segunda-feira, novembro 3

Literatura: "Pergunta", por Fernando Namora

Quem vem de longe e sabe o nome do meu lugar
e levou o caminho das conchas em mar
e dos olhos em rio
— quem vem de longe chorar por mim?

Quem sabe que eu findo de dureza
e condensa ternura em suas mãos
para a derramar em afagos
por mim?

Quem ouviu a angústia do meu brado,
sirene de um navio a vadiar no largo,
e me traz seus beijos e sua cor,
perdendo-se na bruma das madrugadas
por mim?

Quem soube das asperezas da viagem
e pediu o pão negado
e o suor ao corpo torturado,
por mim? por mim?

Quem gerou o mundo e lhe deu seu nome
e seu tamanho — imenso, imenso,
e em mim cabe?

Fernando Namora (1919-1989) foi um poeta português, assim como escritor, autor de romances e ensaios, e ainda médico de profissão. O seu estilo lavrou-se de tendências de diferentes conceitos de literatura. Em geral, é apontado como um incontornável nome do neo-realismo português - porém, como ilustra este poema que aqui apresento, é possível salientar uma expressividade de sensações que se tornou comum pela escrita existencialista, que viria na cronologia a suceder as marcas neo-realistas.

Este poema do poeta de Condeixa-a-Nova (vila cerca de Coimbra) recebeu o título adequado aos aspectos que quero sublinhar nele. O existencialismo, aqui nos seus primeiros passos em Portugal, decorre de uma busca incessante do artista pelas suas origens, pela procura pela filosofia, pelo sentido da existência. Este poema facilmente serviria como manifesto do existencialismo: nele se expõe a dúvida do ser humano; vejamos atentamento o conteúdo do poema, para depois passarmos à forma, deveria ser pela ordem inversa, porém não causa danos e será pertinente.

O sujeito desconhece, e isso o preocupa mais do que o resto, quem tomará na vida o cuidado da dele: quem se importará do seu mal sem que a esse outro alguém lhe surja um mal que lhe abra a vista e tempere o coração com a caridade. Em linhas gerais, simplesmente, ele resume que existem dois pontos de vista de concluir a solidão de todos os sujeitos no mundo: em primeiro lugar a necessidade de sermos por nós próprios, tudo o que precisamos sermos os nossos concessores; em segundo lugar, essa precisão advém da já solidão em que vivemos, escondendo as mágoas e o confronto com as adversidades, que, enquanto estas nos moldam, tentamos omitir, criando entre nós e os outros uma barreira mais e mais espessa, tornando-nos impenetráveis. Pela nossa natureza, iludimos os outros, mesmo quando nos conhecemos. Pois, em geral, nem nós nos conhecemos.

Quanto à forma do poema, nota-se algo que eu já referi em mensagens passadas: uma libertação em relação às normas rígidas que em diferentes séculos forçou os poetas a cumprirem regras rimáticas e métricas. Na verdade, percebe-se a herança e o contributo do romantismo, no século XIX, que introduziu esta liberdade, e mais, pois não conto ainda com o fluir mais despreocupado do discurso, uma linguagem mais acessível. Aproveito a condução deste texto para justificar a gradual concessão de liberdade linguística que marca a História da literatura: no passado, a literatura era dirigida a elites, formadas e donas de um vocabulário rico, e com os tempos e a alfabetização crescente, precisa-se que o conteúdo seja legível e compreensível ao público, caso contrário este optará por outro autor mais contido. Afinal, é sonho dos artistas viverem da sua arte, e na literatura isso resume-se à venda de exemplares. Retomando e finalizando, note-se o início das diferentes estrofes com a introdução da pergunta, sempre igual e fundamental: "quem", pois é essa a questão do poema.

Na semana seguinte darei a conhecer um outro texto de Fernando Namora, concretamente uma reflexão acerca das alterações a que o amor submete as pessoas e até em que poderão conhecer o segredo para o presente perfeito, material ou imaterial.

domingo, novembro 2

Música: 15 factos que precisa de saber sobre a Canção de Coimbra

*Tem Origem no século XIX, sendo o expoente deste século Augusto Hilário(ao lado).

*Originalmente, o Canto de Coimbra era operístico.

*Especialmente no século XX, o modo de cantar a música da universidade passou a ser "lamechas, doentio, piegas, que dominava o ambiente musical académico" de início de século.

*O fado de Coimbra reflecte, por um lado,o saudosismo tipicamente português, a ternura dos amores de estudante, por outro o vigor da juventude, o "idealismo das atitudes", as esperanças de um amor possível.

*Na década de 1910, António Menano começa um cruzamento entre o melancólico Fado de Coimbra e o ritmo alegre das canções e fados de Lisboa.

