domingo, novembro 2

Música: 15 factos que precisa de saber sobre a Canção de Coimbra

*Tem Origem no século XIX, sendo o expoente deste século Augusto Hilário(ao lado).

*Originalmente, o Canto de Coimbra era operístico.

*Especialmente no século XX, o modo de cantar a música da universidade passou a ser "lamechas, doentio, piegas, que dominava o ambiente musical académico" de início de século.

*O fado de Coimbra reflecte, por um lado,o saudosismo tipicamente português, a ternura dos amores de estudante, por outro o vigor da juventude, o "idealismo das atitudes", as esperanças de um amor possível.

*Na década de 1910, António Menano começa um cruzamento entre o melancólico Fado de Coimbra e o ritmo alegre das canções e fados de Lisboa.

*Edmundo Bettencourt (abaixo) também tem um papel considerável no "arejar" da Canção coimbrã, fundindo o estilo inconfundível dos académicos de Coimbra, com algumas características da música popular de outras regiões do país, tornando o fado mais rico.

*Faz parte de quase todas as manifestações de carácter estudantil, tendo como principal exemplo a Queima das Fitas.

*O fado de Coimbra ultrapassou as fronteiras da cidade, instalando-se também no Porto e em Braga.

*Exclusivamente cantado e tocado por homens.

*As calças e a batina preta, cobertas por capa de fazenda de lã preta são traje ilustrativo da canção coimbrã.

*É cantado à noite, em sítios escuros. Porém o locais mais típicos para as interpretações são o Mosteiro de Santa Cruz e a Sé Velha.

*As serenatas, interpretadas à janela das raparigas que os rapazes pretendem namorar, são outros dos tradicionalismos das tunas de Coimbra.

*"As cordas são afinadas um tom abaixo, e a técnica de execução é diferente por forma a projectar o som do instrumento nos espaços exteriores, que são o palco privilegiado deste Fado. Também a guitarra clássica se deve afinar um tom abaixo. Esta afinação pretende transmitir à música uma sonoridade mais soturna, relativamente ao Fado de Lisboa."

*Zeca Afonso e o pai de Carlos Paredes, Artur Paredes, iniciaram-se nas tunas coimbrãs.

*"Fado Hilário" é um dos clássicos de Coimbra, entre outros. Curiosamente, o tema mais conhecido sobre Coimbra não é um Fado de Coimbra, e dá pelo nome de "Coimbra é uma lição".

Abaixo uma interpretação da "Balada da Despedida do VI Ano Médico"

sábado, novembro 1

Cinema: A vida criativa do Repórter X

Nasceu em Lisboa, a 10 de Agosto de 1897, Reinaldo Ferreira, conhecido pelo seu pseudónimo Repórter X.

Começou cedo a sua carreira jornalistica e foi considerado o maior repórter português.

A sua vida foi recheada de grandes projectos, muito deles bem sucedidos, entre eles a realização de uma reportagem sobre a “Rússia dos Sovietes”, criou os detectives de gabinete na literatura policial, fundou jornais e realizou filmes.
Em 1917, Reinaldo Ferreira estremece os lisboetas com um crime ocorrido na Rua Saraiva de Carvalho. Uma história cheia de bandidos, mortes, vilões e muito mistério, tal como ainda hoje podemos ver em muitos filmes e livros policiais. O crime encenado pelo Repórter X, apresentado em cartas enviadas por um desconhecido (assinando com o nome de Gil Goes), era publicado num jornal da altura, O Século. A história tornou-se tão empolgante entre os seus leitores, que houve a necessidade que se revelar toda a ficção por detrás daquele folhetim. Mais tarde, em sequência de todo o sucesso da criação do Repórter X, José Leitão de Barros transformou as cartas de Gil Goes num filme, em 1918, tendo sido também já editadas em livro.

O seu pseudónimo Repórter X, vem de um engano de um tipógrafo. Em 1920, Reinaldo Ferreira vai para a cidade de Paris com a sua mulher Lucília. Quando o Primo Basílio sobe ao poder, Reinaldo Ferreira decide regressar a Portugal. Mas antes da sua chegada, escreve uma critica direccionada ao ditador português assinada com o seu verdadeiro nome. Contudo, um amigo faz-lhe o aviso das represálias de que poderia ser alvo, fazendo-o então assinar como Repórter. Ao chegar às mãos do tipógrafo, este não vê apenas Repórter mas também um x. Assim com o pequeno erro do tipógrafo, Reinaldo Ferreira adopta o pseudónimo de Repórter X, como ainda hoje é conhecido.

