quinta-feira, maio 14

Música: Chamem a polícia!

Ainda dizem a não polícias por aí, pela rua. Podem não estar por aí, nos bairros melhores ou piores, mas andam pelas ruas da história do Rock português e nos ouvidos dos portugueses que os ouviram e ouvem. Das bandas que vos vou falar hoje, uma é um caso de sucesso que durou dos anos 80 até hoje; outra teve algum sucesso, desapareceu por uns tempos, e voltou há pouco tempo; outra é totalmente desconhecida de 99,9% da população portuguesa, e foi mais efémera que um bom disco da Ruth Marlene. Falo-vos, respectivamente, dos GNR, dos Trabalhadores do Comércio, e dos PSP. A ligação da primeira e da última à polícia é óbvia (a sigla senhores, a sigla). Já os Trabalhadores do Comércio foram inseridos neste artigo sobre as "forças policiais" dos anos 80, uma vez que o seu êxito maior intitula-se "Chamem a pulíssia", de erros crassos no título, mas propositados, demonstrando o humor nortenho do grupo.

Atendendo ao apelo dos Trabalhadores do Comércio, provavelmente tradicional, que nos anos 80 não havia centros comerciais, trouxe a polícia à baila. E comecemos pela PSP. Aliás, pelos PSP, o Projecto Som Pop, grupo que, quando mencionado em termos musicais, é tido como uma alcunha aos GNR, como algo do género, "Antes havia um grupo chamado PSP!", "Ahahah, tens tanta piada. Toda a gente sabe que esses são os GNR, e tu estás apenas a mangar connosco". Pois enganam-se! Houve mesmo um grupo com este nome.
O fundador é, pois claro, um ex-membro da formação inicial dos GNR. Formaram-se no Porto, e eram formados por Vítor Rua (o ex baixista, guitarrista e vocalista dos GNR), Dom Lino que tinha a seus cuidados a bateria, e Luís Carlos, o homem que tratava de adicionar sintetizadores e ritmos computorizados, tão célebres na época. Gravaram o seu único disco para a editora Ama Romanta, uma entidade independente que surgiu nos anos 80, da qual fazia parte João Peste dos Pop dell'Arte. O disco intitula-se "Pipocas" , editado pela Ama Romanta com independência em relação ao totalitarismo que controla o mercado musical, com as suas inevitáveis extensões nos mass-media.


Do alinhamento do disco fazem parte temas como "Pico Fininho", "Oh, So Much Love", "Fadó-Samba", "Pi Pi Pi Pá", "Toillet Zone", "Portugal Na CEE" (uma nova versão muito mais lenta que a original) e ainda os temas "Instrumental n.º2", "Instrumental n.º3", "Instrumental n.º 4", "Instrumental n.º 5" e "Instrumental n.º 6". Recorde-se que o "Instrumental n.º1" era o lado B do single "Sê Um GNR".
Neste trabalho Vítor Rua conseguiu, finalmente, ter liberdade total para fazer o que queria, sem estar condicionado aos ritmos do mercado discográfico, algo que não acontecia aos GNR. É, por isso, que este disco "Pipocas" é associado à música moderna portuguesa, primando por ser um dos seus discos mais experimentais.
O estilo de música do disco varia entre o samba, a Pop, a canção latina, entre outras, com canções cantadas em português e inglês e até em castelhano, com sotaque português.


Após a edição deste disco a banda terminou. Rua continuou com os Telectu e regressaria com os Pós-GNR, sendo que depois chegarão a haver processos em tribunal entre Vítor Rua e GNR. Aparte de todas a querelas, pode-se concluir que, apesar da raridade (actual) das amostras da música dos PSP (nenhuma se encontra na Internet sequer), estes tiveram grande importância para o seguimento da música experimental portuguesa, mais que muitas bandas e artistas de carreiras enormes. Um único álbum marcou, efectivamente, a diferença, sendo que não é a quantidade que determina a excelência do artista, mas a qualidade. A única quantidade que interessa é a quantidade de originalidade, e essa não lhes faltou, sendo um projecto P.ara S.uperar P.ortugal, isto é, ultrapassar preconceitos musicais, e evoluir.