*Edmundo Bettencourt (abaixo) também tem um papel considerável no "arejar" da Canção coimbrã, fundindo o estilo inconfundível dos académicos de Coimbra, com algumas características da música popular de outras regiões do país, tornando o fado mais rico.

*Faz parte de quase todas as manifestações de carácter estudantil, tendo como principal exemplo a Queima das Fitas.

*O fado de Coimbra ultrapassou as fronteiras da cidade, instalando-se também no Porto e em Braga.

*Exclusivamente cantado e tocado por homens.

*As calças e a batina preta, cobertas por capa de fazenda de lã preta são traje ilustrativo da canção coimbrã.

*É cantado à noite, em sítios escuros. Porém o locais mais típicos para as interpretações são o Mosteiro de Santa Cruz e a Sé Velha.

*As serenatas, interpretadas à janela das raparigas que os rapazes pretendem namorar, são outros dos tradicionalismos das tunas de Coimbra.

*"As cordas são afinadas um tom abaixo, e a técnica de execução é diferente por forma a projectar o som do instrumento nos espaços exteriores, que são o palco privilegiado deste Fado. Também a guitarra clássica se deve afinar um tom abaixo. Esta afinação pretende transmitir à música uma sonoridade mais soturna, relativamente ao Fado de Lisboa."

*Zeca Afonso e o pai de Carlos Paredes, Artur Paredes, iniciaram-se nas tunas coimbrãs.

*"Fado Hilário" é um dos clássicos de Coimbra, entre outros. Curiosamente, o tema mais conhecido sobre Coimbra não é um Fado de Coimbra, e dá pelo nome de "Coimbra é uma lição".

Abaixo uma interpretação da "Balada da Despedida do VI Ano Médico"

sábado, novembro 1

Cinema: A vida criativa do Repórter X

Nasceu em Lisboa, a 10 de Agosto de 1897, Reinaldo Ferreira, conhecido pelo seu pseudónimo Repórter X.

Começou cedo a sua carreira jornalistica e foi considerado o maior repórter português.

A sua vida foi recheada de grandes projectos, muito deles bem sucedidos, entre eles a realização de uma reportagem sobre a “Rússia dos Sovietes”, criou os detectives de gabinete na literatura policial, fundou jornais e realizou filmes.
Em 1917, Reinaldo Ferreira estremece os lisboetas com um crime ocorrido na Rua Saraiva de Carvalho. Uma história cheia de bandidos, mortes, vilões e muito mistério, tal como ainda hoje podemos ver em muitos filmes e livros policiais. O crime encenado pelo Repórter X, apresentado em cartas enviadas por um desconhecido (assinando com o nome de Gil Goes), era publicado num jornal da altura, O Século. A história tornou-se tão empolgante entre os seus leitores, que houve a necessidade que se revelar toda a ficção por detrás daquele folhetim. Mais tarde, em sequência de todo o sucesso da criação do Repórter X, José Leitão de Barros transformou as cartas de Gil Goes num filme, em 1918, tendo sido também já editadas em livro.

O seu pseudónimo Repórter X, vem de um engano de um tipógrafo. Em 1920, Reinaldo Ferreira vai para a cidade de Paris com a sua mulher Lucília. Quando o Primo Basílio sobe ao poder, Reinaldo Ferreira decide regressar a Portugal. Mas antes da sua chegada, escreve uma critica direccionada ao ditador português assinada com o seu verdadeiro nome. Contudo, um amigo faz-lhe o aviso das represálias de que poderia ser alvo, fazendo-o então assinar como Repórter. Ao chegar às mãos do tipógrafo, este não vê apenas Repórter mas também um x. Assim com o pequeno erro do tipógrafo, Reinaldo Ferreira adopta o pseudónimo de Repórter X, como ainda hoje é conhecido.

Em 1923, Reinaldo Ferreira conseguem, em parceria com um produtor espanhol, realizar o seu primeiro filme, El Botones del Ritz (O Groom do Ritz), que estreou em Lisboa no ano seguinte.
Em 1926, na cidade Lisboeta, dá-se o assassinato da corista Maria Alvez, que foi estrangulada dentro de um táxi e deixada numa sarjeta. Baseado neste crime e noutros anteriores, o famoso Repórter X entra outra vez em acção e é publicado pelo jornal Janeiro o seu folhetim Táxi nº 9297 contando a história do assassinato imaginada por ele. Depois de esta sua história criminal ser adaptada em livro, é o próprio Reinaldo Ferreira que o converte em filme, nos estúdios da já inexistente Invicta Film. Com a estreia do Táxi nº 9297 em 1927, cria também a sua própria produtora, a Repórter X – Film.

Lucília Ferreira desfaz o seu casamento com Reinaldo Ferreira, em 1928. Todavia, o Repórter X não se deixa abater durante muito tempo, juntando-se com Carmen Cal no ano seguinte.

