segunda-feira, março 9

Literatura: Palavras cantadas e soltas no ar

É com este artigo e com esta frase que darei início a um novo tema abrangente do meu plano de artigos: a literatura do fado. Para o típico e frequente ouvinte da música de Lisboa, o nosso fado, ou mesmo para os mais afastados desta forma de ouvir os nossos lamentos e harpejos, o elemento central desta música parece ser a emocionada e fascinante voz que entoa as notas mais belas da existência do ser humano. Sem dúvida que este aspecto é comum a qualquer estilo musical e a própria música alimenta-se dessa sua característica um pouco redutora... Na verdade, por trás de quem interpreta uma canção, existem os seus verdadeiros criadores, mentes fecundas que não surgem nos espectáculos mas que o originaram por via da sua imaginação: há os compositores que criam a musicalidade e os escritores, poetas geralmente, que juntam as palavras que melhor calharem em cada momento da melodia que foi sugerida à voz do fadista. E é este desmembramento do nosso fado que eu considero essencial num espaço de debate de ideias e de cultura como este: importa conhecer as vozes, mas também todos os artistas que produzem, dando o seu contributo com alguma arte, a obra-prima que termina cantada junto de um público muito merecido e acolhedor. E aproveito com muita alegria o espantoso artigo do meu colega da música, que atentou à importância da guitarra portuguesa e dos compositores para a música nacional, para iniciar o nosso estudo sobre os poetas que escreveram para as maiores vozes de Portugal, incluindo os formidáveis fadistas, que em mais nenhum ponto do mundo há, e se os houver encontraremos neles uma raíz, ou uma costela, deste nosso canto à beira mar plantado.

O Fado, enquanto conjunto de canções marcantes que se vêem acompanhadas de uma infinidade de sensações ímpares, é cantado, e ao contrário do que disse uma grande e boa amiga nossa que se pronunciou por altura da nossa tertúlia na escola sobre o fado, o fado não é apenas música ("O fado é... música", disse ela): o que o fado é vai desde as guitarras, à música, à voz, mas é muito aquilo que a voz nos canta - o Fado é, igualmente e com muita importância, as palavras que o poeta do fado escreveu para esse mesmo efeito.

Este estilo de música, durante o século XX, e mais nesse século do que no que o antecedeu e do que neste em que vivemos, consistiu num aspecto central da cultura no nosso país: a arte portuguesa alimentava-se do sentimento do fado e das suas lágrimas... E a isto devemos aliar aquilo que mais me deixa entristecido, como decerto o reconhecem: apesar de todo o mérito da literatura portuguesa e da sua qualidade inegável e aceite mesmo no estrangeiro, e digo mesmo que não há dificuldade em vender Fernando Pessoa no lado oposto do mundo, o público português nunca assistiu aos seus escritores conforme estes o mereceram. Embora a literatura seja, e tenha sempre sido, a arte maior em Portugal, o comum dos portugueses não a vive a não a aprecia consoante seria pretendido com a maior justeza. Esta característica peculiar lembrou aos poetas portugueses do século XX que deveriam fazer mais do que simplesmente escrever os seus lindos poemas em folhas que mais tarde se veriam, ou não, impressas. Os poetas começaram a olhar o Fado, através do canto, como a forma perfeita de fazer os seus poemas alcançaram um público muito mais alargado, que, com a ajuda do sentimentalismo brilhante do Fado, se mostraria bem mais vulnerável e receptivo à poesia. E foi pelo Fado que muitos dos mais influentes poetas portugueses do século passado ganharam popularidade e alguns a mantêm nos dias correntes.

