sexta-feira, outubro 31

Artes Popular: Zé Povinho de Rafael Bordalo Pinheiro.

Data de 1875 a iniciativa de maior alcance para Rafael Bordalo Pinheiro, com a criação do primeiro jornal dedicado à crítica social: “A Lanterna Mágica”. São companheiros de Bordalo neste empreendimento Guilherme de Azevedo (1840-1882) e Guerra Junqueiro (1850-1923), um projecto que faz a crónica dos factos sociais, enquanto tece a crítica às políticas e às instituições. Neste contexto, nasce a figura do Zé Povinho, tão acertada no seu conteúdo, que permanece no imaginário português com uma reforçada carga simbólica.
Definia-se o vasto campo da actuação de Bordalo, não só de expressão artística e de vivacidade de espírito crítico, mas de intervenção cívica e patriótica.

Depois da morte do jornalista, os seus discípulos deram continuidade ao Zé Povinho de várias formas e estilos. Bordalo Pinheiro ficou inscrito na história da imprensa como um símbolo do jornalismo apaixonado, como alguém que está sempre do lado dos que não têm voz nem poder.
De calças remendadas e botas rotas, Zé Povinho, é a eterna vítima dos partidos regenerador e progressista, dando a vitória a uns ou outros em época eleitoral.

quarta-feira, outubro 29

Pintura: Expressão no feminino - Vieira da Silva

"Um quadro deve ter coração, sistema nervoso, ossos, circulação. Deve assemelhar-se a uma pessoa em movimento. E preciso que aquele que olha se encontre perante um ser que lhe fará companhia, lhe contará histórias, lhe dará certezas. Porque o quadro não é evasão, deve ser um amigo que nos fala, que descobre as riquezas que se escondem em nós e à nos­sa volta."
Maria Helena Vieira da Silva, pintora portuguesa nascida a 13 de Junho de 1908, foi a autora desta frase.

Vieira da Silva demonstrou interesse pelas artes desde muito nova, nomeadamente pela música e literatura. Aos onze anos começou a estudar Desenho e Pintura na Academia de Belas-Artes em Lisboa.

Aos 18 anos, incentivada pela família, retirou-se para Paris e inscreveu-se nas academias Scandinave e La Grande Chaumière, trabalhando com Duffrene, Waroquier e Fernand Léger.

Em 1930 casou com um pintor húngaro que conheceu em Paris, Arpad Szenes. Na segunda guerra mundial regressou com o seu marido a Portugal, porém devido à política salazarista foram obrigados a refugiar-se no Brasil. O casal voltou a Paris, e ambos se nacionalizaram-se franceses em 1956.

Vieira da Silva, para além da sua obra em termos de pintura, também se aventurou em outras técnicas como o azulejo e também no mundo da ilustração de livros para crianças, tome-se como exemplo os livros “Kô et Kô” e “les deux esquimaux”.

A sua vida artística continuou ao longo de várias décadas, tendo em 1960 recebido uma condecoração do governo francês, em 1966 foi a primeira mulher a receber o Grand Prix National des Arts e em 1979 tornou-se cavaleira da legião de honra francesa. Porém em Portugal o seu talento e mérito só foram reconhecidos após o 25 de Abril e em 1988 com a atribuição da Grã Cruz de Santiago e Espada e da Grã Cruz da Ordem da Liberdade, respectivamente.
Com uma vida preenchida de arte, morre em 1992, aproximadamente 10 anos após a morte do seu marido, e é criado em homenagem do casal, a Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva em Lisboa.

segunda-feira, outubro 27

Literatura: O contributo de Alves Redol

O escritor Alves Redol nasceu na cidade de Vila Franca de Xira em 1911, no seio de uma família humilde de posses modestas, tendo havido a constante necessidade de trabalhar para auxiliar no sustento do lar. Adoptando uma certa filosofia de esforço e dedicação desde jovem, Alves Redol viria a tornar-se a voz dos trabalhadores, das injustiças sociais, mais que por tê-las testemunhado precocemente pelas dificuldades da família. Na literatura, este contributo revelou-se pela introdução do movimento neo-realista em Portugal.

Aos dezasseis anos concluiu o Curso Comercial e logo se deslocou a Angola para exercer o seu primeiro emprego, regressando à metrópole três anos mais tarde, onde viria a trabalhar em inúmeros locais. A sua intrusão no campo das letras deu-se no ano de 1936, aquando do início da sua colaboração permanente no jornal "O Diabo", para o qual escreveria crónicas e contos.