O Grupo Novo Rock (GNR) constitui-se oficialmente em Setembro de 1980. Os elementos do grupo eram Toli César Machado (bateria), Alexandre Soares (guitarra) e Vítor Rua (guitarra). Pouco tempo depois entra para a banda o baixista Mano Zé que já tinha tocado com Rui Veloso.
O primeiro single, com os temas "Portugal Na CEE" e "Espelho Meu", é editado em Março de 1981. O single é um grande sucesso vendendo mais de 15.000 exemplares. Mano Zé abandona, Miguel Megre entra para o seu lugar e mais tarde iria também ocupar-se das teclas.
Ainda em 1981, o grupo lança o single "Sê um GNR" que acaba por vender mais do que o primeiro. Em Setembro entra para a banda o vocalista Rui Reininho.

O primeiro LP, "Independança", é editado em 1982. O disco foi um êxito em termos de crítica, mas é um fracasso em termos de vendas. O disco inclui outro grande sucesso, "Hardcore (1º Escalão)". O lado B do álbum incluía a faixa "Avarias"... com 27 minutos de duração.
A seguir à edição do álbum começam a aparecer os problemas internos na banda. Miguel Megre sai e Alexandre Soares é convidado a sair. Em Agosto de 1982, os GNR actuam no Festival de Vilar de Mouros, apenas com Reininho, Toli e Rua. O concerto chega mesmo a ser anunciado como o último do grupo.

Toli e Vitor Rua são convidados a produzir o álbum de estreia de António Variações. As gravações param a meio porque o estúdio estava super-lotado. Vitor Rua e Jorge Lima Barreto deslocam-se a Nova Iorque e quando regressam Rua decide abandonar o grupo. Então o baixista Jorge Romão (ex-Bananas) e o teclista novo entram para o grupo e Alexandre Soares regressa.
O local de ensaios passa para a cave da casa de Alexandre Soares. "Os Homens Não Se Querem Bonitos" é editado em Julho de 1985. O disco inclui clássicos como "Dunas" e "Sete Naves".

Alexandre Soares sai do grupo em 1987. Para o seu lugar entra, temporariamente, o guitarrista Zézé Garcia, dos Mler Ife Dada, que actua, em Abril, no concerto do Coliseu dos Recreios.
Ainda em 1988, Zézé Garcia regressa em definitivo ao grupo depois de se desligar dos Mler Ife Dada. O álbum "Valsa dos Detectives", com produção do francês Remy Walter, é editado em Março de 1989. Os maiores sucessos deste disco são "Impressões Digitais", "Morte ao Sol", "Dama Ou Tigre" e "Falha Humana".

Mais tarde, já depois do virar do século, para as gravações de "Popless" recorrem aos préstimos do produtor Nilo Romero. O primeiro single é "Asas (Eléctricas)" tema incluído na banda sonora do primeiro telefilme da SIC, "Amo-te Teresa". O disco inclui também os temas "Popless" (com direito a clip censurado na tv!!!), "L's" e "Essa Fada". E enfim, contar mais para quê. Os GNR, depois de tantas entradas e saídas no grupo, mantiveram sempre a sua genialidade, dando sempre passos à frente do seu tempo, procurando a originalidade sem se desviarem do seu G.éN.eR.o.. E por isso são o que são hoje, um grupo respeitado, e de qualidade.







Em 1979, Sérgio Castro e Álvaro Azevedo (membros dos Arte & Ofício) dão corpo a um projecto paralelo a que chamam Trabalhadores do Comércio.

A característica principal do grupo era o facto de cantar em português, com sotaque à moda do Porto, enquanto os Arte & Ofício construíram toda a sua carreira cantando em inglês. Também havia a questão das letras das músicas, que tinham um certo humor.

O seu disco de estreia, editado em 1980, foi o single intitulado "Lima 5", continha um refrão que dizia o seguinte: "Eu só paro lá no Lima 5, Sou um meu de grabatinha e brinco". A voz do grupo era a do sobrinho de Sérgio Castro, João Luís Médicis, então com 7 anos.
O grupo faz algumas primeiras partes dos Arte & Ofício e edita em 1981 um novo single: "A Cançõm Quiu Abô Minsinoue" (traduzindo: A Canção Que o Avô Me Ensinou).

O primeiro álbum "Tripas à Moda Do Porto" foi gravado em Londres e contém o tema mais conhecido da banda: "Chamem A Polícia" (ou "Chamem a pulíssia", no título original.) Outros temas, onde o humor tem lugar marcado são "Atom Messiu, Comantalê Bu" ou "Paunka Roque" (???), para além de "Birinha", "Sim, Soue Um Gaijo do Pôrto" e "Quem Dera".
O segundo álbum foi um fracasso, e todos os outros passaram despercebidos. Os maiores momentos da carreira da banda, após o primeiro álbum foi a ida ao Festival RTP da Canção com o tema "Os Tigres De Bengala", que se classificaria em segundo lugar, e o CD gravado em 1990, se bem que o impacto não foi tanto.
De 1996 a 2007 o grupo rock de humor próprio faz uma pausa, sendo neste último ano que voltam aos palcos, por culpa do seu hit "Chamem a Pulíssia", estando de novo na merecidíssima ribalta.






