domingo, fevereiro 8

Música: Era uma vez nos Anos 90, a Eurovisão

Sorriam! Acendam os vossos isqueiros durante as baladas! Sintam o coração a bater ao som da derradeira década do século XX! Resumindo, esta semana, para terminar o ciclo Eurovisão, recordaremos o que de melhor se fez nos anos 90, em português, para o festival dos festivais. E as cinco canções escolhidas como as melhores da década possuem uma característica comum, o serem interpretadas por mulheres! Desde músicas mais mexidas e orelhudas, até baladas de fazer corar qualquer Céline Dion, os anos 90 produziram também verdadeiros clássicos e épicos da música portuguesa, algo que não viria a acontecer na década seguinte, onde as únicas canções que bem representaram Portugal foram a de Rita Guerra e a de Vânia Fernandes. Todas as outras podem ser comparadas a fogo-de-artíficio, que é muito espectacular, mas rapidamente desaparece e se esquece. De volta aos anos 90, comecemos pelo fundo da tabela.

“Peguei, trinquei e meti-te na cesta”. Bela metáfora que esta letra possui, comparando os homens a uma maçã ou a um papo-seco. A canção é de Dina e chama-se “Amor de água fresca”. A letra é da grande Rosa Lobato Faria, que escreveu a letra de outras representantes portuguesas na Eurovisão de 90, como “Antes do Adeus” de Célia Lawson. O ano em questão é 1992 e ficou em 17º lugar. Reparem que no videoclip, há momentos em Dina está vestida de Carmen Miranda.





O quarto lugar é de Lúcia Moniz e “O meu coração não tem cor”, a música lusitana que melhor lugar obteve no Festival da Canção, um honroso 6º lugar. Lúcia Moniz tem uma carreira enormíssima, que passa da música pop/rock, a telenovelas na TV, passando ainda pelo teatro musical, entrando em várias produções de Filipe LaFéria, como “Música no Coração” e “West side story”, e colocando a sua elegância subtil em produções cinematográficas. A brilhante participação data de 1996 é acompanhada, entre outros instrumentos, pelo cavaquinho.



Em terceiro lugar está uma das maiores divas da música nacional, ainda em início de carreira. Falo de Dulce Pontes, com a sua “Lusitana Paixão” (1991), um registo memorável da música portuguesa, iniciando a junção entre o pop/rock e o Fado, algo nunca antes feito e, diga-se de passagem, apenas feito brilhantemente pela autora de canções como “O Infante”, “Canção do mar” e “Amor a Portugal”, entre muitas outras. Esta canção ficou em 8º lugar, com um total de 62 pontos. Nesta interpretação que vos deixo, além da voz fantástica de Dulce, realço a sua permanente, que representa fielmente os penteados final-de-80/início-de-90. Deixo-vos ainda um karaoke desta música, para se divertirem a cantá-la.





O segundo lugar conquista-o Anabela, com “A cidade até ser dia”. A voz harmoniosa de Anabela canta o sonho, sonhado durante “a noite” que cai na cidade, cidade essa que é a nossa vida, de modo genial. A “menina Eurovisão”, ou “menina LaFéria”, como ela própria se apelidou em jeito de brincadeira, ficou em 10º lugar no ano da sua participação, 1993, ganhando 60 pontos no total.





Em primeiro lugar, está a vencedora da primeira edição do Chuva de Estrelas, Sara Tavares, a primeira artista negra a representar Portugal na Eurovisão, com a canção “Chamar a música”. A cabo-verdiana ficou em 8º lugar no Festival com este poema cantado de Rosa Lobato Faria (mais uma vez). 1994 era então um ano histórico para a música portuguesa, com a criação de uma das mais belas baladas de sempre, cantadas na língua de Camões.