Depois de ser despedido do jornal Janeiro e de várias tentativas de criação de outros jornais, é em 1930 que consegue editar um jornal (findo em 1933), o Repórter X, com a ajuda financeira de um dos seus irmãos, Ângelo Ferreira. Mais tarde lançou ainda outros dois jornais, A Reportagem Semanal e o X.

Após alguns meses do seu internamento, em 1932, para uma desintoxicação, o grande Repórter X decide assumir a sua dependência da morfina. Apesar de se conseguir recuperar, essa recuperação dura pouco tempo, e em 1935 separa-se de Carmen Cal e nesse mesmo ano, o corpo do Repórter X perde toda a sua imaginação deixando para sempre a criação dos crimes que deliciavam os leitores do tempo.








Ainda durante a sua curta vida escreveu inúmeras novelas e realizou na sua produtora alguns filmes, entre eles, Rita ou Rito? (1927), Hipnotismo ao Domicílio (1927), Diabo em Lisboa (1926/28), entre outros.

Hoje, maior parte das suas produções cinematográficas estão incompletas ou totalmente desaparecidas, tal como a sua presença física e a sua criatividade cativante.

sexta-feira, outubro 31

Artes Popular: Zé Povinho de Rafael Bordalo Pinheiro.

Data de 1875 a iniciativa de maior alcance para Rafael Bordalo Pinheiro, com a criação do primeiro jornal dedicado à crítica social: “A Lanterna Mágica”. São companheiros de Bordalo neste empreendimento Guilherme de Azevedo (1840-1882) e Guerra Junqueiro (1850-1923), um projecto que faz a crónica dos factos sociais, enquanto tece a crítica às políticas e às instituições. Neste contexto, nasce a figura do Zé Povinho, tão acertada no seu conteúdo, que permanece no imaginário português com uma reforçada carga simbólica.
Definia-se o vasto campo da actuação de Bordalo, não só de expressão artística e de vivacidade de espírito crítico, mas de intervenção cívica e patriótica.

Depois da morte do jornalista, os seus discípulos deram continuidade ao Zé Povinho de várias formas e estilos. Bordalo Pinheiro ficou inscrito na história da imprensa como um símbolo do jornalismo apaixonado, como alguém que está sempre do lado dos que não têm voz nem poder.
De calças remendadas e botas rotas, Zé Povinho, é a eterna vítima dos partidos regenerador e progressista, dando a vitória a uns ou outros em época eleitoral.

quarta-feira, outubro 29

Pintura: Expressão no feminino - Vieira da Silva

"Um quadro deve ter coração, sistema nervoso, ossos, circulação. Deve assemelhar-se a uma pessoa em movimento. E preciso que aquele que olha se encontre perante um ser que lhe fará companhia, lhe contará histórias, lhe dará certezas. Porque o quadro não é evasão, deve ser um amigo que nos fala, que descobre as riquezas que se escondem em nós e à nos­sa volta."
Maria Helena Vieira da Silva, pintora portuguesa nascida a 13 de Junho de 1908, foi a autora desta frase.

Vieira da Silva demonstrou interesse pelas artes desde muito nova, nomeadamente pela música e literatura. Aos onze anos começou a estudar Desenho e Pintura na Academia de Belas-Artes em Lisboa.

Aos 18 anos, incentivada pela família, retirou-se para Paris e inscreveu-se nas academias Scandinave e La Grande Chaumière, trabalhando com Duffrene, Waroquier e Fernand Léger.

Em 1930 casou com um pintor húngaro que conheceu em Paris, Arpad Szenes. Na segunda guerra mundial regressou com o seu marido a Portugal, porém devido à política salazarista foram obrigados a refugiar-se no Brasil. O casal voltou a Paris, e ambos se nacionalizaram-se franceses em 1956.

Vieira da Silva, para além da sua obra em termos de pintura, também se aventurou em outras técnicas como o azulejo e também no mundo da ilustração de livros para crianças, tome-se como exemplo os livros “Kô et Kô” e “les deux esquimaux”.

A sua vida artística continuou ao longo de várias décadas, tendo em 1960 recebido uma condecoração do governo francês, em 1966 foi a primeira mulher a receber o Grand Prix National des Arts e em 1979 tornou-se cavaleira da legião de honra francesa. Porém em Portugal o seu talento e mérito só foram reconhecidos após o 25 de Abril e em 1988 com a atribuição da Grã Cruz de Santiago e Espada e da Grã Cruz da Ordem da Liberdade, respectivamente.
Com uma vida preenchida de arte, morre em 1992, aproximadamente 10 anos após a morte do seu marido, e é criado em homenagem do casal, a Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva em Lisboa.