segunda-feira, dezembro 15

Literatura: O percurso das letras

O anterior vazio dos meus conhecimentos acerca do período neo-realista findou e fundou no seu lugar uma vasta noção de conceitos e saberes. Escolhi, há tantas semanas que se tornaram meses, iniciar por esta época o percurso que vos desejo mostrar integralmente e fazer apreciar, por ocasião do aniversário do museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, cidade natal do maior nome: António de Alves Redol. Como na cronologia se tornou evidente, assim sucedeu com o meu estudo descobrir os limites próximos do dito movimento: em boa verdade, uma tendência que se estabelece como defensora da linguagem mais simples e directa, contrariando os desejos de mudança e apologia da mística da alma, assinalaria no futuro breve a sua morte. A literatura é uma arte, e isso faz dos seus escritos de uma elevação superior à dos textos jornalísticos... Precisa dos seus desafios constantes, precisa de alterações na sua concepção, precisa que se ignore a sua função fundamental e que se ignore uma fórmula de sucesso.

Entendem então como se ditou a morte do neo-realismo por todo o mundo ocidental: reconhecendo os seus limites, diferentes vultos, e entre eles os mais promissores escritores do neo-realismo, enveredaram por tendências inovadoras e que aprofundassem o sentir humano e a sua incapacidade de não ceder às imperfeições. Entre eles encontramos Vergílio Ferreira, que apostou na temática existencialista com enorme sucesso nos parâmetros de qualidade, e José Cardoso Pires.

Com a chegada de novos tempos e oportunidades, como a Revolução de Abril, a literatura esqueceu a sua função social e o livro tornou-se, cada vez mais, o espelho das mãos que o escrevem, isto é, o escritor introduz nas suas obras todas as características que tornam a sua escrita fluente, não reconhecendo qualquer importância aos pressupostos ou às tendências de outros colegas.

Porém, no início do século, persistia duradoura a batalha ideológica, no seio da comunidade intelectual, entre apoiantes da via romântica e da via realista, que se afirmara no século XIX: o romantismo havia sido cultivado por Garrett, Herculano e Camilo, enquanto o realismo, opondo-se ao anterior e congeminando pelo seu fim, representava os ideais literários de Antero de Quental e Eça de Queirós. Este último, maior vulto do movimento realista, deixou o mundo literário e o mundo físico no ano de 1900, deixando um vazio no seu lugar, que foi ocupado por nomes que defendiam um regresso ao romantismo, o chamado neo-romantismo que nunca se afirmou grosso modo. Destaca-se Júlio Dantas neste período, e depressa o modernismo estabeleceu-se como a vanguarda cultural que se prometia pela mudança de século e tensões sociais que aterrorizavam a Europa entre 1910 e 1920. Com a revista Orpheu e Presença, a produção literária cingiu-se à poesia. O romance só regressaria em força com o neo-realismo, que nos anos 30, até aos anos 50, preconizavam a abordagem dos conflitos sociais, motivados pelas alterações políticas europeias e instituição de regimes ditatoriais, inclusive em Portugal.

Na próxima semana, explorando este percurso, publicarei o manifesto Anti-Dantas, que revolucionou o pensamento português e lançou o modernismo em Portugal.

sábado, dezembro 13

Cinema: O Centenário do Mestre Oliveira

Os próximos artigos que vos irei escrever serão destinados à vida, à carreira de Manoel de Oliveira. É ao centenário cineasta português a quem vou dedicar os meus próximos artigos. Espero que conheçam e gostem do grande génio que nasceu português. Neste primeiro artigo irei apresentar-vos a vida pessoal do cineasta.


Manoel de Oliveira não só teve uma vida recheada de sucessos cinematográficos como também viveu momentos importantes do nosso país. Presenciou momentos históricos, culturais e políticos.

Manoel Cândido Pinto de Oliveira nasceu no Porto, dia 11 de Dezembro de 1908, ou seja, há 100 anos comemorados há poucos dias. Frequentou, em finais dos anos 20, a escola de actores criada no Porto pelo realizador Rino Lupo. Na sua adolescência dedicava-se ao desporto. Praticou atletismo e ginástica e foi vice-campeão durante três anos de salto à vara. Devido às suas vitórias foi modelo do escultor Henrique Moreira para a realização da estátua O Atleta. Oliveira era também apaixonado por carros participando em corridas tanto em Portugal como no Brasil.