A Eurovisão assume uma importância enorme em termos culturais, oferecendo-nos, público, canções maravilhosas que se tornam em símbolos de uma época, de um estilo e mais importante que tudo, símbolo do que é ser português. Esperemos que os próximos anos tragam boas canções portuguesas à Eurovisão e se criem mais clássicos maravilhosos. Este ano já se escolheram os 12 concorrentes portugueses. Desses 12, apoio a música de Romana e dos Flor de Lis. Parecem-me as mais ricas em qualidade e sentimento, afastando-se do triste espírito comercial da Eurovisão dos últimos anos. Logo veremos o que o futuro nos reserva. Entretanto, brindemos ao glorioso passado e à música de qualidade portuguesa.

sábado, fevereiro 7

Cinema: O Feitiço do Império Português

Depois de vos falar sobre António Lopes Ribeiro, hoje apresento-vos o seu primeiro filme realizado sobre as colónias africanas de Portugal.

Este filme é intitulado por “Feitiço do Império” e aqui têm a sinopse do filme.

Sinopse: Emigrante português nos EUA, Francisco Morais não esquece a sua terra natal e também devido ao pouco entusiasmo do filho que se quer nacionalizar americano, decide leva-lo a uma caçada em Angola. Assim, ao visitar Lisboa, Guiné, São Tomé, Angola e Moçambique, fica deslumbrado com todas as maravilhas das colónias. Após isto, o portuguesismo e o “feitiço do império” influenciam-no na sua decisão de se nacionalizar americano. E para ajudar, é tratado por Mariazinha, após ser atacado por um leão.

Este filme foi o primeiro que abordou as colónias ultramarinas e a obra do Estado Novo de colonialização. Por isso, esta película foi integrada na Missão Cinematográfica às Colónias de África, da qual António Lopes Ribeiro foi nomeado director, como já referi no meu artigo anterior.

Este documentário sobre as colónias portuguesas em África é considerado pelo realizador como a sua melhor obra neste âmbito. Depois deste filme realizou outros documentários, como por exemplo:

· Exposição Histórica da Ocupação, 1938
· Viagem de sua Excelência o Presidente da República a Angola, 1939
· Guiné, Berço do Império, 1940
· As ilhas Crioulas de Cabo Verde, 1945

Todos estes filmes e documentários, realizados por António Lopes Ribeiro e outros realizadores, sobre as colónias portuguesas como também a Missão Cinematográfica às Colónias de África tinham como (principal) objectivo a exibição do Império português, durante o Estado Novo. Foi uma via que Oliveira de Salazar utilizou para enaltecer o nosso país.

Este documentário estreou no cinema Eden, a 23 de Maio de 1940, o qual teve a honra da presença do ilustre António Oliveira de Salazar, e foi produzido nas instalações da Tobis Portuguesa.

Hoje, deste filme, apenas encontramos a banda de imagem, conservada na Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema.

quarta-feira, fevereiro 4

Pintura: O Pintor de Alenquer - João Mário

Antes de mais deixo aqui as minhas desculpas, aos leitores e aos restantes elementos do grupo, por na quarta-feira passada não ter publicado nenhum artigo de blog. A razão para não o ter feito foi muito forte, como o nosso grupo realizou na passada sexta-feira uma tertúlia sobre o fado eu, como os restantes elementos, tive muito trabalho durante a semana passada relacionado com a tertúlia. Para além da falta de tempo derivada do imenso trabalho de preparação para a tertúlia, na quarta-feira é quando eu, e mais 3 elementos do grupo, temos teatro (o que ocupa a tarde quase toda) e eu na terça-feira e na quinta-feira tenho o meu curso de pintura à noite a que eu, na semana passada, não podia faltar.