P.S. (P.) Este artigo tem como objectivo fazer-vos perceber que, por vezes, as forças policiais fazem alguma coisa de evolutivo. Agradeçam ao apelo aos comerciantes do Porto...

segunda-feira, maio 11

Literatura: Certos sinais de incerteza

O nome que atribuo a este artigo de hoje pouco diz respeito ao seu fundamento teórico, antes se insinua em relação a uma gama de sinais do Além que tenho recebido na minha intimidade e que escolho expressar ao geral de público, como se tivessem muito poder de destruição se ficassem como segredos meus, mas fossem inofensivos sinais se o seu risco se dissipar por muitas almas. Diz, assim, mais respeito a um desabafo que muitos considerarão de bom humor, e que por noção de estética e muitas outras que o tempo me fez adquirir no conjunto das demais, pretendo que construa o início imediato deste artigo que me apraz divulgar-vos. Passam já certos anos, mais longos que os dias se estes se isolam na conjuntura que se forma em nós pensantes, desde que me dei perante um teste de personalidade que, de uma forma genérica, não resultou em novidade alguma para o meu conhecimento de mim mesmo: somente teceu sobre mim uma consideração que logo compreendi ser verídica. Nela se dizia que as minhas horas de maior actividade são as que se dão enquanto os outros dormem, e eu insisto em não fechar os olhos. Durante todo o tempo que tem passado, essa situação, que sempre reconheci como acertada tendo em conta o que nitidamente entendo de mim próprio, apenas se tem afirmado consistentemente em ocasiões muito singulares, como por exemplo a frequência de dias em que durmo a sesta ou passeio e vagueio durante a tarde, para trabalhar e esforçar-me até altas horas do serão e da madrugada, quando já todos repousam de um dia cheio, o qual passou por mim de uma forma dissonante. Contudo, descobri há coisa de semanas, ou mesmo meses, que o teste podia estar a avisar-me de que um grande prazer, então escondido ante a máscara da improbabilidade, esperava a minha atenção: encontrei muita satisfação quando um dia, todos já deitados e alguns roncando durante o seu sono, cheguei com a ideia de não me deitar também eu, mas antes disso ver um filme, apreciá-lo na paz enorme que o silêncio e o escuro conseguem conceder aos seus apaixonados. Em mim, a noite tem a forma de singela tentação; mesmo que a minha actividade venha a significar que me sirvo menos do sono para o repouso pessoal, o prolongar dos trabalhos ou do lazer pela noite fora têm-me mostrado uma nova maneira de viver os dias, e como eles podem ser bem maiores do que julgamos. O dia tem, efectivamente, vinte e quatro horas, às quais se seguem outras vinte e quatro horas; para as comuns das pessoas, o dia tem dezasseis horas, porque o sono de oito horas diárias é nelas uma certeza inabalável e inviolável. Ora, no meu entendimento da questão, o sono insere-se na altura em que preciso dele, seja de tarde, seja de noite.

Todo este horror de linhas escritas para vos contar que há dois dias vi um filme, que adquiri nas férias da Páscoa passadas, sozinho, no calor do meu leito. O que me fez preferir esse filme e preterir as outras hipóteses foi a magnífica actuação do meu actor de eleição, Al Pacino, que nos leva para além do imaginável trabalho do melhor actor em que pensemos. O tema do filme, contudo, pouco ou nada interferiu na escolha a que procedi: aborda, através da personagem que Pacino interpreta com mestria, a cegueira. Esquecia-me eu, nesse tempo, que no dia seguinte, ontem, veria, na companhia de dois íntimos amigos, o filme Ensaio sobre a cegueira, a partir do romance de José Saramago. Ao início jogando com a situação, disse serem sinais de uma cegueira futura que se abaterá sobre os meus olhos. Brincadeira ou não, hoje apercebi-me que falava em cegueira, numa daquelas expressões populares em que referimos a cegueira, como fazer algo às cegas. Não foi esta a expressão, todavia. E oxalá à minha saúde que as minhas ousadias não clamem por castigo ou que nada do que antevejo venha a concretizar-se.