Regra geral, os escritores, principalmente os de cidade, ganham hábitos muito fortes de convívio, nomeadamente nocturno, e em grupo ou sós costumam sair e beber, viver a atmosfera da noite que difere gravemente da do dia em que todas as pessoas vivem, e a noite passa a ser um outro dia, mais restrito e selectivo. Em Lisboa, a grande cidade portuguesa, os escritores e poetas frequentavam muito regularmente as casas de Fado dos bairros mais tradicionais, como Alfama, Mouraria ou Bairro Alto, e nestes estabelecimentos contactavam directamente com outros artistas, como compositores e fadistas. Tornou-se, pelo passar do tempo, cada vez mais usual criar um ciclo entre todos estes artistas, de inspirações recíprocas que culminariam numa grande revolução cultural em Portugal, com as devidas limitações impostas pelo Regime do Estado Novo: os criadores inspiravam-se com as vozes dos fadistas e compunham e escreviam cada vez melhor para essas mesmas vozes; os fadistas, por sua vez, com melhores melodias e melhores poemas, podiam chegar ainda mais longe e cantar ainda melhor, uma vez que os criadores começavam a conhecer os pontos fortes do canto da pessoa em questão. E, desta forma, os artistas que o Fado envolve faziam melhorar-se uns aos outros, persistentemente, sempre mais e mais. Sem surpresa afirmo que todo este processo atingiu o auge com a melhor Voz que o mundo algum dia pôde fazer nascer: Amália Rodrigues.

Os melhores compositores e poetas do nosso país, e mesmo de outras nações, dedicaram trabalhos a esta diva maior que tudo o resto que existiu entre nós. E é os poetas que Amália cantou que pretendo tratar nos próximos artigos e no que ainda sobrar deste. Porque os poetas que encontramos na obra da grande Fadista e Cantora podem dividir-se em três grupos: os poetas tradicionais, os grandes poetas e os poetas do Fado.

O primeiro grupo diz respeito aos primeiros poetas que trabalharam com Amália, e os que geralmente trabalham junto dos fadistas; são geralmente poetas nascidos nos bairros antigos de Lisboa e muito junto, de alguma forma, com a atmosfera que é vivida nestes bairros de cariz histórico. Estes poetas não apresentam traços de genialidade muito evidentes, mas mantêm-se quase sempre incrivelmente fiéis ao sistema rimático defendido no Fado, ajudando, como nenhum outro grupo de poetas, à descoberta da verdadeira linguagem do Fado. Neste grupo encontramos nomes como Amadeu do Vale, José Galhardo, Linhares Barbosa e Alberto Janes.

O segundo grupo, o dos grandes poetas, é especialmente importante para a obra mais brilhante de Amália Rodrigues. A Cantora portuguesa ultrapassou-se a si mesma quando surpreendeu o mundo inteiro a cantar Luís de Camões e os seus mais perfeitos, e alguns até mesmo pouco conhecidos do público alargado, sonetos do maior poeta da língua portuguesa. Nos dias de hoje, por exemplo, é bastante comum a um fadista, como Camané o fez já, aproveitar poemas de Fernando Pessoa e cantá-los com a emoção toda do Fado. Na carreira de Amália, encontramos outros poetas já falecidos que a Fadista procurou fazer relembrar junto do grande público que reuniu, como o rei D. Dinis, famoso trovador e importantíssima figura na cultura portuguesa do seu tempo.

O terceiro grupo, na minha opinião o mais importante dos três na perspectiva da carreira e do sucesso de Amália Rodrigues, é sobre o qual me debruçarei nos próximos três artigos. Estes foram os grandes poetas do século XX que, conhecendo Amália, escreveram propositadamente para a sua voz. Neste grupo invulgarmente genial encontramos os influentes nomes de José Régio, já mencionado em relação ao Modernismo, no qual foi uma personagem incontornável, Alexandre O'Neill, David Mourão-Ferreira, José Carlos Ary dos Santos, Pedro Homem de Melo e Manuel Alegre (que ainda hoje é influente e não só pelo que escreve). Deixo de seguida, e para terminar, o excelente poema Gaivota, de Alexandre O'Neill, que é, na minha sincera e ponderada opinião crítica, o melhor de todos os poemas do Fado. Leiam e escutem, e aprendem a ser felizes pelo ouvido...

"Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração."

sábado, março 7

Música : O Génio da Guitarra

Ficou conhecido como o “Mestre da Guitarra Portuguesa” ou o “Homem dos Mil Dedos”, mas Carlos Paredes é muito mais do que qualquer cognome que lhe possamos dar. Carlos Paredes é o pai, o filho e o espírito (mais que santo!) das guitarradas lusitanas, compondo verdadeiras maravilhas sonoras, que tocam mesmo aqueles que não apreciam músicas apenas instrumentais (sem voz). Isto é, na música de Carlos Paredes, não são necessárias vozes para embelezar a canção. A sua beleza está no manejar de dedos do guitarrista, sendo que qualquer ruído externo à guitarra é desnecessário e até desagradável. Tudo isto para dizer que a guitarra de Carlos Paredes cantava (e canta) sozinha, sem precisar de mais nada além da inspiração do autor de “Verdes anos”.

