sexta-feira, março 6

Pintura: Não merecemos mais?

Como já tinha explicitado na semana anterior, hoje farei um artigo constituído por uma análise e uma crítica à artista Paula Rego e às suas obras, assim como, por uma reflexão do valor concedido aos artistas portugueses, nomeadamente aos pintores.
Na semana passada apresentei neste blog um artigo de carácter biográfico sobre a pintora Paula Rego, esse artigo tem como finalidade dar-vos a conhecer o percurso da pintora para então apoiar o artigo de hoje.

Como todos já conhecem, ou podem observar a partir das obras desta autora expostas neste blog, a pintora Paula Rego é essencialmente reconhecida pelo carácter chocante, sexual e violento das suas obras.

As pinturas da Paula Rego abordam temas relacionados com a sexualidade, onde em vários quadros se pode reconhecer uma cena de violação, uma criança abusada, ou até cenas que não representam especificamente cenas sexuais mas as figuras do quadro mantém uma postura muito ligada à sexualidade; temas relacionados com a morte e outros temas violentos onde a cena representada e as figuras mantém um certo obscurantismo. As obras desta autora constituem um escândalo propositado, na medida em que o quadro tem o objectivo de chocar, assim como muitas obras de pintores vanguardistas, portanto a primeira reacção de qualquer pessoa face ao quadro não é averiguar a qualidade da técnica utilizada, ou a qualidade estética da obra ou ainda o significado mais profundo, mas sim é uma reacção de confronto com a temática e com a violência com que esta nos embate.

A maior parte das obras mais admiradas da pintora, tem um intuito de reconstruir uma história a partir de imagens e ilusões que envolvem todo o quadro quase como o assombrando, não num sentido pejorativo é claro. As temáticas são tão fortes, assim como a representação no quadro, que é como se a pintora sentisse tudo aquilo ou já o tivesse vivido, não que eu tenha alguma informação da pintora ter tido algum caso deste tipo de violência, nem quero passar falsas ideias aos leitores.

A principal razão para eu fazer este artigo foi o facto de eu ter uma opinião muito forte sobre esta artista, na realidade as obras da pintora não são algo que aprecie, achando até que são esteticamente ofensivas, mas como é óbvio é apenas a minha opinião que se baseia naquilo que aprecio esteticamente e que gosto de pintar.

Um dos muitos pensamentos que tenho quando analiso as obras da pintora, é perguntar-me porquê? Como é que algo consegue ter tanto sucesso? A resposta torna-se evidente após ter conhecimento do percurso da pintora e da sua influência em Inglaterra, o que a projectou internacionalmente, uma sorte de conhecimentos e meios. Não estou aqui a pôr em causa o valor da pintora Paula Rego ou das suas obras, mas será que é um sucesso merecido? Será que face aos inúmeros e fantásticos pintores portugueses, que nem sequer são conhecidos em Portugal, a pintora tem um sucesso merecido? É claro que em comparação este sucesso e projecção internacional torna-se injusto e até ridículo, mas a verdade é que a pintora merece tudo isto, o que acontece é que os restantes pintores portugueses também o merecem. A pintura no nosso país está subvalorizada, desconhecida, e ainda somente ao alcance de uma minoria. As pessoas não dão o devido valor à pintura portuguesa contemporânea, e a maioria só diz conhecer e apreciar as obras de Paula Rego porque esta é reconhecida internacionalmente, e para o nosso povo se o estrangeiro aprova é porque é bom e então é um orgulho. Os nossos artistas precisam de reconhecimento e para isso é necessário existir um público interessado, não com isto que eu esteja a dizer que apreciar pintura é uma obrigação, claro que não, mas é necessário valorizar os pintores. A realidade é que ninguém fica indiferente a nenhum tipo de arte, pode gostar mais de uns movimento ou estilos do que outros, mas gosta. A arte faz parte da nossa cultura, define a nossa identidade, e nenhum ser humano consegue ser insensível ao ponto de não ter nenhuma emoção face a qualquer arte, mesmo que seja uma emoção depreciativa.