Para alguém, como eu, que conhece bem a obra mencionada, tais sinais até carecem de alguma solidez, assumindo que a cegueira que José Saramago refere não se trata de uma cegueira da própria visão, mas da consciência humana. Esta interpretação vem de um estudo e mesmo de alguma pesquisa que desenvolvi por precaução contra informações que eu pudesse prestar sem o mais completo rigor. A obra, em traços gerais se os mais não me são absolutamente permitidos, conta-nos do alastrar de uma epidemia macabra que faz toda a população de um sítio incógnito apanhar cegueira, deixando de ver senão um cenário plenamente branco defronte dos olhos. O primeiro indivíduo a cegar perde a visão durante a condução. Esse acaba por alastrar o mal a quem lhe roubará o carro, à esposa e, por exemplo, ao condutor do táxi que o levará a uma consulta de oftalmologia. O médico que o assiste, desconhecendo a origem daquela patologia nunca estudada por médico nenhum da sua praça, decide estudar toda aquela invulgaridade. Pouco tempo se dedica ao projecto: nas próximas horas há-de cegar, sendo enviado para um antigo hospital de psiquiatria, até então abandonado, que os responsáveis nacionais pela saúde elegem como lugar para onde enviar os portadores da nova doença contagiosa. Quando estão para levar o homem para a quarentena, sua mulher diz aos enfermeiros estar igualmente cega, sendo transportada de forma igual. O intento de mulher do médico é não se afastar do marido, mas a sua condição, a princípio ignorada pelos restantes infectados, fará com que esta mulher veja os comportamentos da raça humana pela sobrevivência, na miséria e indecência extremas. Esta mulher, cercada de cegos, acabará por nunca perder a visão, ajudando tantos quanto vai sendo da sua capacidade. Vão chegando mais e mais cegos; diariamente os guardas depositam à entrada do hospital os alimentos necessários ao sustento e manutenção daquelas vidas, que com dificuldade tentam adaptar-se às suas novas limitações. Certo dia, todos são vitimados por um plano maldito levado a cabo por um grupo de homens cegos: portador de uma arma de fogo, o chefe destes homens toma conta de todos os alimentos, sujeitando todos os outros cegos a determinado pagamento em troca de géneros alimentícios. Quando os objectos de valor, utilizados para o dito pagamento, se esgotam, os alimentos passam a ser entregues mediante outro preço: que as mulheres de todas as camaratas se dirijam, noite após noite, perto desses homens para que eles se sirvam delas desde o serão até de madrugada, chegando a matar algumas durante os actos obscenos. O horror que terminei de relatar tem termo quando um incêndio destrói tanto o hospital como grande parte dos infectados. Já havia deixado de haver guardas a vigiar o hospital: toda a população humana estava infectada, matando-se pela própria existência. A sociedade e a civilização, pela descontinuidade de apenas uma das suas bases, haviam cedido. Um grupo de cegos, auxiliado pela mulher do médico, possui as únicas possibilidades de se sagrar sobrevivente diante de tamanha desorganização de uma cidade fantasma, onde cegos persistem em tentar encontrar comida num supermercado há vários dias vazio. Cães alimentam-se de humanos mortos; a chuva limpa a rua de cadáveres; o Sol faz tudo feder. Com muito tempo passado, a humanidade deve limitar-se a pouco do que era antes, quantitativamente falando. O primeiro cego, sobrevivendo sempre junto da mulher do médico, recupera a visão. Pela devida ordem, todos verão de novo. Apenas a mulher do médico, agora não necessitando de olhar por si e pelos outros, se arrisca a tornar-se cega por fim.

A obra, tanto em livro como em filme, apela à consciência humana, à ajuda mútua, à cooperação, à sabedoria. A cegueira de toda a humanidade é a sua carência de valores de integridade, de bondade, como os humanos os conheceram há muitos séculos. O consumismo, o comodismo e o egoísmo são somente factores da cegueira de que sofre quase toda a espécie humana. Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara é a expressão que sintetiza, segundo Saramago, a sua obra: afinal, quase sempre olhamos para os outros... mas quantas vezes reparamos neles efectivamente?