No último artigo de blog que publiquei, iniciei uma nova fase para os meus artigos: a segunda metade do século XX. Desta forma hoje vou vos apresentar um pintor de Alenquer (perto do nosso concelho): João Mário.
João Mário Avres D’Oliveira nasceu a 1932, em Lisboa. Desde muito cedo foi residir para Alenquer onde actualmente tem o seu ateliê e um museu com o seu nome. A vocação para a pintura foi sentida por João Mário desde muito cedo, em 1950 dedicou-se exclusivamente à pintura a óleo e passou a frequentar o curso de desenho e o de pintura na Sociedade Nacional de Belas Artes. Após este curso, passou a ter aulas de pintura ao “ar livre” com o prestigiado mestre de pintura Álvaro Duarte d’Almeida.

A sua primeira exposição teve lugar em Lisboa no Salão Colectivo da Sociedade Nacional de Belas Artes, no ano de 1954. Todos os quadros que João Mário expôs foram adquiridos por um coleccionador inglês dotado de uma certa importância. Desta forma o pintor passou a expor anualmente neste salão (até 1974), o que, em 1958, lhe valeu uma Menção Honrosa da Sociedade Nacional de Belas-Artes. Em 1965 João Mário viaja pela Europa e pinta várias telas em países como a Espanha, a França, a Itália, a Alemanha, a Áustria e a Suíça, obras estas que foram expostas e vendidas na sua totalidade.

Em 1967 é eleito membro do Grupo de Artistas Portugueses. Em 1987 viaja novamente pela Europa, expondo em Madrid no ano de 1990. Um ano depois expõe na Galeria Euroarte em Lisboa, exposição essa que intitulou como “Homenagem a Lisboa”. Finalmente em 1992 inaugura o Museu João Mário em Alenquer que conta com cerca de 400 dos mais prestigiados artistas portugueses e estrangeiros. (Aproveito esta deixa para vos aconselhar a visitar este museu, infelizmente ainda não tive oportunidade para o visitar pois quando foi a Alenquer para o efeito o museu encontrava-se fechado).

Os quadros de João Mário encontram-se em vários museus e instituições (câmaras, bibliotecas, restaurantes…) nacionais: em Ovar, Vila Franca de Xira, Sintra, Figueira da Foz, Tábua, Sabugal, Viseu, Portimão, Lisboa, Nazaré, Santarém, Porto, Alenquer, Sesimbra, Ota e Montejunto. Para além de todas estas localidades portuguesas, também se pode encontrar obras do pintor João Mário pelo mundo, principalmente em colecções particulares, como por exemplo: na Alemanha, Angola, Argentina, Brasil, Canadá, Espanha, Estados Unidos da América, França, Holanda, Inglaterra, Itália, Japão, Suíça e Venezuela.












João Mário já realizou cerca de 54 exposições individuais, 179 colectivas e possui cerca de 34 prémios. Atrever-me-ia a dizer que João Mário é um grande pintor, mas como aprendi ontem com o meu mestre de pintura a palavra “pintor”, dita da forma anteriormente referida, é também utilizada como um insulto, significa “aldrabão”, por isso fico só por dizer que João Mário pinta extraordinariamente bem!

Prémios:
1958-
Menção Honrosa da Sociedade de Belas Artes
1959- Prémio Abidis Hotel de Santarém
1960- 1º Prémio de Pintura a óleo
1961- Medalha de Prata em Pintura
1962-Prémio pecuniário
1966- Medalha de Honra em ouro
1967- Medalha Cidade de Abrantes
1970- Prémio Governo Civil de Lisboa
1971- Prémio Companhia de Seguros Império
1972- Prémio Câmara Municipal de Santarém
1973- 2º Prémio de Pintura a óleo
1979- Prémio Câmara Municipal de Alenquer
- 1º Prémio da Secretaria de Estado da Cultura
1980- Prémio da Escola Ferreira Borges
- 5º Prémio Olisiponense
1981- Prémio de Honra “Crítico de Arte Prof. Reynaldo dos Santos”
- Menção Honrosa da Câmara Municipal de Lisboa
1982- 1º Prémio Bayer
1983- Medalha de Prata
-Medalha
1984- 2º Prémio
-Prémio BES & Comercial de Lisboa
1985- Prémio de Honra “Pintor Rosa Mendes”
1987- 1º Prémio Pintura “Reader’s Digest”
1988- 1º Prémio Pintura
1989- Menção Honrosa
-Prémio Galeria de Arte Capitel
1993- 1º Prémio em Pintura
-Medalha de Mérito (Grau Ouro)
2001- 2º Prémio em Pintura
-Medalha de Prata
- Prémio Oscar Della Cultura 2001 (Florença, Itália)
2005- Medalha de Mérito Cultural da Academia de Artes e Letras de Paranaguá (Brasil)