Ouçamos “Movimento perpétuo”



Frenético, de ficar sem fôlego. Este canção é genial na medida em que nos traz emoções à flor da pele sem necessitar de uma letra, lembrando a genialidade de alguns compositores clássicos europeus, como Vivaldi nas suas composições mais delirantes (num bom sentido, claro) e mesmo os solos de guitarra das estrelas dos anos 80 e 90. Carlos Paredes renova as formas de expressar exaltação, transformando palavras em acordes, e gritos em vibrações, que em vez de nos assustarem, como qualquer palavra gritada faria, nos embala.

Não estou a desvalorizar a palavra, obviamente. Ainda mais a portuguesa que é belíssima! Estou simplesmente a valorizar algo que necessita de reconhecimento…o som da guitarra, que por muitas vezes é ouvida como um elemento acessório ou apenas um complemento à música. No entanto essa ideia é errada, pois que por vezes é a sua “voz” que faz a música. O caso particular de Paredes é flagrante, uma vez que as suas obras maiores carecem de acompanhamento vocal, mas excedem os limites da genialidade e da comoção.

Outra das características de Paredes é o despertar do que mais luso há em nós. O Fado, o destino, a saudade, a tristeza alegre…Em “Verdes anos” há um pouco disto tudo, daí eu recomendar-vos a audição da mesma.


É maravilhoso, não? Relaxante, bonito, provocando lágrimas e sorrisos paralelamente. E são perfeições destas que me deixam orgulhoso com a minha nacionalidade e encantado, levando-me a acreditar que as vozes dos anjos se escondem por entre cada acorde.

Entretanto, encontrei este vídeo que resume a ideia de quem foi Carlos Paredes e a sua vida, que acredito ser muito mais interessante que algum texto biográfico que eu aqui escreva. Vejam-no por favor, é mesmo muito bom.



Peço ainda mil perdões por não ter escrito artigos nas duas últimas semanas, mas com a folia carnavalesca e uma gripe enormíssima pelo meio e outras coisas na minha vida que se passaram, os factores preguiça, falta de tempo ou de saúde e vitalidade faltaram, levando à inexistência de dois artigos. Peço as mais sinceras desculpas aos meus colegas de grupo, e aos seguidores do blog.

Cinema: 3 Anos, 3 Filmes, 2 Realizadores

Hoje irei apresentar-vos três filmes, finalizando a década de 30, entrando assim numa nova década no meu próximo artigo.
Os filmes de que vos falarei hoje serão “Bocage”, “Maria Papoila” e “Aldeia da Roupa Branca”. Irei apresentar-vos a sinopse e algumas curiosidades sobre cada realização.

“Bocage”


Sinopse:
Bocage, poeta ferido na guerra, é acolhido quando chega a Lisboa pelo Tenente Coutinho, seu camarada. Em casa conhece as duas irmãs do Tenente e entre os três cria-se um triângulo amoroso. Márcia, desiste do seu noivado e Anália desiste da ida para o seminário. Bocage envolve-se com Márcia, mas é por Anália que o seu coração bate verdadeiramente. Coutinho ao saber do envolvimento entre o seu amigo e as suas irmãs, expulsa Bocage de sua casa. Assim, o poeta começa a frequentar botequins onde conhece Canária, uma cantadeira brasileira, com quem também se envolve.
No fim, Bocage acidentalmente reencontra as duas irmãs e fica a saber que Márcia casou-se e a sua amada Anália se encontra no seminário.
Curiosidades:
Realizado por José Leitão de Barros em 1936.
Esta produção cinematográfica tinha como objectivo chegar ao público português, espanhol e brasileiro.
Em Espanha foi realizada simultaneamente uma outra versão, intitulada “Las Trés Gracias”.
Estreou em Portugal a 1 de Dezembro de 1936. Apesar de todo o empenho, em Portugal e em Espanha “Bocage” foi um total fracasso, ao contrário do que aconteceu no Brasil.