Uma diferença lógica entre livro e filme, e que adquire um interesse muito amplo, é o facto de o filme ser uma sucessão de imagens, enquanto um livro consiste num relato cujos leitores ou ouvintes devem imaginar o sucedido e que lhes é contado. No livro de José Saramago, esse conceito é utilizado e aproveitado até ao limite: um leitor não vê, apenas imagina a imagem que o narrador pretende desenhar: como numa cegueira verdadeira. Somos, assim, tornados também nós cegos, lendo uma obra sobre a nossa própria cegueira, seja ela de não ver imagens, seja ela de não ver a realidade factual. Num filme, tudo se altera, como sabemos. As imagens seguem-se uma à anteriormente exposta: e o público vai tomando contacto com os factos, assistindo a eles, observando-os. Não direi que o filme remove o conceito que Saramago criou, se mesmo este grande escritor não hesitou, profundamente comovido, em situar este filme do realizador brasileiro Fernando Meirelles na perfeição a que é possível um filme chegar. O realizador, e toda a parte técnica por detrás da gravação, deu atenção a todos os detalhes - a imagem do filme baseia-se no tom claro, ou mesmo no branco: as personagens têm, regra geral, pele muito clara, as paredes são brancas ou são de vidro, o carro do primeiro cego é branco, as armações das camas das camaratas são brancas, etc. Tal e qual a cegueira branca que nos conta José Saramago. Esta história é a essência de um dos livros mais vendidos e aclamados deste escritor maior. O filme, muito recente, ajudou claramente à persistência do sucesso que o livro sempre teve. A par com Memorial do Convento e O Evangelho segundo Jesus Cristo, Ensaio sobre a cegueira é tido como a grande obra literária de José Saramago. Sempre soube, desde que me lembro, que surgiu, há imenso tempo, uma proposta de cedência de direitos de autor para a realização de um filme baseado na obra Memorial do Convento. Desconheço o que está por detrás tanto da proposta como da rejeição de Saramago; todavia, creio que este sabe bem de que forma se terá comprometido e penso que teve as suas razões para não deferir o pedido. Noutras ocasiões permitiu o uso dos seus conteúdos em obras de outras artes: como exemplo, este filme Ensaio sobre a cegueira ou a ópera italiana Blimunda, a partir de Memorial do Convento e que foi um enorme êxito no teatro Scala de Milão. Em certas pessoas podemos confiar os destinos da cultura e da literatura portuguesas, que eles saberão bem, ou muito bem, o que fazem.

sábado, maio 9

Cinema: Vejam o Primeiro Filme a Cores Sonoro

Primeiro peço desculpa aos leitores pela ausência do meu artigo que deveria ser publicado no dia 2 de Maio.

Assim, hoje dou-vos dose dupla. Irei apresentar-vos o primeiro filme a cores e uma pequena biografia do autor.

Foi na década de 60 que surgiu o primeiro filme a cores em território nacional. O filme intitulava-se “Raça”, realizada a1961 por Augusto Fraga. Contudo foi o filme “Dom Roberto” que marcou a ruptura com o antigo cinema português.

“Dom Roberto”, de nome verdadeiro João Barbelas (Raul Solnado), um mendigo que exibe fantoches apaixona-se por Maria (Glicínia Martins), a qual também não teve um passado melhor. Vão ambos viver para uma casa que julgam ser dele. Contudo, o destino não é como se espera e voltam os dois para a rua da amargura. Mas mantêm a esperança e ternura.

Este filme estreou no Cinema Império, no dia 30 de Maio de 1962, e contou também com a participação de Nicolau Breyner e Rui Mendes. “Dom Roberto” foi ao Festival de Cannes em 1963 e recebeu a Menção Especial do Júri do Melhor Filme para a Juventude.
José Ernesto de Sousa foi o autor deste marco importante no cinema português.


Nasceu em 1921 e foi um homem dedicado às diversas artes, desde cinema, teatro, jornalismo, fotografia, rádio e crítica. Foi fundador do Cineclubista em Portugal e também o fundador, com Paulo Rocha, do Novo Cinema, ou seja do cinema a cores em Portugal.


Para além do filme “Dom Roberto” de 1962 realizou ainda outros filmes. “O Natal na Arte Portuguesa” ainda na década de 50 (1954); “Crianças Autistas”, 1969 e ainda “Cantigamente”, em 1974.

quinta-feira, maio 7

Pintura: António Charrua

Em primeiro gostaria de justificar a minha ausência neste blog nas últimas duas semanas. As preparações para a tertúlia, as actividades extra-curriculares onde participo e outras situações aliadas ao esquecimento levaram a que nas últimas duas quartas-feiras não elaborasse artigos de blog.