segunda-feira, fevereiro 2

Música: (In)Sucessos dos anos 80 na Eurovisão


Virada uma página, e ainda mais importante, uma década, Portugal continua a sua saga pela Eurovisão. Esta jornada pode ser vista pelo lado do sucesso e do insucesso. Sucesso para nós, país á beira-mar plantado, que assistiu ao aparecer de mais clássicos, ao florescer de autênticos êxitos pop lusitanos, que nem sequer roçam o popularesco (bem…alguns não roçam!). Por outro lado, observamos o fracasso na tabela final da Eurovisão de cada ano, durante esta década, em que Portugal não escala ao topo, por mais rezas e promessas a Fátima que se façam. Em resumo, perde a Europa, pois que não/nunca vota pelas grandes canções portuguesas, e ganhamos nós, vendo nascer uma nova cultura musical, cada vez mais distante do Fado e próxima do futuro(não que o Fado não seja futuro, mas diversifiquemos!). Os anos 80 haviam chegado. A música mudara, a qualidade continuava enormíssima, a atitude europeia continuava a roçar a injustiça (esse ser que se passeia por perto das mais sujas lamas…). Enfim, más avaliações à parte, recordemos aquilo que de melhor se fez de português na Eurovisão durante os anos 80. Escolhi 5 representantes da época das bolas de espelho e das calças á boca de sino. Espero sinceramente serem pertinentes as escolhas.

Abrimos os cinco mais desta semana com Dora, e o êxito “Não sejas mau pra mim”, a primeira participação da “Menina das Botas” neste festival, umas vez que voltaria dois anos depois com…”Voltarei”. 1986 é ano de “Não sejas mau pra mim”, uma canção que marcou uma geração, a das mães dos actuais adolescentes e com efeito-pastilha-elástica após audição, pois que se pega e não sai. Recordemos a actuação, a lembrar uma Whitney Houston da língua de Camões (não…o exagero não é assim tão grande.) e com uma saia verde inesquecível que voltou á moda por volta de 2004.





Em quarto lugar estão os DaVinci que tentam conquistar a Europa com o seu single “Conquistador”, numa letra que canta os feitos portuguesas e recorda a sua época de ouro. Foram os representantes de 1989. Fiquem com o videoclip desta canção portuguesa, não com a actuação, pois que o vídeo é extremamente engraçado e completo demais para não ser visto.





A medalha de bronze entrego-a a José Cid, com uma canção que mais parece uma aula de línguas, do que uma música no seu sentido lato. Falo então de “Um grande, grande amor”, de 1980, que com o seu refrão multinacional bem que merecia uma boa pontuação por parte de franceses, ingleses e alemães…o facto é que realmente recebeu mesmo a tal boa pontuação de que falava, posicionando-se num honroso 7º lugar (se bem que nos tenha ficado a saber a pouco.).





Pelo segundo lugar, ficam as inspiradoras das Spice Girls e tudo o que é girls-band á face da Terra, as grandes Doce! “Bem bom” é uma canção que toda a gente conhece, e quem não conhece é excepção rara. Esta música valeu às Doce o primeiro lugar no Festival RTP da Canção de 1982, e depois um 13º lugar no Festival da Eurovisão. Do grupo faziam parte Fá (Fátima Padinha), Teresa Miguel, Lena Coelho e Laura Diogo. Recordemos agora a actuação original, e depois uma actuação da mesma música no programa “Diz que é uma espécie de Reveillon”, onde podem reparar que, apesar do peso da idade, o talento se mantém. Nesta última actuação, Zé Diogo Quintela substitui Laura Diogo que agora vive na Califórnia.