“Maria Papoila”


Sinopse:
Maria Papoila deixa a sua terra para vir trabalhar para a capital. Aqui conhece Eduardo com quem começa a namorar. Contudo, descobre que ele é rico e que já tinha namoro com uma moça da sua condição social. Um dia, Eduardo é acusado do roubo das jóias da patroa de Maria, por ter sido visto a rondar a casa na noite anterior. Quando se pensa que nada mais se poder fazer para salvar Eduardo, Maria Papoila descobre o verdadeiro ladrão e confessa ter estado com Eduardo às escondidas.
Desiludida com a cidade alfacinha, Maria Papoila regressa a casa na sua aldeia.
Curiosidades:
Realizado também por José Leitão de Barros no ano de 1937.
Este foi um de muitos filmes se nas mãos da Censura foi obrigado a ser apresentado sem algumas das cenas do filme original.
Estreou no São Luíz a 15 de Agosto de 1937.
Este foi um filme para as multidões, realizado sem intenções de grandiosidade mas sim de simplicidade e identificação por parte dos espectadores.


“Aldeia da Roupa Branca”

Sinopse:
Numa aldeia pacata nos arredores de Lisboa vive-se uma eterna disputa entre duas famílias com o negócio da roupa branca. Aproximando-se as festas populares da aldeia o conflito entre Jacinto e Quitéria atinge o seu auge originando uma bulha entre a população. Tudo se resolve quando Gracinda, sobrinha de Jacinto, convence o seu amado, filho do seu tio, a regressar à aldeia para recuperar o negócio.

Curiosidades:
Este filme é o último realizado em Portugal por Chianca Garcia, em 1938, como também de Beatriz Costa que o filmou em estado de graça.
“O Velho e o Novo” era o seu titulo original e estreou sem uma cena, que a Censura considerou imoral.
Este é considerado a melhor realização de Chianca Garcia estreando-se no Tivoli a 2 de Janeiro de 1939.

sexta-feira, março 6

Pintura: Não merecemos mais?

Como já tinha explicitado na semana anterior, hoje farei um artigo constituído por uma análise e uma crítica à artista Paula Rego e às suas obras, assim como, por uma reflexão do valor concedido aos artistas portugueses, nomeadamente aos pintores.
Na semana passada apresentei neste blog um artigo de carácter biográfico sobre a pintora Paula Rego, esse artigo tem como finalidade dar-vos a conhecer o percurso da pintora para então apoiar o artigo de hoje.

Como todos já conhecem, ou podem observar a partir das obras desta autora expostas neste blog, a pintora Paula Rego é essencialmente reconhecida pelo carácter chocante, sexual e violento das suas obras.

As pinturas da Paula Rego abordam temas relacionados com a sexualidade, onde em vários quadros se pode reconhecer uma cena de violação, uma criança abusada, ou até cenas que não representam especificamente cenas sexuais mas as figuras do quadro mantém uma postura muito ligada à sexualidade; temas relacionados com a morte e outros temas violentos onde a cena representada e as figuras mantém um certo obscurantismo. As obras desta autora constituem um escândalo propositado, na medida em que o quadro tem o objectivo de chocar, assim como muitas obras de pintores vanguardistas, portanto a primeira reacção de qualquer pessoa face ao quadro não é averiguar a qualidade da técnica utilizada, ou a qualidade estética da obra ou ainda o significado mais profundo, mas sim é uma reacção de confronto com a temática e com a violência com que esta nos embate.

A maior parte das obras mais admiradas da pintora, tem um intuito de reconstruir uma história a partir de imagens e ilusões que envolvem todo o quadro quase como o assombrando, não num sentido pejorativo é claro. As temáticas são tão fortes, assim como a representação no quadro, que é como se a pintora sentisse tudo aquilo ou já o tivesse vivido, não que eu tenha alguma informação da pintora ter tido algum caso deste tipo de violência, nem quero passar falsas ideias aos leitores.

A principal razão para eu fazer este artigo foi o facto de eu ter uma opinião muito forte sobre esta artista, na realidade as obras da pintora não são algo que aprecie, achando até que são esteticamente ofensivas, mas como é óbvio é apenas a minha opinião que se baseia naquilo que aprecio esteticamente e que gosto de pintar.

