidade de Durban. A sua educação foi feita parte dela em português e outra parte na língua inglesa. O seu conhecimento profundo do idioma hoje tido como universal permitiu-lhe, ao longo da vida, escrever, expressar-se em inglês, assim como fazer traduções - foi esse o emprego de toda a sua duração neste mundo: tradutor de correspondência comercial. É então sugerido, penso eu, que Fernando Pessoa regressou da África do Sul para trabalhar em Lisboa, da qual sentia falta em terras distantes e a qual sentia curiosidade de olhar com os olhos que já não se recordavam daqueles lugares. De retorno à capital portuguesa, com toda a sua formação a torná-lo um homem invulgarmente intelectual, começou a interessar-se por alguns escritores importantes do panorama literário da História de Portugal, como Cesário Verde e Padre António Vieira.

No entanto, características psicológicas do poeta aproveitariam que este se tornasse mais débil a cada ano, e procurasse refúgio em prazeres menos aceitáveis, como o vício do absinto, que lhe traria, por fim, a doença que o mataria. Aos 47 anos, já internado no Hospital de São Luís dos Franceses havia uns tempos, morria de cirrose hepática. Diz-se que, ao ver a morte aproximar-se, pediu a uma enfermeira que lhe trouxesse para perto os óculos. Debruçou-se sobre páginas brancas e escreveu algumas palavras, para não acordar no dia seguinte: evocou os seus heterónimos e terminou a obra literária com a misteriosa frase "Eu não sei o que o amanhã trará", escrita na língua inglesa. Tinha morrido, em Lisboa, aquele que o influente crítico literário americano Harold Bloom considerou o melhor poeta do século XX, a par com o chileno Pablo Neruda. Fernando Pessoa, para nós portugueses, significa mais: o introdutor do modernismo em Portugal, o génio universal da heteronímia, a grande personalidade das letras portuguesas no século XX e o intérprete e denunciante português das mais rebuscadas sensações e emoções. Um génio... Um artista... Um orgulho... Ele foi tudo isso e tudo o mais que a boa vontade emprestar.

segunda-feira, janeiro 19

Literatura: Oxalá sejamos ignorantes!

Apesar de pouco declarado no artigo da semana que passou, por razões de ordem psicológica, visto que o nosso interior tende a largar-se pelo esquecimento como forma de desentorpecer, hoje guardo novidades que vos darei a conhecer, e hoje aliás mais cedo do que o costume - são agora dez horas da manhã. Esta escrita que desenvolvo todas as semanas vem hoje a coincidir com qualquer actividade suficientemente delicada que me faria abrir os olhos e não tornar a recair no sono.

Durante a semana que passou, encaminhei-me à biblioteca mais próxima de onde estou, aquela que já me parece conhecer quando me sente os passos indo ao seu encontro, e procurei literatura do autor que abordei na passada semana: Mário de Sá-Carneiro. Recordemos parcelas da sua biografia. Sá-Carneiro fundou a revista literária Orfeu, em parceria com os seus amigos, incluindo Fernando Pessoa, e nos poucos anos que tardou a sua vida desenvolveu uma obra escrita de extrema importância no contexto do início do século XX, na medida em que contrastou com as tendências em voga no virar do século. Os seus sentimentos que brotavam como nenhuns outros haveriam de matá-lo, por incapacidade deste de viver com eles e acordar com eles em cada dia. Entenda-se então que seria de fraca consideração se dedicássemos a este escritor um único artigo: valia ao menos dois artigos, mesmo que todos os que pudesse escrever neste blog, ao longo de todo o ano, fossem três ou quatro. Deste modo, e reavendo na memória o dito acerca de a sua obra se centrar na produção contista, trouxe das estantes da biblioteca um exemplar de contos de Mário de Sá-Carneiro, para que eu fosse capaz de hoje, segunda-feira, vir falar-vos do seu conteúdo.