Em primeiro lugar, Carlos Paião com “Playback”. Palavras para quê, é uma das maiores músicas do repertório pop/rock português, de um artista que apesar de já cá não estar, ainda toca os corações de todos os que o ouvem. Fiquem com esta canção de 1981. Antes, uma curiosidade: a corista vestida de amarelo é a actriz Ana Bola, conhecida por programas como “Herman Sic” e “VIP Manicure”.



Literatura: O Poeta da própria pele

E por que lhe chamo esta expressão, entre variadas outras que podia escrever para nossa memória de quem foi Fernando Pessoa? O significado que coloquei na expressão liga-se com o fenómeno mais marcante da sua obra: a heteronímia, a criação de almas distintas dentro da sua alma. Afirmo então que dentro da alma de Pessoa viviam quatro ou cinco poetas, mas só um deles - ele próprio - dentro da sua pele. E aqui tenho explicado o rasgo de irreverência que quis trazer à vossa leitura semanal.

Por muito me doerem os braços do pensamento, e muito em recordação dos escritos do nosso poeta, hoje debruço-me somente sobre um tema em particular. Depois de na passada semana, há sete dias, ter apresentado o decorrer da vida do marco principal da literatura portuguesa do século passado, hoje referirei a obra literária, aliás poética considerando a necessidade do rigor, deste grande génio que viveu onde nós vivemos. O legado literário que este homem nos deixou, ele que agora repousa no Mosteiro dos Jerónimos com os maiores êxitos do país, não pode nem deve ser avaliado como espelho de angústias e de desespero, de hesitação e de pouco fascínio: a razão que Fernando Pessoa sempre buscava permitiu-lhe estabelecer um leque muito vasto e inteligente de filosofias que nos elucidam quanto à atitude que se deve ter perante a vida e consegue mostrar-nos as fraquezas desta realidade, que aos menos atentos pode parecer evidente e firme, mas que o não é intensamente.

Entre toda a literatura que possui a assinatura do próprio homem como rodapé, apenas um conjunto especial de poemas terminou publicado em livro antes da sua morte: A Mensagem. Reportando-me a informações trazidas muito em especial das aulas, é certo que apenas um verdadeiro português saberá ler, positivamente ler e entender, o livro lírico e épico de Fernando Pessoa. Isto porque só é verdadeiro o português que houver lido a maior obra literária da Humanidade, Os Lusíadas, do Camões. É como se a grande verdade dos grandes feitos e glórias de Portugal, hoje, no nosso país, vagueassem ainda nos metros que unem as estátuas de Pessoa e de Camões, ambas no Chiado de Lisboa. Porque, procurando dizer o que corresponder à realidade e o que é justo, foram estes dois génios da palavra que definiram e justificaram as honras que ilustram o passado do nosso povo. E, apesar do passado não mais fugir por ser nosso, não é menos certo que o passado, sem acções que o façam renascer, acabará nunca regressado. A preocupação e a sabedoria do poeta do Chiado foi justamente esta: demonstrar como todo o nosso belo caminho para o futuro, para ser consolidado, necessita o contributo, na forma de acções, de cada um dos portuguesas e de nenhum em especial que se sente no comando da nação. De todos nós em simultâneo, que organizemos uma força que, como antes, nos leve à frente de tudo a dirigir os interesses de nós próprios. Grandes e muitos, nós nunca fomos... mas ainda assim conseguimos uma forma de ser grandes, sendo grandes uma palavra diferente de grandes que disse anteriormente (entenda-se o jogo de palavras relativamente à grandeza perdida de Portugal, ou prefiro dizer grandeza adiada, que se cansou das nossas gentes e mais tarde voltará pelo esforço que reconhecemos necessário.)