A sua paixão pelo cinema começou quando em 1913, com 5 anos, o seu pai o levou a ver o seu primeiro filme. Em 1928 tive a sua primeira participação no filme “Fátima Milagrosa” de Rio Lupo. Aqui começava o seu gosto pelo cinema e pela carreira de actor, especialmente de comédia. Em 1933 participou, ao lado de Vasco Santana, no filme “Canção de Lisboa”, de Cotinelli Telmo, do qual é o único que ainda está vivo.

A 4 de Dezembro de 1940 Manoel de Oliveira casa-se com Maria Isabel Brandão Carvalhais. Assumindo outras responsabilidades, abandona as competições desportivas e os carros.

Dois anos depois, Oliveira realiza da sua primeira longa-metragem Aniki-Bobó, que não obtêm sucesso em Portugal e sem subsídios para filmar, dedica-se, durante os próximos 14 anos, ao negócio de família e à agricultura numa quinta da sua mulher.

Apenas volta à realização cinematográfica em 1956, após um estágio na Alemanha onde estudou o cinema com cor e onde adquiriu aparelhos cinematográficos, realizando depois “O Pintor e a Cidade”.

Em 1963 foi detido pela PIDE, o que deu origem a dois baixos assinados para que a sua libertação ocorresse. Em 1976, Manoel de Oliveira foi obrigado a fechar a sua fábrica de passamanaria, que herdou do seu pai, devido à invasão do PREC. Assim teve de vender a sua casa e regressar ao cinema para pagar as suas dívidas.

Neste seu regresso ao activo fez a adaptação de “Amor de Perdição”, de Camilo Castelo Branco e a partir de 1978 nunca mais parou de realizar os seus excelentes filmes até aos dias de hoje. Na comemoração do seu centenário, o cineasta estava, e ainda está, a realizar “Singularidade de uma Rapariga Loura”.

A sua morte, que espero ser só daqui a alguns anos, irá ficar marcada pela exibição de um filme. Manoel de Oliveira deseja que o filme “Visita ou Memórias e Confissões” apenas seja exibido após o fim da sua vida produtiva de filmes extraordinários e estimulantes de recordações e sentimentos.
No meu próximo artigo irei revelar-vos todos os documentários, curtas e longas-metragens realizadas por Manoel de Oliveira.

quinta-feira, dezembro 11

Arte Popular: Gastronomia Tradicional

Almeirim – Sopa da Pedra

Ingredientes: (para 8 a 10 pessoas):


  • 1 litro de feijão encarnado ;

  • 1 orelha de porco ;

  • 1 chouriço negro (de sangue da região) ;

  • 1 chouriço de carne ;

  • 150 g de toucinho entremeado ;

  • 750 g de batatas ;

  • 2 cebolas ;

  • 2 dentes de alho ;

  • 1 folha de louro ;

  • 1 molho de coentros ;

  • sal e pimenta

Confecção:

Se o feijão for do ano, não necessita ser demolhado. Se for duro, põe-se de molho durante algumas horas.
Escalda-se e raspa-se a orelha de porco.
Leva-se o feijão a cozer em bastante água juntamente com a orelha, os chouriços, o toucinho, as cebolas, os alhos e o louro.

Tempera-se com sal e pimenta. Se for necessário juntar mais água, deve ser sempre a ferver.
Quando a carne estiver cozida, retira-se e introduzem-se na panela as batatas cortadas aos quadradinhos e os coentros picados. Deixa-se cozer a batata.
Assim que se retirar a panela do lume, introduzem-se as carnes previamente cortadas aos bocadinhos e uma pedra bem lavada, que deve ir na terrina.


Artigo que deveria ter sido colocado no dia 5 de Dezembro.

quarta-feira, dezembro 10

Pintura: Almada Negreiros, um mestre do modernismo

Seguindo a linha da introdução feita na semana anterior, hoje vou vos apresentar um dos pintores mais colaboradores com o SPN (Secretário da Propaganda Nacional) e dos mais importantes do modernismo: Almada Negreiros.

Almada Negreiros, de nome completo José Sobral de Almada Negreiros, nasceu em São Tomé em 1893 e morreu em Lisboa no ano de 1970, curiosamente no mesmo quarto de Hospital onde tinha morrido Fernando Pessoa.

Almada Negreiros foi uma artista multifacetado, não se dedicou somente à pintura, tendo também sido escritor, poeta, dramaturgo, ensaísta e romancista. Ficou conhecido, na pintura, por obras como os painéis “Gare Marítima de Alcântara e da Rocha Conde de Óbidos”, e “Maternidade” e, na literatura, com “Manifesto Anti-Dantas”.