Um dos muitos pensamentos que tenho quando analiso as obras da pintora, é perguntar-me porquê? Como é que algo consegue ter tanto sucesso? A resposta torna-se evidente após ter conhecimento do percurso da pintora e da sua influência em Inglaterra, o que a projectou internacionalmente, uma sorte de conhecimentos e meios. Não estou aqui a pôr em causa o valor da pintora Paula Rego ou das suas obras, mas será que é um sucesso merecido? Será que face aos inúmeros e fantásticos pintores portugueses, que nem sequer são conhecidos em Portugal, a pintora tem um sucesso merecido? É claro que em comparação este sucesso e projecção internacional torna-se injusto e até ridículo, mas a verdade é que a pintora merece tudo isto, o que acontece é que os restantes pintores portugueses também o merecem. A pintura no nosso país está subvalorizada, desconhecida, e ainda somente ao alcance de uma minoria. As pessoas não dão o devido valor à pintura portuguesa contemporânea, e a maioria só diz conhecer e apreciar as obras de Paula Rego porque esta é reconhecida internacionalmente, e para o nosso povo se o estrangeiro aprova é porque é bom e então é um orgulho. Os nossos artistas precisam de reconhecimento e para isso é necessário existir um público interessado, não com isto que eu esteja a dizer que apreciar pintura é uma obrigação, claro que não, mas é necessário valorizar os pintores. A realidade é que ninguém fica indiferente a nenhum tipo de arte, pode gostar mais de uns movimento ou estilos do que outros, mas gosta. A arte faz parte da nossa cultura, define a nossa identidade, e nenhum ser humano consegue ser insensível ao ponto de não ter nenhuma emoção face a qualquer arte, mesmo que seja uma emoção depreciativa.

Com isto tudo, a minha ideia é alertar-vos a todos, leitores, colegas, comunidade, para a existência da Arte, da pintura. Como um actor precisa das palmas do público, um quadro precisa de ser visto, analisado, apreciado, criticado, e um pintor precisa de passar para os outros a ligação que tem com as suas obras, fazer as pessoas sentirem a sua paixão e o seu envolvimento.

segunda-feira, março 2

Literatura: As mãos de Deus na sociedade do Diabo

Lembro, para início desta semana que se avizinha e promete trazer no regaço novidades e algumas alegrias, que iniciei, com o artigo anterior, o estudo da segunda geração de modernistas portugueses. Esta geração, que deu à corrente modernista um novo fôlego e impulso após a morte de alguns vultos que fundamentavam a ideologia, como Mário de Sá-Carneiro, Santa-Rita Pintor e Amadeo de Souza Cardoso. Falo da revista Presença, tal qual sendo uma segunda revista Orfeu na História literária deste nosso bom país. Assim, é justo afirmar dois pontos: primeiro, os fundadores desta revista tornaram-se os efectivos membros e responsáveis por este segundo surto modernista (Adolfo Casais Monteiro, João Gaspar Simões, Branquinho da Fonseca e José Régio); segundo, refiro que a segunda etapa do Modernismo lusitano compreendeu essencialmente uma preocupação literária pelo aprofundar de algumas místicas iniciadas pela primeira geração, sendo que os artistas plásticos modernistas não se evidenciaram com vantagem nesta segunda geração. E se falamos em diferentes gerações, implica que vários anos tenham passado, como um interregno que tivesse trazido diferentes inspirações e projectos inovadores. A primeira geração de modernistas correspondeu ao verdadeiro início do século, nos seus quinze anos iniciais, principalmente. A segunda geração corresponde aos artistas que se uniram, num projecto uno e concreto, a partir dos anos 20 até ao avançar do movimento neo-realista, iniciado na década de 30.

Entre as personalidades que demonstram a genialidade desta nova geração, apenas José Régio me faria erguer do meu assento numa interminável ovação, e com efeito tornou-se o grande impulsionador de todos os poetas do seu tempo, e o grande ideólogo da manutenção dos cânones modernistas na literatura. As influências que eram trazidas do estrangeiro pelos intelectuais, e mesmo aquelas que eram sugeridas pela conjuntura interna de Portugal, ditaram as opções que divergiram o ideal da primeira geração do Modernismo e esta que estudo hoje. A Guerra Mundial, antes dos anos 20, revelou a brutalidade das acções humanas e as suas dramáticas consequências, como um conflito num dado sítio possa fazer sofrer os lugares mais remotos. José Régio, na sua poesia milagrosa, de tão excepcional, assimila esta desconfiança na espécie humana, os dramas do indivíduo que questiona o bom funcionamento e o conceito de sociedade que o alberga. As suas convicções socialistas, a par das de muitos e tantos outros escritores portugueses, permitem percepcionar com certa facilidade este espírito carente de mudança e de ajuda, que procura as soluções para a sua pessoa e para a humanidade que parece condenada à destruição de si mesma.