O artigo de hoje demonstrará a vida e obra de António Charrua. O nome deste pintor alentejano surgiu quando estava a explorar o site do museu do neo-realismo e os artistas cujas obras já tinham sido expostas neste museu.
António Charrua nasceu em 1925 e veio a falecer em Agosto do ano passado. O artista dedicou-se à pintura, escultura, gravura e cerâmica, evidenciando tendências expressionistas e abstractas.
Frequentou o curso de Arquitectura na Escola De Belas-Artes em Lisboa, porém não o terminou. Expôs individualmente pela primeira vez no Porto em 1953 e no mesmo ano participou na VII Exposição Geral de Artes Plásticas que teve lugar na Sociedade Nacional de Belas-Artes (SNBA) em Lisboa.

António Charrua esteve ligado a vários grupos e associações como a Cooperativa de Gravadores Portugueses (a GRAVURA), aos “artistas resistentes” e aos Independentes. Em 1960 o pintor foi galardoado pela Fundação Calouste Gulbenkian, onde actualmente está representado através das suas obras. Nos anos 60 as suas obras ganharam um grande carácter político, representando cenas políticas como a guerra colonial portuguesa e outras lutas internacionais como a guerra do Vietname.

Para além da Fundação Claouste Gulbenkian, as obras de António Charrua também estão representadas no Museu Nacional Soares dos Reis e no Museu de Helsínquia. As obras do pintor são apreciadas a nível internacional, mas a nível nacional este pintor não é reconhecido pelo grande público.

António Charrua foi um pintor extraordinário, singular e versátil que deixou-nos, a nós portugueses e ao mundo, uma obra original à qula devemos dar o merecido crédito
.


"(...) o gesto é para mim decorrente da emergência da própria força do acaso que deverá ser assumida, embora nem sempre ele faça lei. Encontro-o tão exacto e irrepetível quanto a própria vida... como quando encontramos alguém no decorrer da existência. Há sempre uma timidez, uma supressão no humano. Nunca dizemos suficientemente as coisas essenciais às pessoas importantes, como por exemplo isto: amo-te." António Charrua


"A minha obra vejo-a como uma pesquisa numa zona marcada pelo gesto expressionista, mas determinada por um certo desejo de equilíbrio, uma certa contenção (...)
Contrariamente ao que se possa supor, não se trata de começar no real, ou naquilo a que se chama natureza. Tudo se passa no plano da tela, e, recusada a ilusão, as coisas situam-se na continuidade do sentido estético, que o mesmo é dizer na própria obra de arte. Suponho que toda a pintura dita moderna apela a uma nova construção do espaço que tem a ver mais com o que se sabe do com o que se vê. Mas o real também está presente, na sua indeterminada, fascinante e misteriosa dimensão". António Charrua

segunda-feira, maio 4

Literatura: Falemos de árvores e de frutos

Por hoje, assumindo já a minha posição diante de uma janela descoberta por onde vem entrando a luz clara da nossa estrela, o Sol nasceu com um brilho que nos tem aquecido a todos, propiciando uma excelente dose de boa disposição muito recorrente deste estado do tempo. Forças honrosas e virtuosas, mas implacáveis no rigor que exigem, forçam à minha posição nesta cadeira, confrontando a luz atrás de um vidro e percorrendo este teclado com estes mesmos dedos de sempre, ao invés de, como mais me agradaria, descer os poucos degraus que me unem ao exterior e balançar os passos por vários quarteirões a queimar-me sob o calor - com a devida moderação. E advém de um espírito que tento conservar apesar de quaisquer adversidades que espreitem - o espírito da satisfação corrente - que me acontece não poder, por razões de ordem moral, banhar-me de Sol e, ainda assim, admirar o que me envolve e deixar-me envolver sinceramente na fascinação do estado ideal de uma mente contente. Quantas vezes o juízo de me encontrar no completo usufruto da luz não faz justamente as vezes do efectivo passeio ao Sol? Ou quantas vezes julgar-me direito, lado a lado com o tronco de uma árvore esguia e farta de ramagens, não implica uma satisfação semelhante à que recolheria se, na verdade, lá estivesse?