Atá ao dia, nunca eu tinha lido verdadeiramente este autor, e a surpresa atendeu ao que eu não esperava encontrar: um escritor de extrema simplicidade mas de grande técnica expositiva, que, com a sua narrativa, capta as vontades dos leitores. O conto era bastante curto, chamava-se Sexto Sentido e tratava exactamente o que diz o seu título. Aproveita a ocorrência de haver escrito como título esta expressão para, no início do conto, explicitar o seu conceito, pela boca de uma autoridade da altura, o Doutor Gouveia, muito conhecido de Mário de Sá-Carneiro. Afirma então que o sexto sentido há-de desenvolver-se no corpo humano segundo a evolução da espécie, como um órgão que tende sempre a aperfeiçoar-se. Consistirá numa noção de tudo o que nos rodeia, por assim dizer: sentiremos então o que os outros sentem somente por os olharmos, e logo nos virão as emoções dessas pessoas como sentimos as nossas próprias. O sexto sentido também permitirá reconhecer o que de próximo acontecerá no tempo, como previsão do futuro chegado. Compreende-se pela noção que não reproduzi do livro que o sexto sentido é uma espécie de detector que nos concederá a sabedoria quase completa do mundo em que vivemos; deixaremos de ser o que somos para sermos, assim como todos, o colectivo.

Nesta teoria (não sei até que ponto fundada em estudos verídicos), o autor apresenta ao leitor um outro amigo seu, cujos pais chamaram de Patrício Cruz, também este contista, que, tempos depois, confia uma informação só a Mário de Sá-Carneiro: o sexto sentido, que se desenvolve na espécie humana, existe nele já em estado próximo da perfeição. Não sabemos, como não o soube Sá-Carneiro, se acreditar na veracidade do que nos conta Patrícia Cruz. No entanto, realidades factuais obrigam-nos a atentar mais ao improvável: Mário de Sá-Carneiro, sozinho em casa e sem telefones (como nos diz a lógica temporal), preparava-se para escrever uma carta ao seu amigo, quando este invade a sua morada e o olha nos olhos, dizendo que não precisará de lhe escrever aquela carta, pois está agora defronte dele. E mais, que após a terrível revelação da sua posse do sexto sentido (aterradora a quem não a esperava), Patrício Cruz grita que sua mãe se encontra a padecer e deixa a casa do nosso escritor. Estes sucessos, que mais parecem ficção científica contemporânea, não me garantem a total e absoluta realidade dos factos, muito por nunca eu haver ouvido falar de Patrício Cruz e não saber se ele, de facto, existiu, ou se antes pertencia ao mundo aparte que Mário de Sá-Carneiro construía com base nos seus sofrimentos do mundo real. Porém, termina o conto a referir o estado em que persiste Patrício Cruz, enlouquecido e que, por repetidas vezes, tentou o suicídio, alegando que é terrível saber de tudo, sentir tudo em simultâneo, que se perde a identidade pessoal e o amor às pequenas coisas - tudo se torna desproporcionado, e o pequeno que somos com dificuldade abarca e tudo que sabemos e sentimos. Fechemos os olhos e entremos nesta fantasia... percebemos mal, por tentar perceber, mas percebemos o suficiente para dar razão a quem o sentiu e disse horrores disso. Concluímos todos, do curto conto que Mário de Sá-Carneiro escreveu, que preferível é, inquestionavelmente, permanecer na ignorância do que saber tudo o que há. O escritor mostra, desta forma e através da boca de outrem, que não apoia a ciência nem as suas ambições de sexto sentido, isto é, de prever o futuro a curto prazo e de compreender tudo o que nos rodeia. Todos sabemos já, por anteriores palavras que escrevi, que a mente de Sá-Carneiro estava já cheia, como já estando demasiado farta ao nascer e assim continuasse até ao seu suicídio.

Na semana que se há-de aproximar trarei o início da minha abordagem a Fernando Pessoa, o grande poeta do século XX e uma personalidade reconhecida da História da literatura universal. Não sei ao certo como cumprir o dever de o tratar, mas disponho de uma semana para o descobrir e o concretizar em palavras, em sílabas, em letras.

segunda-feira, janeiro 12

Literatura: A dor e o drama de quem cedo nos deixou

"Sou todo incoerências. Vivo desolado, abatido, parado de energia, e admiro a vida, entanto como nunca ninguém a admirou!" Disse, ou por outra, escreveu isto Mário de Sá-Carneiro, e mais acertadas não podiam ser as suas palavras, não somente pela lógica verdade de ser habitual conhecermo-nos a nós próprios com mais rigor do que os outros que nos olham, mas muito também porque este drama da psicologia deste autor verificou-se naquilo que ele fez da sua curta vida, e mais ainda se verificou na forma como ele mesmo, aos vinte e seis anos, lhe marcou o trágico final.