O seu primeiro romance, introdutor do movimento neo-realista em Portugal, recebeu o nome de Gaibéus (à esquerda) - nome referente ao tratamento dado a camponeses das Beiras que se dirigiam ao Ribatejo anualmente para participar na ceifa do arroz. Este romance aborda toda a temática, centrando-se nesta, das condições de vida dos camponeses ribatejanos. Para a elaboração desta obra pioneira, Alves Redol desenvolveu muito estudo de campo, incluindo certos períodos em que habitou com comunidades de trabalhadores para, com maior habilidade e certeza, mostrar interesse pelas actividades destes e poder retratá-las com exactidão. A propósito da publicação desta obra, confirma-se ter Alves Redol proferido: "este romance não pretende ficar na literatura como obra de arte. Quer ser, antes de tudo, um documentário humano fixado no Ribatejo. Depois disso, será o que os outros entenderem". E esta expressão sintetiza, mais do que uma vontade particular, todo o fim da corrente neo-realista: denunciar o estilo de vida miserável das camadas mais baixas e criticar de forma ousada os comportamentos das elites. Numa análise posterior e de maior profundidade, conclui-se que Alves Redol estava certo: a importância que o seu romance e a sua obra recolheram foi puramente a intervenção social na altura da sua publicação. Afirmo isto porque Alves Redol, e um leque muito maior de escritores desta época, têm vindo a ser prolongadamente esquecidos pelo público, comprometendo o seu carácter de aviso e denúncia social. Na actualidade, encontram-se poucas obras neo-realistas, tendo-se perdido o hábito da literatura de intervenção, que outrora movia multidões e irradiava ideais - daí que eu venha, nas próximas entradas deste espaço, promover o retorno do interesse a estas formas de expressão de meados do século XX. Pela constante crítica e denúncia das realidades vividas pela população portuguesa (em baixo), o escritor chegou a ser preso por razões políticas e seguidamente torturado.

O seu falecimento ocorreu em 1969, na capital, antes desta vivenciar o 25 de Abril que se reflectiria nos seus ideais. No entanto, importa referir o pioneirismo da obra de Alves Redol numa diferente faceta. O seu último romance e obra-prima, Barranco de Cegos, introduziu um carácter existencialista, colocando a preocupação social para um segundo plano, servindo de base para muitos escritores posteriores. Pode dizer-se, sem margem para questões, que Alves Redol foi o marco de uma corrente, havendo contribuído para o seu progresso e acompanhado a sua evolução até ao fim, a tempo de dar os primeiros passos numa nova corrente, a do existencialismo, onde o psiquismo assume a preponderância, remetendo a realidade visível e social para um plano secundário.

O contributo de Alves Redol foi este. Terá sido importante? Terá o tempo cancelado os seus efeitos duradouros? Cabe a resposta ao individualismo da nossa raça.

domingo, outubro 26

Música: Jazz e Blues...em Portugal?


O início do século, no que toca ao patamar musical, foi dominado pelo jazz, pelos blues nascidos nos espirituais negros. Mas esta é a situação americana e de outros países do mundo. Em Portugal nada disto foi verdade. Em Portugal , o protagonista foi o fado, não os blues, embora alguns defendam a tese de que entre o fado castiço e o jazz, e o fado em si e os blues tenham semelhanças rítmicas e sentimentais.

Tal facto pode ser entendido de um modo negativo, visto que o estilo representativo da época não se enquadrou nos padrões musicais lusitanos. O jazz e os blues, na sua época de ouro, apenas tiveram alguns efémeros representantes em Portugal, como a figura de Teresa Paulo (terá alguém ouvido falar dela?), figura essa inexistente até na mais completa fonoteca portuguesa, ou a organização Jazz Hot Clube (á esquerda), na altura restritíssima e apenas acessível a elites, sendo que apenas se abriu a um público mais alargado nos últimos anos. O saldo de blues em Portugal no início de século é quase nulo (excepto se formos um dos que considera o fado "o blues nacional"!).
Porém, a utilização da guitarra portuguesa como principal instrumento em Portugal, em vez do saxofone, deve ser entendida como positiva. Como base para tal afirmação, invoco a originalidade portuguesa e autonomia musical, a elevada qualidade do fado da primeira metade do século, e o manter das tradições e do produto nacional. Não que o fado seja um movimento anti-jazz. Não, de todo! Não esqueçamos as já mencionadas semelhanças! O ponto da questão é que o fado surge como um desviar das "modas" da altura.
De qualquer maneira, deixo-vos aqui um episódio de incursões aos blues em vozes portuguesas. O vídeo conta com a interpretação de Amália do clássico do soul "Summertime", originalmente composto nos anos 20, e mais tarde popularizado por ícones dos blues como Ella Fitzgerald e Louis Armstrong. Note-se a junção do sentimento lusitano, ao ritmo negro americano. Dentro de poucas semanas colocarei uma mostra do que é o jazz em Portugal em português de Portugal.
Tivemos, no entanto, de esperar pelo fim do século(!!!) para, finalmente, ouvir jazz em português, na voz de artistas como Rui Veloso, Maria João e Mário Laginha , e Jacinta. Claro que este cantar de blues não é uma cópia dos clássicos de início de século, sendo que o espírito português faz a diferença na adaptação do estilo americano á língua de Camões. Mas isso já é outra história, de outro artigo...