Essa árvore poderia bem ser um castanheiro, uma videira, uma laranjeira... E todas as demais espécies que constam dos livros de botânica, que as classificam perante nós como tratando-se de um catálogo. O nome por que evocamos as diversas árvores pode, de acordo com uma reflexão que completei há alguns minutos, dar azo a algumas confusões e erros que escapam ao vulgo: afinal, uma videira é uma verdadeira videira porque dos seus ramos nascem as uvas. Falso. Nada mais falso. E, por consequência de não me identificar com as massas de gente que apontam males sem sugerir resoluções, passo à correcção de tão possível erro de todos nós. Com efeito, o fruto que daqueles ramos vemos nascer, ou sabemos que nasce se nos falta o conhecimento visual, é a uva pelo facto de se tratar aquela árvore de uma videira. A videira é a causa da qual resulta a uva. A uva é o efeito de ali estar uma videira. Nunca a consequência poderia ser a causa da própria causa, ou estaríamos a meditar acerca de casos muito singulares que não importam sobremaneira à questão fundamental que aqui apresento. Certo é, para todos que me lêem, que hoje deveria falar-vos de José Saramago e da sua obra romanesca, em sequência da sua biografia que escrevi já vai para uma semana. Mas que restem ilusões para outras ocasiões onde elas sejam mais válidas. Como homem de palavra, aqui trago a obra de Saramago, mas apenas construindo a ponte da qual apoiei já os fundamentos: da igual forma que a uva não faz a videira mas o oposto já se admite, também não é uma boa obra que faz que ali esteja um bom escritor, mas sim é verdadeiro que é um bom escritor aquele que escreve uma boa obra. A obra literária de José Saramago é, conscientemente o afirmo, fruto de uma mente de génio.

Hoje tratarei somente a sua obra em prosa, pela qual ele é o grande escritor reconhecido em tantas partes deste mundo. Sobre a sua obra poética, em particular, escreverei de hoje a duas semanas, enquanto a sua obra dramática foi já digna da minha consideração no artigo que do teatro português fez assunto. Em primeiro lugar, antes de muita mais informação que aqui será depositada para vosso próprio enriquecimento, penso ser útil separar as duas fases em que é possível dividir a obra romanesca do nosso escritor. Se pensarmos na fase, já mencionada na passada semana, em que José Saramago muito se dedicou à composição dramática e poética, damo-nos conta de que tal obra, no seu geral, é passível de sofrer uma divisão em três fases diversas. No entanto, visto que me refiro à produção de romances, encontramos apenas duas fases que merecem diferenciação. A primeira, entre 1980 e cerca de 1991, e a segunda dizendo respeito ao tempo decorrido entre o final da primeira fase e os tempos que correm. Curiosamente, os limites que aqui acabo de anunciar coincidem com a transferência de Saramago para a ilha de Lanzarote, nas Canárias, onde permanece residindo a quase tempo inteiro. Esta situação pode auxiliar-nos no entendimento de que um episódio de grande mudança numa vida pode induzir a profundas transformações no modo como a pessoa encara mesmo a sua função, a sua ocupação. Claro que num artista essas transformação são mais frequentes e menos calamitosas, uma vez que essas mudanças vão conduzir a alterações na sua obra, que só dele depende, e mesmo a vai tornar mais rica. O primeiro período temporal que determinei foi no qual Saramago definiu o seu estilo próprio, hoje tão conhecido e influente, e em que se dedicou em especial à redacção de romances históricos, enquadrando, sobre um pano de fundo histórico, uma junção saudável entre o realismo e a opinião pessoal sobre os acontecimentos e rumos da História. José Saramago deixa-se, tantas vezes, adicionar alguns ingredientes à própria História, contando-nos os factos de uma outra forma que nos conduza à leitura do passado com os olhos que ele nos está pedindo, do alto do seu raciocínio. Esta característica levou os ingleses a apelidar o estilo literário de Saramago como realismo mágico, textualmente traduzido da anglofonia. O que, no fundo, os aliados ingleses e americanos pretendem dizer acerca do nosso escritor é que este descreve-nos a realidade de um tempo já passado de uma forma pouco convencional e não tanto fielmente ilustrativa, mas em vez disso serve-se da sua vasta imaginação para, com ideias irreais que nos fogem à lembrança, nos fazer perceber melhor a História do que simplesmente enumerando os factos e os sucessos.

O romance Levantado do chão, de 1980, marca o início desta sua fase, em que cresceu e amadureceu como autor. Este romance é sempre apontado como o princípio do grande Saramago que hoje se nos apresenta atrás dos seus óculos ou atrás das capas, hoje amarelas vivas, dos seus livros. Foi ao iniciar este livro que José Saramago consolidou o seu estilo de escrita, que tem vindo a ser polémico mas que tantas vozes, grupo no qual insiro a minha, têm insistido em legitimar. É facto que José Saramago viola as regras de pontuação com que todos nós fomos educados, e mesmo eu, na minha algo ofensiva luta pelo rigor que algumas vezes sustento, manifestava-me contra a sua escrita antes de a conhecer. Hoje, com conhecimento de causa, idolatro o seu génio. O que Saramago faz, em cada um dos seus romances, é uma reinvenção da escrita e da pontuação, à base de vírgulas e pontos finais, ambos mais raros do que o suposto, como forma de retirar ao discurso as pausas que, muitas vezes, são causas para paragens nas leituras e que quebram o ritmo de toda a narração. Este seu método discursivo aproxima o autor de um contador de histórias da tradição oral, em que o que mais importa é o conteúdo e não tanto a forma com que ele se apresenta.