A tragédia da sua vida não difere longamente da de muitas outras pessoas, marcada com dureza por males sucessivos e mais ou menos contínuos que nos atormentam e levam ao fundo de um mar de angústias. Todavia, as tormentas deste homem recaíram sobre si quando apenas, também sobre si, recaíam somente poucos anos de idade. Isto uma vez que se viu desprovido da presença de ambos os pais muito precocemente, tendo vindo a habitar Camarate com os avós, vivendo assim toda a sua infância sem uma devida imagem paterna ou materna, tão essenciais ao desenvolvimento de uma mente adulta e sensata. Podemos ter este episódio como o primeiro do drama da sua curta existência. Em concordância exacta com o decorrer dos tempos e anos, é facto que à medida que decrescia a capacidade de enfrentar os problemas que se avizinhavam, em oposição crescia em Sá-Carneiro um génio, pois que é mais que talento, sempre e sempre mais demarcado. Aos dezasseis anos de percurso no mundo, e mais de metade desse percurso, sem que qualquer espécie de gente pudesse imaginar, estava já atravessado, fazia já traduções de mestres da literatura europeia da centúria anterior, nomeadamente vultos como o alemão Goethe e o francês Victor Hugo.

As várias vidas que tem o ser humano, e quero dizer a vida física, psicológica e social, todas sem excepção assinalaram um caminho semelhante: o caminho do desgaste e da queda gradual. Como com facilidade concordaremos, não há no homem idade mais propícia aos desentendimentos do passado com o presente do que a época da adolescência, e figura ser natural, por demais natural, que todas as suas angústias, se eram já tão elevadas, atingissem um nível ainda superior e que anunciasse um fim possivelmente próximo. E assim ocorreu. Na verdade, nunca sabia concretamente o que queria, ou se nada queria fazer por si. Se Coimbra era a cidade universitária única que o país oferecia aos jovens, para lá se haveria de encaminhar, mais tarde ou mais cedo, um cérebro como o que estamos a tratar. Matriculou-se em Direito e lá conheceu o seu eterno amigo Fernando Pessoa, com quem viria a fundar a revista modernista Orfeu. Direi eu que foi dos conhecimentos culturais mais frutíferos da história da literatura portuguesa, acima, por exemplo, da grande amizade e companheirismo entre Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão, que juntos produziram duas obras de extrema qualidade. Fernando Pessoa dedicou poemas ao seu amigo Mário de Sá-Carneiro, nomeadamente o poema Opiário, da autoria do heterónimo Álvaro de Campos. De pouco mais rendeu a curtíssima estadia do nosso protagonista de hoje na cidade do Mondego, e isto declaro pela súbita decisão de abandonar o seu curso; aparentemente a vida coimbrã não lhe agradava e sonhava com ambientes de um cariz boémio distinto, mais maduro, como o que só encontrou em Paris, onde veio a viver só não a tempo inteiro, se a Lisboa se deslocava por inúmeras vezes, especialmente para se encontrar com os seus amigos modernistas - a geração do Orfeu.

Foi então no seu lar, se isto podemos chamar à capital francesa, que foi composta a quase totalidade da obra literária de Mário de Sá-Carneiro, que varia essencialmente entre poemas e contos. Aproveito a ideia lançada para informar do próximo artigo que verão aqui elaborado, em que farei o resumo e a avaliação de um conto deste autor, que me comprometo a ler durante a semana que se inicia a partir deste instante.