"Poeta sou! cumpro o meu Fado, estranho

Como o dum santo ou um louco

Só posso dar de mais ou muito pouco,

Que é tudo quanto tenho."

Estes quatro versos, escritos pela mão mágica de José Régio, demonstram, melhor do que as minhas especulações podem fazer-vos entender, as dúvidas que baseiam a sua personalidade: um sujeito que se isola, olhando os outros em sociedade como um objecto onde apenas pode depositar os extremos da sua alma - o tudo ou o nada. Não existia meio termo na dedicação deste homem, parecia ele amar demais e querer demais, sempre demais para os outros o poderem satisfazer; ou então queria pouco, tão pouco, e tão pouco oferecia em troca, que o mundo o deixava de ver, de observar, e o esquecia, deixando-o abandonado nos seus sonhos perdidos.

O parto do poeta, cujo verdadeiro nome era José Maria dos Reis Pereira, deu-se no primeiro ano do século XX, tornando-o o primeiro grande poeta verdadeiramente contemporâneo. Vila do Conde foi a terra que o viu nascer, além a norte mesmo do Douro, em território tão frio e tão chuvoso se compararmos com a cidade linda que o viu sofrer e passar a maioria da sua vida: Portalegre. Em Vila do Conde cresceu até completar o quinto ano do liceu, e até essa data tinha já escrito alguns poemas que se viram publicados em jornais locais. Na universidade cursou Filologia Românica, e lá conheceu os seus futuros colegas da Presença. Esta revista viria a ser publicada em edições sem frequência fixa e sem modelo comum: tratava-se de uma reunião de pensamentos, dissertações e obra literária dos seus escritores, sendo impressa cada vez que se encontrava pronta para o efeito. A tese da sua licenciatura anunciava já a sua extrema vocação para a literatura: o século havia-se iniciado havia poucos anos, e a tal tese centrava-se nas tendências e correntes literárias que se manifestaram desde o fim do século XIX, abordando já nomes pouco conhecidos na altura, como Mário de Sá-Carneiro ou Fernando Pessoa. Em Portalegre, onde viveu a sua vida numa estalagem da qual fez casa após a adquirir em completo, leccionou durante mais de trinta anos.

Mas é comum dizer que o isolamento deste poeta terminava nas horas em que ensinava os seus alunos. Findo esse período do dia, encontrava-se só, vivendo sozinho, percorrendo por vezes os campos em redor de Portalegre no seu burro. Era um homem da solidão, e nela sabia como encontrar um certo encanto e uma beleza acima da que achava existir na vida social. Uma das suas outras paixões era a colecção imensa de obras de arte sacra que reuniu na sua casa branca de Portalegre, e que hoje corresponde a uma casa-museu de extremo interesse - que eu mesmo tive já o grande prazer de visitar num dia soalheiro e memorável.

Grande parte da sua obra centra-se no binómio Deus/Diabo, analogia para Indivíduo/ Sociedade, como o demonstra o seu mais significativo poema, denominado Cântico Negro, do qual se segue um aclamado e brilhante excerto:

"«Vem por aqui» - dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: «vem por aqui»!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali... (...)

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: «vem por aqui»!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
- Sei que não vou por aí!"

E aqui termino a abordagem longa que fiz do Modernismo, e ainda nos próximos meses verão neste espaço de literatura o tratamento da literatura do fado. E não por acaso que tenha escolhido este poema de José Régio para dar termo ao estudo do Modernismo. Afinal, positivamente, quais versos algum dia escritos hão-de conseguir demonstrar tão mais fielmente o propósito e a mudança que os modernistas introduziram, o seu espírito de buscar a novidade e a diferença, a sua longa procura pela negação das tradições gastas no passado, do que estes?

"Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
- Sei que não vou por aí!"