sábado, outubro 25

Cinema: A Produtora Invicta Film


O Início de Uma Produtora

Alfredo Nunes de Matos cria a sua modesta empresa de produções cinematográficas em 1910, mas é em 1912 que o produtor Nunes de Matos cria a “Nunes de Matos & Cia – Invicta Film”, na cidade do Porto.
Produziu documentários da actualidade, alguns com grande adesão pela sociedade da altura. Muitos deles foram exibidos em Portugal mas também no estrangeiro. São exemplo do sucesso da Invicta Film no estrangeiro Manobras Navais Portuguesas ou Grandes Manobras de Tancos, 1912, e também O Naufrágio do Veronese, documentando o desastre ocorrido em Leça da Palmeira, em 1913.
Conhecendo o sucesso conquistado pela Invicta Film, José Augusto Dias, sendo banqueiro, decide juntar-se a Nunes de Matos, apoiando-o financeiramente sempre que necessário.
Em Março de 1916, após a Alemanha declarar guerra a Portugal, a situação mostra-se desfavorável à produção cinematográfica. Contudo, Nunes de Matos não se deixa desanimar e decide então documentar assuntos exclusivamente portugueses.
Após, em 1917, ter sido assinada a escritura de uma sociedade de quotas, a Invicta Film adquire várias máquinas mais avançadas. Tentaram introduzir um novo processo cinematográfico, baseando na reflexão das imagens isoladamente tentando alcançar o relevo, a terceira dimensão.

O Contributo do Produtor Pallu
Georges Pallu é contratado pela Invicta Film em 1918. Foi Pallu o responsável pela produção da adaptação de Frei Bonifácio, de Júlio Dantas. Teve a sua estreia em 4 de Outubro de 1918, no prestigiado cinema Olympia, na cidade do Porto. Também realizados por Pallu, seguiram-se os filmes A Rosa do Adro, em 1919 também no cinema Olympia, e O Comissário de Polícia, no mesmo cinema, mas em 1920.

Investimentos Produtivos
Em 1919 a Invicta Film cria um acordo com o jornal Diário de Noticias. Este acordo baseia-se na publicação de folhetins e novelas pelo jornal que mais tarde seriam realizados pela empresa de produções cinematográficas. Deste acordo estabelecido entra as duas entidades, apenas resultaram um melodrama Amor Fatal e a tragicomédia Barba Negra.
Outros grandes investimentos de produtora Invicta Film foram, em 1921, a adaptação da obra Amor de Perdição de Camilo Castelo Branco seguindo-se Mulheres da Beira e Quando o Amor Fala.

Anos de Ouro
Os anos mais produtivos foram 1922 e 1924. Os filmes realizados pela Invicta Film foram O Destino e O Primo Basílio, ambos em 1922 produzidos por Georges Pallu. Em 1923 foram realizados As Tempestades da Vida, de Augusto de Lacerda, e Os Lucros Ilícitos: Gold & Cia, de Pallu. E em 1924 foram realizados Tragédias de Amor, de Maurice Laumann, e Tinoco em Bolandas, de António Pinheiro. O Desfecho da Invicta Film
Apesar dos anos de produtividade da Invicta Film, foram surgindo algumas dificuldades financeiras em 1923. Como tentativa de resolução do problema, tenta-se exportar os filmes realizados para o Brasil e para os Estados Unidos de América. Contudo, as receitas obtidas pelas vendas, não foram suficientes para evitar o despedimento de todos os trabalhadores da Invicta Film, em 1924. Apenas deixa activo o laboratório, mas que em 1928 marca o encerramento definitivo da produtora portuense, Invicta Film.
Apesar do inevitável desfecho da Invicta Film, o início da nova década marca a total mudança do cinema português, começando os anos trinta com o cinema sonoro e a utilização de novas tecnologias na produção cinematográfica. Começaram então, anos de esperança no cinema português.