Com isto tudo, a minha ideia é alertar-vos a todos, leitores, colegas, comunidade, para a existência da Arte, da pintura. Como um actor precisa das palmas do público, um quadro precisa de ser visto, analisado, apreciado, criticado, e um pintor precisa de passar para os outros a ligação que tem com as suas obras, fazer as pessoas sentirem a sua paixão e o seu envolvimento.

segunda-feira, março 2

Literatura: As mãos de Deus na sociedade do Diabo

Lembro, para início desta semana que se avizinha e promete trazer no regaço novidades e algumas alegrias, que iniciei, com o artigo anterior, o estudo da segunda geração de modernistas portugueses. Esta geração, que deu à corrente modernista um novo fôlego e impulso após a morte de alguns vultos que fundamentavam a ideologia, como Mário de Sá-Carneiro, Santa-Rita Pintor e Amadeo de Souza Cardoso. Falo da revista Presença, tal qual sendo uma segunda revista Orfeu na História literária deste nosso bom país. Assim, é justo afirmar dois pontos: primeiro, os fundadores desta revista tornaram-se os efectivos membros e responsáveis por este segundo surto modernista (Adolfo Casais Monteiro, João Gaspar Simões, Branquinho da Fonseca e José Régio); segundo, refiro que a segunda etapa do Modernismo lusitano compreendeu essencialmente uma preocupação literária pelo aprofundar de algumas místicas iniciadas pela primeira geração, sendo que os artistas plásticos modernistas não se evidenciaram com vantagem nesta segunda geração. E se falamos em diferentes gerações, implica que vários anos tenham passado, como um interregno que tivesse trazido diferentes inspirações e projectos inovadores. A primeira geração de modernistas correspondeu ao verdadeiro início do século, nos seus quinze anos iniciais, principalmente. A segunda geração corresponde aos artistas que se uniram, num projecto uno e concreto, a partir dos anos 20 até ao avançar do movimento neo-realista, iniciado na década de 30.

Entre as personalidades que demonstram a genialidade desta nova geração, apenas José Régio me faria erguer do meu assento numa interminável ovação, e com efeito tornou-se o grande impulsionador de todos os poetas do seu tempo, e o grande ideólogo da manutenção dos cânones modernistas na literatura. As influências que eram trazidas do estrangeiro pelos intelectuais, e mesmo aquelas que eram sugeridas pela conjuntura interna de Portugal, ditaram as opções que divergiram o ideal da primeira geração do Modernismo e esta que estudo hoje. A Guerra Mundial, antes dos anos 20, revelou a brutalidade das acções humanas e as suas dramáticas consequências, como um conflito num dado sítio possa fazer sofrer os lugares mais remotos. José Régio, na sua poesia milagrosa, de tão excepcional, assimila esta desconfiança na espécie humana, os dramas do indivíduo que questiona o bom funcionamento e o conceito de sociedade que o alberga. As suas convicções socialistas, a par das de muitos e tantos outros escritores portugueses, permitem percepcionar com certa facilidade este espírito carente de mudança e de ajuda, que procura as soluções para a sua pessoa e para a humanidade que parece condenada à destruição de si mesma.

"Poeta sou! cumpro o meu Fado, estranho

Como o dum santo ou um louco

Só posso dar de mais ou muito pouco,

Que é tudo quanto tenho."

Estes quatro versos, escritos pela mão mágica de José Régio, demonstram, melhor do que as minhas especulações podem fazer-vos entender, as dúvidas que baseiam a sua personalidade: um sujeito que se isola, olhando os outros em sociedade como um objecto onde apenas pode depositar os extremos da sua alma - o tudo ou o nada. Não existia meio termo na dedicação deste homem, parecia ele amar demais e querer demais, sempre demais para os outros o poderem satisfazer; ou então queria pouco, tão pouco, e tão pouco oferecia em troca, que o mundo o deixava de ver, de observar, e o esquecia, deixando-o abandonado nos seus sonhos perdidos.

O parto do poeta, cujo verdadeiro nome era José Maria dos Reis Pereira, deu-se no primeiro ano do século XX, tornando-o o primeiro grande poeta verdadeiramente contemporâneo. Vila do Conde foi a terra que o viu nascer, além a norte mesmo do Douro, em território tão frio e tão chuvoso se compararmos com a cidade linda que o viu sofrer e passar a maioria da sua vida: Portalegre. Em Vila do Conde cresceu até completar o quinto ano do liceu, e até essa data tinha já escrito alguns poemas que se viram publicados em jornais locais. Na universidade cursou Filologia Românica, e lá conheceu os seus futuros colegas da Presença. Esta revista viria a ser publicada em edições sem frequência fixa e sem modelo comum: tratava-se de uma reunião de pensamentos, dissertações e obra literária dos seus escritores, sendo impressa cada vez que se encontrava pronta para o efeito. A tese da sua licenciatura anunciava já a sua extrema vocação para a literatura: o século havia-se iniciado havia poucos anos, e a tal tese centrava-se nas tendências e correntes literárias que se manifestaram desde o fim do século XIX, abordando já nomes pouco conhecidos na altura, como Mário de Sá-Carneiro ou Fernando Pessoa. Em Portalegre, onde viveu a sua vida numa estalagem da qual fez casa após a adquirir em completo, leccionou durante mais de trinta anos.