Romances bem demonstrativos desta sua primeira fase de ficção são Memorial do Convento, em que Saramago utiliza a maior obra de construção de Portugal para escrever a maior obra literária da nossa literatura das últimas décadas, em simultâneo que nos ilustra o país que tínhamos no século XVIII; O ano da morte de Ricardo Reis, em que o autor nos mostra a Lisboa de meados do século XX onde terá vivido e morrido o heterónimo pessoano no seu último ano de vida; A Jangada de Pedra, em que Saramago retrata o isolamento de Portugal e Espanha em relação à Europa através do afastamento físico da Península Ibérica, transformando-se esta numa ilha que navega livremente no Oceano Atlântico; e ainda O Evangelho segundo Jesus Cristo, a sua obra polémica por excelência, em que nos conta a vida de Jesus Cristo sob uma perspectiva humanizada - como uma pessoa normal, vítima dos desejos e erros de toda a gente comum. A censura aplicada a esta obra pelo deputado Sousa Lara aquando da candidatura de Saramago a um prémio literário a nível europeu terminou na saída do escritor de Portugal, indo a viver no país vizinho até aos dias de hoje.

O início da década de 90, dessa forma, criou um novo e diferente prosador. Os seus temas afastaram-se da História e centram-se sobre problemas e questões referentes ao ser humano no seu íntimo: as suas fragilidades e as suas forças. Os romances mais importantes desta fase são certamente Ensaio sobre a cegueira, Todos os nomes, Ensaio sobre a lucidez e As intermitências da morte.
O inquérito que, por largos meses, conservei na coluna do lado deste blogue (Qual destes temas considera mais possível de sugerir uma obra-prima da literatura?), permitiu-me ter acesso à receptividade do público em geral em relação aos temas das obras de José Saramago. O largo número de votos facilitou-me a essa percepção, que veio definitivamente de encontro às minhas ambições iniciais, repartindo-se as escolhas da forma que eu pretendia: mais votos na categoria O poder e o dramatismo dos sonhos, número de votos semelhantes nas categorias O desvio abrupto e não anunciado das leis naturais que nos regem, A fragilidade total de algo tão complexo e forte como a civilização e a sociedade e ainda A capacidade de amar, de qualquer forma, o nada, e por fim, reduzido número de votos na categoria A verdadeira palavra de Jesus Cristo. Estes assuntos, em certa medida bem inteligentes para quem os leia, são as bases de muitos dos melhores romances do nosso grande prosador. Alguns deles são até o produto daquela reflexão que não somos acostumados a praticar antes da finalização da leitura. Como que desmistificando, declaro-me no dever de vos mencionar em que livros pensei na hora de definir as diferentes categorias do inquérito. O livro acerca da força dos sonhos e de toda a realidade onírica é Memorial do Convento, onde vemos todos os feitos alcançados por meio de uma vontade que se estabelece e manifesta de variadas formas. A obra que retrata o desvio das leis naturais com que vivemos são A Jangada de Pedra e As Intermitências da Morte, assim como também, se formos abertos à evidência que se achega pela semelhança dos temas, Ensaio sobre a cegueira. Este romance, inicialmente, eu via inserido no tema seguinte, sobre a fragilidade daquilo em que confiamos tudo: a sociedade. A capacidade de amar o nada, de praticar um amor sem um objecto, está patente no romance Todos os nomes. Por fim, com menor número de votos, e com um tema menos popular, O Evangelho segundo Jesus Cristo.

Em todas as artes de criação, não tanto nas de interpretação, o artista não pode ser considerado de menor qualidade e mestria por não possuir um aspecto denominado versatilidade. No entanto, a qualidade invulgar de Saramago torna-o eficazmente criador de literatura não só em prosa, mas igualmente em poesia. No próximo artigo dedicar-me-ei à exploração de uma obra de referência de José Saramago, Ensaio sobre a cegueira, realizando uma analogia entre o livro e o filme estreado nas salas de cinema no ano passado, do realizador Fernando Meirelles. Porém, de hoje a duas semanas, a minha atenção recairá sobre a poesia de José Saramago.

Muito boa semana a todos!