A morte conheceu Sá-Carneiro, por iniciativa do próprio, no ano de 1916. Nos últimos dois anos de vida, ficaram registadas, nas cartas remetidas a Fernando Pessoa, as dores e os sofrimentos desta personagem incontornável da vida literária imensamente rica de que Portugal dispõe. Se muitos autores encontram no avançar da idade a real oportunidade de produzir as suas obras-primas, caso dissimilar teve, por obrigação da sua última decisão, Mário de Sá-Carneiro, sem que, no entanto, essas obras de inegável qualidade tenham deixado de surgir com a sua assinatura. Por ordem natural, a obra de Sá-Carneiro foi reconhecida especialmente após a sua morte, como o autor por várias vezes proferiu na sua vida que aconteceria.
A sua obra, falemos um pouco acerca dela, foi influenciada, quanto aos temas e a uma certa linguagem, por autores diversos como Edgar Allan Poe, Oscar Wilde, Baudelaire, Dostoévski e Cesário Verde. A título póstumo, o legado de Mário de Sá-Carneiro inspirou, entre outros, muito evidentemente o poeta português Eugénio de Andrade. Em relação às características dos seus textos, eu escolho, por sugestão de outros entendidos que escreveram nos sítios onde pesquisei, como as mais importantes entre outras, o narcisismo e o saudosismo. Este cariz egocentrista do discurso são causa e efeito dos seus dramas vividos. Assim sucedendo, os pequenos movimentos do modernismo literário em que Mário de Sá-Carneiro se inseriu, como o interseccionismo, o decadentismo, o paulismo e o futurismo, permitiram ao escritor expressar toda a sua dor de viver e de existir, vendo sempre a morte como a solução única e nem por isso difícil de alcançar, para a ela chegar bastaria a vontade de andar o caminho que o separava dela. Acabou a sua vida, mas a nós deixou a exaltação de cada uma das suas emoções, como havendo sido um enviado do além à Terra para ser em grande aquilo que todos nós somos em ponto diminuto, sentindo demais aquilo que a alguns foge aos sentidos. Pareci religioso ou fanático? Perdoem então, e vivam a vida.

segunda-feira, janeiro 5

Literatura: Um conspirador inspirado

Dentro de cada homem, alto ou baixo ou moreno ou loiro, nada interessam meros detalhes de aparência física mais ou menos notória, residem princípios específicos e demarcados. Arriscaria eu a dizer, ou até a proferir, se a qualidade me pode ser concedida com justa causa, que a grandeza do homem, qualquer ele, desenha-se mais com os contornos que lhe dão a convicção nos seus princípios do que com a importância ética dos tais. Não generalizo, e neste caso que se apresenta o passado e presente movem consigo questões menos óbvias, que se deparam com pensamentos políticos, que divergem de quem para quem.

Eu venho falar-vos de Aquilino Ribeiro, membro da organização intitulada por Carbonária, que conspirou contra a monarquia portuguesa e originou o assassinato de um rei dos mais inteligentes que houve entre nós, motivada pela razão isolada de ser rei e isso significar sucessor de outros tantos que tais e defender a monarquia por ser o seu topo hierárquico. Opiniões aparte, ou ainda parecerei um monárquico convicto, eu, que olho tudo e nada com toda a desconfiança que encontro, Aquilino Gomes Ribeiro foi dos autores portugueses mais bem sucedidos e de maior qualidade do século XX. Nasceu no século XIX, quando decorria o ano de 1885, mas pela natureza jovem de quem nasce, apenas lhe chegou a maturidade e a carreira quando obteve uma maior idade do que a de nascença, iniciando a sua carreira literária no início do século XX (e portanto incluo-o no leque de escritores que importam recordar segundo o nosso projecto). Enquanto muitos escritores nascem no meio mais propício à criação textual, ou seja, na capital de Portugal ou em Coimbra, sempre capital das letras e da cultura, este homem viu a luz da vida na província, junto a Sernancelhe. Todos temos o conhecimento, alguns de causa, que se acha Portugal entre os países católicos, e na época a que remonta Aquilino Ribeiro, essa característica era essencial no perfil do nosso país. Mais do que nas cidades, a província era um local de religiosidade muito elevada, onde o governador das aldeias, por assim dizer, era ainda o seu pároco, pai de todos (apenas espiritual, pois senão cuidado com o pecado). Estas origens justificam a vontade da família, e a início do próprio futuro escritor, em tornar Aquilino Ribeiro um padre. Frequentou seminários em diversos lugares, como Lamego, Viseu e Beja, mas por fim desistiu, aparentemente por ausência de vocação. Perdoem-me, mas talvez Deus não quisesse como seu servidor um homem que conspiraria contra el-rei: lembrem-se que é o rei o escolhido do superior Deus para governar o seu país.