A Mensagem pretende chamar o leitor para esta realidade que é pouco fantasiosa e que não advém, como grande parte da poesia de Fernando Pessoa, da sua grande imaginação. Este livro, este estilo de epopeia contemporânea, dita o caminho que devemos, enquanto portugueses de hoje, prosseguir: olhar o passado com consideração e respeito, mas entender que nada do que foi alcançado pelos portugueses foi obra somente do Destino: pois seremos sempre capazes de retornar ao passado glorioso! A Terra é nossa se quisermos! O mar é nosso se quisermos!

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Aqui temos o verdadeiro poder do conjunto, porque nada somos individualmente se possuímos todo um povo que nasceu para, renunciando ao bem-querer de si próprio em particular, se unir em busca do triunfo que nenhuma outra nação entende possível. No entanto, deixámos esmorecer, hesitámos após vencer, como se concebêssemos que a vitória era malograda e não feita à nossa medida. Mas necessitamos renascer, morrer agora e fazer como a fénix faz: deixar morrer para, ao renascer, ser mais forte.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a Hora!

A mensagem é esta: está na hora de renascermos e deixar reviver, nas nossas almas, a alegria e orgulho que os nossos antepassados testemunharam quando, do nosso mar, chegavam as notícias que éramos os melhores... Que delícia que é ler este livro e achar, por ser certo e concreto, que todos juntos havemos de conseguir, trabalhando, trabalhando. Pensando, se quem nos fez, fez-nos a pensar.

A primeira edição deste livro foi no ano de 1934, e a segunda no decorrer de 1941: em plena ditadura. Agradeçamos a Salazar, se não muitas vezes o fazemos, o apoio que este deu a Fernando Pessoa. Sabemos bem, no entanto, que se o fez foi por uma obra literária, do cariz patriótico que esta defende, revelar-se útil como propaganda do regime instaurado. O Secretariado de Propaganda Nacional classificou esta obra na segunda categoria de um concurso literário, porém com a compensação do mesmo prémio monetário do primeiro classificado. Fernando Pessoa morreu pouco depois, mas aceita-se que este esperasse a publicação deste livro para, posteriormente, lançar toda a sua obra e dos seus heterónimos.

E então, como liga ao que acabei de escrever, falarei brevemente da obra poética do ortónimo Fernando Pessoa: o próprio escreveu, numa perspectiva da sua literatura, que é um fingidor, e que tudo cria com o pensamento que imagina e fantasia... Isto levou a que, pelas décadas que têm passado, muitos curiosos não tenham satisfeito a sua curiosidade em relação a aspectos biográficos do poeta - este conserva-se um enigma! Ninguém pode afirmar sem hesitação que Fernando Pessoa era e sentia aquilo que escrevia. A sua obra, todavia, é marcada de um sensacionismo vincado, expresso na linguística do movimento literário que introduziu em Portugal e que sempre defendeu com severidade: o modernismo. É, mais do que os seus heterónimos, utilizador da métrica e rima, lembrando-nos, numa primeira análise, um pouco o rigor de outros tempos, como Camões ou Bocage. No entanto, conclui-se depois que o que Pessoa pretendia era trazer à sua poesia e aos seus desabafos a razão, aperfeiçoando a sua literatura com regras que ajudam o pensamento a chegar mais alto. "A razão aperfeiçoa os sentidos", poderia ele ter escrito, mas deixou para que eu o escrevesse.

Por assim dizer, a heteronímia foi, em grande parte, a forma encontrada pelo Poeta para nos dar uma perspectiva alargada e múltipla da realidade em que vivemos: dá-nos, através de várias assinaturas e várias personalidades, os vários lados da verdade e diferentes filosofias, todas correctas mas todas distintas. E é sobre a obra poética dos heterónimos de Fernando Pessoa que escreverei os dois próximos artigos deste espaço sempre vosso.