Em 1923, Reinaldo Ferreira conseguem, em parceria com um produtor espanhol, realizar o seu primeiro filme, El Botones del Ritz (O Groom do Ritz), que estreou em Lisboa no ano seguinte.
Em 1926, na cidade Lisboeta, dá-se o assassinato da corista Maria Alvez, que foi estrangulada dentro de um táxi e deixada numa sarjeta. Baseado neste crime e noutros anteriores, o famoso Repórter X entra outra vez em acção e é publicado pelo jornal Janeiro o seu folhetim Táxi nº 9297 contando a história do assassinato imaginada por ele. Depois de esta sua história criminal ser adaptada em livro, é o próprio Reinaldo Ferreira que o converte em filme, nos estúdios da já inexistente Invicta Film. Com a estreia do Táxi nº 9297 em 1927, cria também a sua própria produtora, a Repórter X – Film.

Lucília Ferreira desfaz o seu casamento com Reinaldo Ferreira, em 1928. Todavia, o Repórter X não se deixa abater durante muito tempo, juntando-se com Carmen Cal no ano seguinte.

Depois de ser despedido do jornal Janeiro e de várias tentativas de criação de outros jornais, é em 1930 que consegue editar um jornal (findo em 1933), o Repórter X, com a ajuda financeira de um dos seus irmãos, Ângelo Ferreira. Mais tarde lançou ainda outros dois jornais, A Reportagem Semanal e o X.

Após alguns meses do seu internamento, em 1932, para uma desintoxicação, o grande Repórter X decide assumir a sua dependência da morfina. Apesar de se conseguir recuperar, essa recuperação dura pouco tempo, e em 1935 separa-se de Carmen Cal e nesse mesmo ano, o corpo do Repórter X perde toda a sua imaginação deixando para sempre a criação dos crimes que deliciavam os leitores do tempo.








Ainda durante a sua curta vida escreveu inúmeras novelas e realizou na sua produtora alguns filmes, entre eles, Rita ou Rito? (1927), Hipnotismo ao Domicílio (1927), Diabo em Lisboa (1926/28), entre outros.

Hoje, maior parte das suas produções cinematográficas estão incompletas ou totalmente desaparecidas, tal como a sua presença física e a sua criatividade cativante.

sexta-feira, outubro 31

Artes Popular: Zé Povinho de Rafael Bordalo Pinheiro.

Data de 1875 a iniciativa de maior alcance para Rafael Bordalo Pinheiro, com a criação do primeiro jornal dedicado à crítica social: “A Lanterna Mágica”. São companheiros de Bordalo neste empreendimento Guilherme de Azevedo (1840-1882) e Guerra Junqueiro (1850-1923), um projecto que faz a crónica dos factos sociais, enquanto tece a crítica às políticas e às instituições. Neste contexto, nasce a figura do Zé Povinho, tão acertada no seu conteúdo, que permanece no imaginário português com uma reforçada carga simbólica.
Definia-se o vasto campo da actuação de Bordalo, não só de expressão artística e de vivacidade de espírito crítico, mas de intervenção cívica e patriótica.

Depois da morte do jornalista, os seus discípulos deram continuidade ao Zé Povinho de várias formas e estilos. Bordalo Pinheiro ficou inscrito na história da imprensa como um símbolo do jornalismo apaixonado, como alguém que está sempre do lado dos que não têm voz nem poder.
De calças remendadas e botas rotas, Zé Povinho, é a eterna vítima dos partidos regenerador e progressista, dando a vitória a uns ou outros em época eleitoral.

quarta-feira, outubro 29

Pintura: Expressão no feminino - Vieira da Silva

"Um quadro deve ter coração, sistema nervoso, ossos, circulação. Deve assemelhar-se a uma pessoa em movimento. E preciso que aquele que olha se encontre perante um ser que lhe fará companhia, lhe contará histórias, lhe dará certezas. Porque o quadro não é evasão, deve ser um amigo que nos fala, que descobre as riquezas que se escondem em nós e à nos­sa volta."
Maria Helena Vieira da Silva, pintora portuguesa nascida a 13 de Junho de 1908, foi a autora desta frase.

Vieira da Silva demonstrou interesse pelas artes desde muito nova, nomeadamente pela música e literatura. Aos onze anos começou a estudar Desenho e Pintura na Academia de Belas-Artes em Lisboa.

Aos 18 anos, incentivada pela família, retirou-se para Paris e inscreveu-se nas academias Scandinave e La Grande Chaumière, trabalhando com Duffrene, Waroquier e Fernand Léger.

Em 1930 casou com um pintor húngaro que conheceu em Paris, Arpad Szenes. Na segunda guerra mundial regressou com o seu marido a Portugal, porém devido à política salazarista foram obrigados a refugiar-se no Brasil. O casal voltou a Paris, e ambos se nacionalizaram-se franceses em 1956.