Uma vez longe dos projectos religiosos que tentou cumprir, Aquilino dirigiu-se a Lisboa, a fim de procurar sustento para a sua vida. Na cidade relacionou-se com todas as opiniões políticas que borbulhavam na altura, em particular a agitação republicana que conspirava pela queda da monarquia. Aquilino Ribeiro envolveu-se na ideologia republicana e converteu-se num membro activo da Carbonária. Como defensor dos objectivos republicanos, estreou-se na escrita, em jornais polémicos e interventivos para os quais escrevia artigos de propaganda. Pelas suas convicções, foi forçado a abandonar o país para sua própria segurança, refugiando-se em Paris, largamente republicana havia imenso tempo. Em 1914, porém, motivado pelo deflagrar da primeira Guerra Mundial, moveu-se de regresso a Lisboa. Foi, com efeito, após esta data que escreveu as suas principais obras, que, por tantas influências distintas que captou, não se consegue ainda hoje inseri-las em qualquer movimento artístico. Aquilino Ribeiro era, no início do século XX, um escritor do modo que o são hoje em dia e depois da revolução de Abril: escrevia conforme queria, mais para si e para o seu público do que segunda as tendências dos seus colegas. Muitos são os que defendem que a sua obra romanesca sofreu das influências do mestre romântico Camilo Castelo Branco, outros que o seu discurso remete as memórias aos descritos por Eça de Queirós. O que é certo para todos os críticos e entendidos na matéria é que Aquilino Ribeiro demonstrou na sua escrita as suas origens provincianas, através do vocabulário e expressões utilizadas brilhantemente. Esta tornou-se uma das suas mais abordadas características, mantidas em pleno e com igual qualidade em cada uma das suas obras, apesar de todas diferentes entre si.

Aproveito o ponto em que me deixei no texto para guiar o prezado leitor às citações que deixarei nesta parte do artigo. Por interesse próprio, levei-me por meu pé à biblioteca da minha área de residência, que é a que todos sabem, e trouxe ao meu doce lar um leve, e falo verdade que é leve, exemplar da obra de Aquilino Ribeiro que o mesmo intitulou de Quando os Lobos Uivam. Dessa obra extraí expressões que esclareçam o leitor do que acabei de afirmar relativamente à sua linguagem.
  • "Mas homem com mocotó."
  • "Atropelava-se a gente no patim"
  • "Bem sabia ele que não há, para ganhar a simpatia do serrano e fazer-lhe entreabrir a beiceira no franco sorriso fraterno ou exalçá-lo à simpatia e admiração, como uma saúde à boca das pipas."
  • "E, a esconder a vergonha, abraçava-o tão abraçado, que toda a sua cabeça se lhe amassagou contra o peito mamaçudo"
  • "Tudo na mesma, a velha aldraba, puída de tanto se lhe pegar, o espelho da fechadura escantilhado a uma banda, a couceira de lenho fibroso e terso, não chamassem ao castanho os ossos de Portugal."
  • "(...) as pernas escanchadas."
  • "Temia-se do génio dele e lá se pôs a esfregar fósforos, um atrás do outro, na caixa que tinha a lixa esfarpada até que conseguiu acender a luz."

Para terminar a curta, penso, abordagem de Aquilino Ribeiro com que pretendo agraciar-vos o bastante, permitam-me nova citação, desta vez de Vitorino Nemésio, um poeta e romancista açoriano nascido em 1901, que apreciava largamente o legado literário de Aquilino.

"A força plástica e musical do mundo aquiliniano é admirável. A serra portuguesa, a aldeia patriarcal, o rebanho transumante, vivem nos seus livros como a vida flamenga e holandesa nos quadros dos grandes pintores dos Países Baixos."