Mas é comum dizer que o isolamento deste poeta terminava nas horas em que ensinava os seus alunos. Findo esse período do dia, encontrava-se só, vivendo sozinho, percorrendo por vezes os campos em redor de Portalegre no seu burro. Era um homem da solidão, e nela sabia como encontrar um certo encanto e uma beleza acima da que achava existir na vida social. Uma das suas outras paixões era a colecção imensa de obras de arte sacra que reuniu na sua casa branca de Portalegre, e que hoje corresponde a uma casa-museu de extremo interesse - que eu mesmo tive já o grande prazer de visitar num dia soalheiro e memorável.

Grande parte da sua obra centra-se no binómio Deus/Diabo, analogia para Indivíduo/ Sociedade, como o demonstra o seu mais significativo poema, denominado Cântico Negro, do qual se segue um aclamado e brilhante excerto:

"«Vem por aqui» - dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: «vem por aqui»!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali... (...)

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: «vem por aqui»!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
- Sei que não vou por aí!"

E aqui termino a abordagem longa que fiz do Modernismo, e ainda nos próximos meses verão neste espaço de literatura o tratamento da literatura do fado. E não por acaso que tenha escolhido este poema de José Régio para dar termo ao estudo do Modernismo. Afinal, positivamente, quais versos algum dia escritos hão-de conseguir demonstrar tão mais fielmente o propósito e a mudança que os modernistas introduziram, o seu espírito de buscar a novidade e a diferença, a sua longa procura pela negação das tradições gastas no passado, do que estes?

"Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
- Sei que não vou por aí!"

sábado, fevereiro 28

Cinema: "Gado Bravo" - Uma Vida Ribatejana

Hoje, na sequência do meu último artigo relacionado com os anos de ouro do cinema português, apresentarei o filme “Gado Bravo”.

Este filme, “Gado Bravo”, foi realizado por António Lopes Ribeiro (sobre o qual já escrevi um artigo intitulado “O Cineasta do Regime”), no ano 1934.

A história do filme é sobre a vida de Manuel Garrido (Raul de Carvalho), um criador de touros e um hábil cavaleiro tauromáquico. O seu coração está dividido entre duas mulheres. Branca (Nita Brandão), uma mulher sensível e símbolo das virtudes da mulher portuguesa; e Nina (Olly Gebauer), uma fascinante cantora estrangeira.

Este foi o terceiro filme sonoro português. No genérico do filme é apresentado como realizador António Lopes Ribeiro e como supervisor artístico e técnico o estrangeiro Max Nosseck, alemão refugiado em Portugal. Contudo, ainda hoje permanece a dúvida de quem realmente terá chefiado o filme “Gado Bravo”.

Os lugares escolhidos para serem gravadas as cenas de exteriores tudo tinham a ver com a vida ribatejana e dos toureiros, tão bem representada neste filme. Foram gravadas cenas em Valada do Ribatejo, durante cerca de 5 meses, e no Campo Pequeno, onde estiveram presentes inúmeros figurantes, que apareceram voluntariamente após serem publicados em revistas e jornais anúncios sobre as filmagens.

Após as filmagens no exterior estarem concluídas, foram gravadas em estúdio, na cidade de Paris, as restantes cenas de interior. Esta deslocação ao país criador do cinema mostra o atraso presente em Portugal, devido a inúmeros entraves, como a falta de equipamento actualizados, falta de apoios financeiros e ainda com a Censura sempre a impor-se. Todavia, a vontade de realizar e apresentar ainda as nossas raízes, mostrou ser a força necessária para continuarem a realizar excelentes filmes, com a assinatura portuguesa.
“Gado Bravo” estreou no Tivoli a 8 de Agosto de 1934. A par desta grande estreia, como complemento, foi também apresentado o documentário “Douro, Faina Fluvial” de Manuel de Oliveira.
Após a sua estreia, um dos colaboradores do filme apresentou uma queixa por terem alterado parte de uma música realizada por si. “Gado Bravo” foi retirado dos cartazes, mas passado alguns meses, as autoridades suspenderam a apreensão do filme e este regressou aos cartazes. Esta queixa apresentada contra os responsáveis pelo filme, contribui para o grande sucesso deste filme, devido à crescente curiosidade dos espectadores, após este pequeno contratempo.
Recentemente, este filme de António Lopes Ribeiro foi restaurado a partir do negativo existente na Cinemateca Francesa e com o apoio do seu equipamento técnico.

quinta-feira, fevereiro 26

Pintura: A velha (pintora) internacional

Nesta e na próxima semana os meus artigos serão sobre a internacionalmente conhecida pintora Paula Rego. O primeiro artigo, o de hoje, terá um carácter biográfico como os restantes artigos que realizo, e o segundo artigo, o da próxima semana, será constituído por duas partes: a primeira será uma análise das obras da pintora tendo como base várias análises de diversos profissionais, e a segunda parte será uma reflexão pessoal sobre as obras e o sucesso da autora, assim como uma reflexão/análise do estatuto e da pintura dos artistas plásticos no nosso país.