Vieira da Silva, para além da sua obra em termos de pintura, também se aventurou em outras técnicas como o azulejo e também no mundo da ilustração de livros para crianças, tome-se como exemplo os livros “Kô et Kô” e “les deux esquimaux”.

A sua vida artística continuou ao longo de várias décadas, tendo em 1960 recebido uma condecoração do governo francês, em 1966 foi a primeira mulher a receber o Grand Prix National des Arts e em 1979 tornou-se cavaleira da legião de honra francesa. Porém em Portugal o seu talento e mérito só foram reconhecidos após o 25 de Abril e em 1988 com a atribuição da Grã Cruz de Santiago e Espada e da Grã Cruz da Ordem da Liberdade, respectivamente.
Com uma vida preenchida de arte, morre em 1992, aproximadamente 10 anos após a morte do seu marido, e é criado em homenagem do casal, a Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva em Lisboa.

segunda-feira, outubro 27

Literatura: O contributo de Alves Redol

O escritor Alves Redol nasceu na cidade de Vila Franca de Xira em 1911, no seio de uma família humilde de posses modestas, tendo havido a constante necessidade de trabalhar para auxiliar no sustento do lar. Adoptando uma certa filosofia de esforço e dedicação desde jovem, Alves Redol viria a tornar-se a voz dos trabalhadores, das injustiças sociais, mais que por tê-las testemunhado precocemente pelas dificuldades da família. Na literatura, este contributo revelou-se pela introdução do movimento neo-realista em Portugal.

Aos dezasseis anos concluiu o Curso Comercial e logo se deslocou a Angola para exercer o seu primeiro emprego, regressando à metrópole três anos mais tarde, onde viria a trabalhar em inúmeros locais. A sua intrusão no campo das letras deu-se no ano de 1936, aquando do início da sua colaboração permanente no jornal "O Diabo", para o qual escreveria crónicas e contos.

O seu primeiro romance, introdutor do movimento neo-realista em Portugal, recebeu o nome de Gaibéus (à esquerda) - nome referente ao tratamento dado a camponeses das Beiras que se dirigiam ao Ribatejo anualmente para participar na ceifa do arroz. Este romance aborda toda a temática, centrando-se nesta, das condições de vida dos camponeses ribatejanos. Para a elaboração desta obra pioneira, Alves Redol desenvolveu muito estudo de campo, incluindo certos períodos em que habitou com comunidades de trabalhadores para, com maior habilidade e certeza, mostrar interesse pelas actividades destes e poder retratá-las com exactidão. A propósito da publicação desta obra, confirma-se ter Alves Redol proferido: "este romance não pretende ficar na literatura como obra de arte. Quer ser, antes de tudo, um documentário humano fixado no Ribatejo. Depois disso, será o que os outros entenderem". E esta expressão sintetiza, mais do que uma vontade particular, todo o fim da corrente neo-realista: denunciar o estilo de vida miserável das camadas mais baixas e criticar de forma ousada os comportamentos das elites. Numa análise posterior e de maior profundidade, conclui-se que Alves Redol estava certo: a importância que o seu romance e a sua obra recolheram foi puramente a intervenção social na altura da sua publicação. Afirmo isto porque Alves Redol, e um leque muito maior de escritores desta época, têm vindo a ser prolongadamente esquecidos pelo público, comprometendo o seu carácter de aviso e denúncia social. Na actualidade, encontram-se poucas obras neo-realistas, tendo-se perdido o hábito da literatura de intervenção, que outrora movia multidões e irradiava ideais - daí que eu venha, nas próximas entradas deste espaço, promover o retorno do interesse a estas formas de expressão de meados do século XX. Pela constante crítica e denúncia das realidades vividas pela população portuguesa (em baixo), o escritor chegou a ser preso por razões políticas e seguidamente torturado.

O seu falecimento ocorreu em 1969, na capital, antes desta vivenciar o 25 de Abril que se reflectiria nos seus ideais. No entanto, importa referir o pioneirismo da obra de Alves Redol numa diferente faceta. O seu último romance e obra-prima, Barranco de Cegos, introduziu um carácter existencialista, colocando a preocupação social para um segundo plano, servindo de base para muitos escritores posteriores. Pode dizer-se, sem margem para questões, que Alves Redol foi o marco de uma corrente, havendo contribuído para o seu progresso e acompanhado a sua evolução até ao fim, a tempo de dar os primeiros passos numa nova corrente, a do existencialismo, onde o psiquismo assume a preponderância, remetendo a realidade visível e social para um plano secundário.

O contributo de Alves Redol foi este. Terá sido importante? Terá o tempo cancelado os seus efeitos duradouros? Cabe a resposta ao individualismo da nossa raça.