Como referi há instantes, é um assunto complicado procurar inserir a obra de Aquilino Ribeiro num movimento artístico da época, nomeadamente no modernismo, que vigorou na época em que este autor se revelou. Relembro aos que me seguem que presentemente estou a apresentar modos de escrita e escritores que resistiram ao modernismo em altura em que a arte moderna foi vigente: abordei Júlio Dantas, opositor activo do modernismo, e agora Aquilino Ribeiro, um escritor brando a nível de rivalidades literárias, mas acérrimo defensor da revolta política. Na próxima semana, com efeito, o modernismo inundará este espaço e nele recairá a minha preocupação estética. Iniciarei por uma outra biografia, e ouso rogar perdão por teimar tanto em biografias neste espaço onde devia facultar mais ocasiões para uma maior diversidade de assuntos. Porém, creio que uma biografia é a forma indicada de iniciar o público ao escritor do qual vou falar com tamanha naturalidade, como se ele na escola se sentasse à minha beira e eu, com ele na dianteira, brincasse aos jogos que divertem as crianças. Bem, falo de Mário de Sá-Carneiro, fundador da já referida revista Orfeu, sobre quem escreverei daqui a sete curtos dias.

segunda-feira, dezembro 29

Literatura: Seria Dantas um cigano?

Este senhor, que significa mais aos homens de hoje como o terrível humilhado quando do manifesto do modernismo por Almada Negreiros, escolheu a medicina como o seu talento merecedor de estudos superiores. Estudou esta ciência nas escolas de Lisboa que se dedicavam à sua investigação, até ao ano 1900. "Saberá de medicina", como escreveu José de Almada Negreiros.

Porém, Júlio Dantas foi mais do que alguns o querem hoje classificar após o manifesto dos modernistas. Tanto como médico como na área das letras, deixou o seu percurso delineado. Exerceu medicina ao serviço do exército português e essa dedicação laureou-lhe um cargo de embaixador no Brasil no início do século XX. Como escritor, no entanto, deixou uma marca mais profunda que nada teve que ver com inovação: a sua escrita não sugeriu mais ao seu público do que uma continuação do género e dos valores transmitidos pelos registos textuais da época e do final do século XIX. Por muitos especialistas de arte, Dantas é tido como um escritor naturalista, à semelhança de Eça de Queirós. Além dos vastos trabalhos na poesia, prosa e drama, a sua influência na literatura abrange os domínios da propriedade de diversas tipografias lisboetas e a participação na elaboração do acordo ortográfico com o Brasil.

Nasceu em Lagos, no Algarve, morreu em Lisboa e viveu ao longo de 84 anos, registando uma das mais duradouras existências do nosso panorama literário. Não consistiu, no entanto, no escritor mais frutífero das últimas décadas nem mesmo do último século. A sua obra mais importante refere-se ao teatro, exaltando o heroísmo e o amor elegante, e na escrita de novelas. Importa referir, por os tempos actuais haverem perturbado o seu significado inicial, que uma novela, literariamente, é um texto mais extenso do que um conto mas mais curto do que um romance.

Dantas foi dos poucos escritores, entre os que ficaram na História, que obteve maior sucesso e reconhecimento em vida do que após a sua morte. Num sentido que lhe deu o passar veloz do tempo, Júlio Dantas é hoje pouco mais do que o símbolo das resistências culturais que o modernismo conheceu na altura do seu surgimento. Este tipo de resistências prende-se com o registo linguístico, hoje chamado por muitos de "ultrapassado", mas que para mim permanece inalteravelmente belo e contribui para a riqueza literária de que Portugal se pode orgulhar. Segue-se aqui, para demonstração breve, umas frases de Júlio Dantas que retirei de um conto denominado "O amor - mulheres que Camões amou":

Eu julgo que, em muitos casos, pode reconstituir-se a psicologia dum homem pelo simples conhecimento das mulheres que ele amou. O amor por ma mulher representa sempre uma preferência, uma tendência, uma afinidade electiva, um contacto moral. Nas mulheres amadas há muito do homem que as ama. Elas são como que espelhos espirituais onde esse homem se retrata. Reflectem as predilecções do seu carácter, da sua inteligência, da sua educação, da sua sensibilidade.