Paulo Figueiroa Rego nasceu no ano de 1935 em Lisboa. Desde muito nova que se interessou pelo desenho e em 1952 começou a estudar pintura na Slade School of Art em Londres, onde permaneceu até ao nascimento da sua filha em 1956. Durante vários anos a pintora participou em várias exposições que tiveram lugar sobretudo em Inglaterra e Portugal, mas também nos Estados Unidos da América, Brasil e França. A sua primeira exposição individual em Portugal deu-se a 1961 na Sociedade de Belas Artes de Lisboa, e foi aclamada como um sucesso crítico, já a sua primeira exposição individual em Inglaterra só se veio a realizar mais tarde, em 1981, na Air Gallery e, Londres. Paula Rego conta com vários prémios, dos quais o prémio Celpa/Vieira Silva e Grande prémio Soquil. A pintora Paula Rego foi o primeiro artista associado da National Gallery e é equiparada à ilustre Vieira da Silva, que na opinião de qualquer um que conheça a obra desta, é uma grande honra.

A sua mais recente exposição foi exposta no Museu Rainha Sofia, em Madrid, entre 25 de Setembro e 30 de Dezembro. Esta exposição teve um carácter retrospectivo dividindo o percurso da pintora em quatro: 1953/66, 1981/93, 1993/2000, 2000/2006; e evidencia a passagem das primeiras obras da pintora para as dos últimos anos que contêm um carácter mais narrativo.

NOTA: http://paularego.blogs.sapo.pt/ (neste blog podem vizualizar mais obras e saber mais sobre a pintora, assim como, ver vídeos, nomeadamente da sic notícias, com noticias sobre Paula Rego)

sábado, fevereiro 21

Cinema: Os Anos de Ouro

Como já vos introduzi no meu 10º artigo, os próximos artigo serão dedicados aos anos de Ouro do nosso cinema português. Irei escrever-vos sobre grandes actores, realizadores e os filmes que até hoje se encontram nos nossos conjuntos de filmes.

Assim sendo irei hoje apresentar-vos o filme “A Canção de Lisboa”. Quem não o conhece? Nem que seja só o seu nome.

O realizador deste grande sucesso é Continelli Telmo, mas há quem defenda a importante participação de Chianca de Garcia, mencionado na equipa de produção. Podemos ver a participação de grandes actores, como Beatriz Costa (Alice), Vasco Santana (Vaquinho), António Silva (Alfaiate Caetano), Teresa Gomes e Sofia Santos (tias de trás os montes) e Alfredo Silva (Sapateiro).

A história deste filme baseia-se na vida de Vasco. Vasquinho vive às custas das suas tias de Trás-os-Montes que pensam que o seu sobrinho é um aluno de medicina exemplar. Contudo, este prefere a vida de boémia. Mas esta história dá uma revira volta quando as tias de Vasquinho vêm-no visitar. A partir desta inesperada visita a vida de Vasquinho muda completamente.

A “Canção de Lisboa” foi o primeiro filme a se produzido inteiramente em Portugal. Foi filmado em Lisboa e em Sintra, nos estúdios da Lisboa Filme e com equipamento da Tobis.

Este grande êxito teve a participação de duas grandes personagens portuguesas. Manoel de Oliveira, que na altura ansiava por ser actor de comédia, recebeu o papel de Carlos, melhor amigo de Vasquinho. A outra importante participação foi de Almada Negreiros, o qual produziu dois cartazes de promoção.

O sucesso deste filme foi além fronteiras, chegando aos países do Ultramar e no Brasil. Realizado na altura do Estado Novo, não é de estranhar o sempre presente carácter típico português, principalmente através das músicas populares.

A estreia aconteceu a 7 de Novembro de 1933, no São Luís. Teve tanto sucesso que o dinheiro ganho com os bilhetes chegou para ajudar a pagar parte das instalações da Tobis que se encontravam ainda em construção.

Deste filme ficaram ilustres a música da “Agulha”, cantada por Beatriz Costa e a frase “Chapéus há muitos, seu palhaço”, dita por Vasco Santana.

Com todo este sucesso, não só ficou para a história do cinema Português como também foi adaptado ao teatro musical por Filipe La Féria.