A sua colaboração com Estado Novo deveu-se principalmente ao seu apoio ao ideário fascista, que provinha da influência dos ideais futuristas. A sua primeira obra para o SPN foi um cartaz de propaganda que apelava ao voto na nova constituição (primeira imagem do artigo “Pintura: A Arte do Regime”). Entretanto foi encarregado de outras obras como os vitrais do Pavilhão da Colonização da Exposição do Mundo Português.

Como Homenagem aos seus Trinta Anos de Desenho organiza uma exposição das suas obras e é lhe atribuído o Prémio Columbano. Este prémio torna-se um pouco irónico tendo em conta o facto de Columbano ser considerado o mestre do Naturalismo, enquanto que Almada seria um dos mestres do Modernismo ou seja um homem de rupturas.

A partir desta altura é que Almada Negreiros dedica-se principalmente à pintura e ao desenho, elaborando obras como os vitrais da Igreja de Nossa Senhora de Fátima (que o público não aprecia, na medida em que põem em causa alguns valores tradicionais), o famoso retrato de Fernando Pessoa, entre outras.

Com 75 anos elabora os seus últimos trabalhos: Painel “Começar” na Fundação Gulbenkian e os frescos da Faculdade de Ciências de Coimbra.

terça-feira, dezembro 9

Música: Amália I - Os primeiros anos/Nascendo uma diva

No mês da estreia do primeiro filme sobre a diva do Fado, importa dar a conhecer aos menos conhecedores da vida da artista os primeiros passos na carreira musical e os primeiros anos da vida de uma fadista que viria a ser a lenda do Fado. E as palavras da própria Amália ilustram bem este início de uma história que se revelaria longa...


"Dizia-me a minha família que aos 4 anos já ganhava a vida a cantar, pelas vizinhas que diziam, "ó Amália anda cá, canta lá esta". E eu cantava. E depois lá pelos 7, 8 anos comecei a ouvir as vizinhas lavar a roupa na selha e cantar o Fado, que eu não sabia o que era Fado. Depois, aos meus 12 anos comecei, já internacional, a cantar os tangos do Gardel, que ouvia nas fitas, e vinha para casa sem saber o que dizia, mas ouvia o som, o som das palavras soava-me como parecia que era, e quase que era, porque no fundo como sabe a língua espanhola é muito parecida com a nossa, e para quem tem um ouvido e um poder dedutivo entende mais depressa do que uma pessoa que não tem ouvido, nem esse poder. Então, eu quase que imediatamente aprendia as coisas. E então cantava o Carlos Gardel todo. "
Consta que aos 15 anos Amália, ao vender fruta pelo Cais da Rocha de Alcântara, com a família, é notada no bairro pelo seu timbre de voz especial, o que leva a que a escolham para solista da Marcha de Alcântara, estreando-se em 1936 nas ruas de Lisboa, ficando as marchas populares no seu reportório.

É o ensaiador da Marcha quem insiste para que Amália se apresente no Concurso da Primavera, organizado para descobrir uma nova cantadeira. Porém, Amália acaba por não concorrer, pois as outras participantes recusam-se a competir com ela. Entretanto, também durante esses ensaios, é notada por um assistente que a recomenda a Jorge Soriano, director da casa de fados mais famosa da época, Retiro da Severa. A audição é um sucesso, mas, com a família contrariada, Amália acaba por não aceitar o convite.

Estreia-se finalmente no Retiro da Severa, em 1939, acompanhada por Armandinho, Jaime Santos, José Marques, Santos Moreira, Abel Negrão e Alberto Correia, interpretando três fados.
O êxito no Retiro da Severa pega como um rastilho e espalha-se por Lisboa e de um momento para o outro, todos querem ouvir esta nova cantadeira, e todas as casas de fado a querem contratar. Amália torna-se rapidamente cabeça de cartaz. Num espaço de poucos meses, Amália passa também a actuar no Solar da Alegria e no Café Luso. Até essa altura, Ercília Costa, Berta Cardoso, Hermínia Silva e Alfredo Marceneiro eram os ídolos máximos do fado, mas com a aparição de Amália tudo se vai modificar.

A fama cresce, e Amália torna-se na favorita dos portugueses. Por onde actua faz esgotar lotações; os preços dos bilhetes sobem mal é anunciada. Em poucos meses atinge uma popularidade tal que o seu cachet é de longe o maior até então pago a uma fadista. Tão rápido é o êxito de Amália nos retiros fadistas que logo a chamam para o teatro. Estreia-se em 1940, como atracção da revista "Ora Vai Tu", no Teatro Maria Vitória...Depois disto, muitas mais glórias viriam...mas isso é história para outro artigo...

Agradecimentos: www.amalia.com